Por Fernanda Oliveira, Jessica Cavalcante e Lisa Tondato
Afeto. Proteção. Amor. Cuidado. Quatro palavras que, sozinhas, já carregam o peso de toda uma vida. Reunidas em uma semana de residência artística, tornaram-se o fio condutor de uma experiência humana, que virou apresentação e que pode ser definida em uma só palavra: transformadora.
O Laboratório Cênico de Dança — Meu Corpo, Nosso Cuidado aconteceu entre os dias 25 e 30 de maio na Escola Livre de Dança de Santo André, em uma realização da Secretaria de Cultura do município, a partir de um encontro dentro do Projeto Dança à Deriva, idealizado e coordenado por Solange Borelli, que resultou em uma proposta que trouxe ao Brasil a artista chilena radicada em Berlim Lorena Valdenegro.
Com formação em Artes Cênicas, dança e Pedagogia Teatral entre o Sul de Chile e Berlim, Lorena fundou o AQUItheater, na capital da Alemanha, em 2016, onde desenvolve seu trabalho como diretora, pedagoga e artista cênica. É diretora de MARTA, peça sobre o feminicídio, e criadora e intérprete de El amor no es turismo. Mas é no trabalho com mulheres que sua atuação ganha contornos mais particulares: acolher e conectar artistas que desejam desenvolver suas expressões, com foco especial em fortalecer mulheres de língua espanhola e portuguesa, construindo pontes entre artistas latinas em diferentes partes do mundo.
Entre o caldeirão e o centro do palco

Ao chegar à Escola Livre de Dança, as participantes sabiam que viveriam um laboratório de experimentação corporal conduzido por uma professora chilena. No entanto, o que as esperava foi muito além disso. Durante os cinco primeiros dias, Lorena nos apresentou sua metodologia e toda sua generosidade, conseguindo rapidamente construir conexão entre as mulheres reunidas naquele espaço, vindas de histórias e experiências de vida muito distintas. Algumas já se conheciam. Outras eram novatas na Escola de Dança. Outras, novatas na própria dança.
Os exercícios propostos tinham a dupla função de aquecer o corpo e aquecer o imaginário. Em um momento de exercício, as mulheres viravam bruxas e mexiam um grande caldeirão imaginário enquanto produziam sons, criavam gestos e riam, com a sua voz e com os seus corpos. Em outros, moviam-se em duplas, trios ou quartetos, aprendendo a sustentar uma parceira enquanto ela ocupava seu momento de protagonismo e, em outros instantes, reivindicando esse espaço para si mesmas, indo ao centro, descobrindo e sustentando a própria presença.
Em um dos exercícios cênicos, Lorena pediu que histórias íntimas fossem compartilhadas. Mas sua maestria ficou evidente ao enfatizar uma fronteira clara: que não fossem trazidas histórias que levassem as participantes a um espaço de dor com o qual não conseguissem lidar. Uma lição silenciosa de autoanálise, autocuidado e reconhecimento de limites. As vulnerabilidades foram relatadas com confiança, proteção e cuidado. Juntas, as mulheres compartilharam dores, alegrias, desejos, sonhos, raivas e indignações. Ali, estavam aprendendo a construir seus próprios roteiros a partir de histórias vividas ou presenciadas, costurando o caminho da dança pela arte da dramaturgia.
As histórias que viraram dança

Cuidar, ressignificar, amar, zelar. Verbos vividos por mulheres na vida cotidiana, com a família, os filhos, os companheiros, as amizades e que, nas mãos de Lorena, foram convertidos em dança e expressão cênica. Cada participante trouxe consigo um pedaço do seu mundo.
Cida é atriz e trouxe um terço que parecia feito de grãos de arroz para embelezar o processo. Nilse cozinha molhos deliciosos para compartilhar com as amigas. Luisa é figurinista e muito generosa dentro e fora da cena. Carolina é franca até no nome. Fabíola fez todas rirem ao contar a raiva que passou em busca de um cabo de celular. Fernanda combina bonitas palavras e também tem um terço nas mãos. Lisa lembrou da dor do machismo e da gordofobia que viveu. Andreia carregava uma pashmina de cashmere e uma capa de chuva, afinal, São Paulo. Anna presenciou a omissão do Estado diante da violência contra uma pessoa em situação de rua. Cidinha encontrou bem-estar em simplesmente ser ela mesma. Jessica costurou suas danças com a linha e a agulha que herdou da mãe. Cris compartilhou a beleza de um perfume recebido de presente da filha. Andréia mostrou seu cuidado ao revelar que fazia sabonetes com a erva macela. Andreia e Ingrid estavam em nossos movimentos.
Lorena enxergou beleza e potência em cada objeto, gesto e palavra dessas mulheres. No dia 30 de maio, o trabalho ganhou forma de espetáculo: uma apresentação cênica de cerca de 30 minutos e que continha anseios, desejos, cumplicidade e a esperança de viver em um mundo com conexões e movimentos que sejam acolhedores e fortalecedores, foi oferecida ao público em uma cerimônia de encerramento para convidados.
A dança como transformação
Que a arte transforma, integra, reúne e alimenta vidas é algo já sabido. O que o Meu Corpo, Nosso Cuidado evidenciou é que, em comunidade, tudo acontece de maneira mais fluida e eficaz do que quando se caminha sozinha. Entender e ressignificar as próprias vivências e levar esse entendimento para o cotidiano é o que faz com que mulheres se conectem, se ajudem e se comuniquem com mais cuidado, carinho e respeito. Sem competição. Com cooperação mútua.
A dança abraça mulheres de todas as idades e experiências, fazendo com que cada uma ressignifique suas dores e histórias e as transforme em relatos, teatro e movimento. Não por acaso, foi exatamente isso o que aconteceu. A construção de um elo e o resgate de muitas e variadas forças. Entre a pausa e o movimento.
Este texto nasce como um gesto de celebração à coragem de cada uma das mulheres que tiveram a ousadia de se expor e como um movimento de agradecimento, sobretudo, à generosidade de uma artista que atravessa continentes para levar luz à força que, muitas vezes, mulheres não conseguem enxergar em seus próprios corpos e movimentos.
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