QUAL O FUTURO DO BALÉ DA CIDADE E DO THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO?

Cena do espetáculo Bioglomerata, do coreógrafo Cristian Duarte – Larissa Paz / Divulgação Theatro Municipal de São Paulo.

Foi divulgado no dia 8 de maio a vitória do Instituto Baccarelli na disputa pela gestão do Theatro Municipal de São Paulo a partir do dia primeiro de junho de 2026. Na concorrência, o Instituto Baccarelli obteve 75,5 pontos, superando a organização social Sustenidos, responsável pela gestão do Theatro de 2021 a maio de 2026, q somou 57,5 pontos. Os pareceres que justificam as pontuações das propostas são no mínimo contestáveis. A Sustenidos apresentou recurso contestando a falta de sustentação nos argumentos dos pareceristas. Após análise, a Fundação Theatro Municipal homologou o resultado final antes mesmo do previsto, no dia 25 de maio, confirmando o Instituto Baccarelli como novo gestor.

A comissão foi constituída por apenas três membros técnicos da fundação, Leonardo Camargo Oliveira dos Santos (diretor de formação), Thiago de Almeida Tavares (diretoria artística) e Rita de Cássia Ribeiro dos Reis (suplente), sendo q, nenhum dos três é concursado. Em regra, as administrações públicas prezam e são obrigadas por lei a incluir servidores concursados em comissões de julgamento. A legislação brasileira adota essa postura para blindar os processos de pressões políticas, garantir a impessoalidade e manter a memória técnica do órgão público.

Para o edital de maior orçamento público no Brasil para gestão de um único equipamento público, é no mínimo estranho.

Para conseguirmos compreender esta mudança de gestão do Theatro Municipal de São Paulo e seus desdobramentos, precisamos olhar não apenas para o resultado de um edital, mas para todo o contexto no qual este edital ocorreu.

Precisamos lembrar da tentativa, em setembro do ano passado, do prefeito de São Paulo Ricardo Nunes de rescindir o contrato firmado junto da organização social Sustenidos, sob a alegação de inconsistências junto ao TCM, e de q um dos seus funcionários teria feito uma postagem em rede social contendo apologia à violência, e q mesmo após ser exigida a demissão do mesmo, a Sustenidos não o teria feito. “solicitamos que a organização demitisse a pessoa, mas ela não o fez. Portanto, pactuou com esse comportamento. E quem pactua com violência não serve para prestar serviço à Prefeitura”.

É no mínimo curioso uma fala como essa sendo proferida por quem faz pacto com o q há de mais violento da cultura política brasileira. Não precisamos nos estender nos argumentos. Nunes minimiza a tentativa de golpe de estado por parte do, hoje condenado a 27 anos de prisão, Jair Bolsonaro e seus aliados. Tentativa de golpe q contava inclusive com um plano para explodir o aeroporto de Brasília, explodir ministro do STF e envenenar o Presidente da República. Além do seu padrinho político Tarcísio de Freitas, graças a quem se reelegeu como prefeito em São Paulo, q defende abertamente ações violentas por parte do Estado, seja comandando ações policiais na Baixada Santista como a “Verão” e “Escudo” (2023-2024) com alta letalidade policial e violação de direitos, também defendendo a execução sumária de 120 pessoas, realizada em outubro de 2025 no Rio de Janeiro a mando do então governador Cláudio Castro, hoje afastado do cargo respondendo na justiça por abuso de poder político, além de ser investigado por supostas ligações com o Comando Vermelho, mesma organização criminosa a qual dizia combater.

Seria o prefeito contra a violência de forma seletiva, a depender do alvo ao qual o gesto de violência é dirigido, ou por quem o é realizado?

Isso sem falarmos dos episódios pessoais de violência com os quais Ricardo Nunes já se envolveu, seja pelo porte ilegal e disparo de arma de fogo, seja pelo boletim de ocorrência registrado por sua esposa alegando violência doméstica, ameaças, injúrias e comportamento agressivo. Enfim.

Apesar do prefeito Ricardo Nunes ter feito de tudo para fazer valer a sua vontade, esse tipo de rescisão precisa passar por um processo legal junto ao TCM, o q permitiu q a Sustenidos seguisse na gestão do Theatro até o fim do seu contrato, em maio deste ano.

A pressão contra a Sustenidos não veio apenas do prefeito Ricardo Nunes, mas também, e talvez, principalmente, por parte de vereadores de São Paulo ligados ao bolsonarismo e à extrema-direita q formaram no fim de 2025 uma Frente Parlamentar em Defesa dos Artistas Livres (sic). Como levar a sério um grupo de vereadores q são fruto do q há de mais antidemocrático e violento na história recente do país falando em liberdade artística? Dizem defender valores cristãos, mesmo q de forma profundamente anti-cristã, sem o menor respeito à alteridade. Alegam atuar contra a “censura ideológica e política restritiva”, para em verdade desmontar políticas de inclusão altamente necessárias para ampliar o alcance e a democratização da verba pública da cultura e da própria cultura na e da cidade, políticas essas q sim, precisam ser melhor elaboradas e implementadas, mas não atacadas e condenadas como atuação ideológica. Política de inclusão não é ação ideológica, mas o mínimo q se espera de um regime democrático, seja de direita ou de esquerda. Atacar política de inclusão de forma autoritária e violenta é pura manifestação de uma ideologia de extermínio da diferença.

Este grupo de vereadores, inclusive alguns deles envolvidos em casos de corrupção, criticam uma ideologização da programação do Theatro Municipal por parte da Sustenidos e de sua direção, quando na verdade, querem sim impor sua própria ideologia à cultura da cidade. Apregoam a defesa da tradição e de valores tradicionais para dissimular e velar o ódio propagado por eles contra toda e qualquer outra tradição q não aquela defendida por eles mesmos.

Em meio às polêmicas, o próprio diretor geral da Fundação Theatro Municipal, Abraão Mafra, q apesar de seu discurso público de inclusão, foi protagonista de ao menos dois gestos bastante simbólicos e contundentes de desrespeito e censura. Foi ele, pessoalmente, quem, no dia 14 de junho de 2023, retirou de forma autoritária e desrespeitosa, as bandeiras do movimento lgbtqiapn+ dispostas na fachada do Theatro Municipal, q deveria permanecer ali ao longo de todo mês de junho em respeito ao mês do orgulho, como vinha ocorrendo desde 2019.

Já em agosto de 2025, Abraão Mafra, cancelou em cima da hora, a realização da FLIPEI, uma grande e importante festa literária de editoras independentes, q ocorre desde 2019 em São Paulo, alegando que atrapalharia o início das aulas das escolas de dança e de música, sendo q o evento já estava há meses programado para acontecer ali na Praça das Artes, inclusive com contrato assinado e autorização da própria Fundação. Em nota, a Fundação alegou também q “no lugar de um festival para promover a literatura independente, de grande valia, a feira tinha em sua programação conteúdo exclusivamente de apelo ideológico, com indisfarçável viés eleitoral”, quando em verdade, a feira se propunha, entre outras coisas, a debater o massacre do povo Palestino em Gaza, sem nenhum tipo de apelo eleitoral. E pior, como se literatura e política fossem campos completamente estranhos entre si, e como se o mercado editorial não fosse inteiramente guiado por recortes ideológicos ao dizer quem merece ou não ter seu trabalho publicado, forçando, inclusive, a necessidade de se criar editoras independentes a fim de abrir espaços para aqueles e aquelas excluídas pelo mercado editorial.

Vale lembrarmos q um ano antes, Abraão Mafra, liberou o Theatro Municipal para a realização do evento de entrega do título de cidadã paulistana à ex-primeira dama Michelle Bolsonaro em março de 2024, concedido pela Câmara dos Vereadores de São Paulo, isso durante as investigações da tentativa de golpe de estado empenhado pelo seu marido o ex-presidente Jair Bolsonaro. Mas é claro q este evento não tinha conteúdo exclusivamente de apelo ideológico, com indisfarçável viés eleitoral.

Será mesmo q há censura para com estes valores q se querem tradicionais, e será mesmo q há toda essa dominação “woke” na cultura da cidade de São Paulo como acusam esses vereadores aliados de um líder de organização criminosa?

Em 2025 e 2026 a Prefeitura de São Paulo intensificou o financiamento com dinheiro público de eventos Gospel, com repasses milionários a festivais e shows ligados a igrejas. Alguns exemplos. 4 milhões de reais para evento da igreja Lagoinha, sim, a mesma ligada ao escândalo de corrupção do Banco Master, com ingressos chegando ao valor de 3 mil reais (!). 1 milhão para evento da igreja Renascer cujos cachês dos artistas girava na base dos 100 mil reais para uma única apresentação (!). R$ 3,5 milhões para a feira de inovação cristã The Connect Faith com ingressos a 300 reais. Estes são apenas alguns exemplos dentre muitos outros.

Enquanto estes vereadores travam uma luta programaticamente imaginária, inúmeras são as denúncias de irregularidades referentes ao destino da verba pública da cultura dentro da gestão do prefeito Ricardo Nunes. E não é para projetos ligados a pautas identificadas pelo termo “woke”, mas para artistas do sertanejo, do forró, do gospel q recebem cachês com valores exorbitantes muito acima do teto estabelecido pela própria Secretaria, além de artistas q são investigados por suspeita de ligação com a organização criminosa Primeiro Comando da Capital. Uma rede de cerca de 15 empresas e ONGs, com laços familiares e administrativos entre si, q recebeu ao menos 545 milhões de reais para organizar grandes eventos como o Natal Iluminado, entre outros, com fortes indícios de corrupção, suspeita de sociedade oculta, favorecimento para contratação direta e dispensa de licitação. Fato este q está sob investigação do Ministério Público. Além dos inúmeros eventos Gospel como os já citados, a discrepância de valores programados e executados na Virada Cultural de 2025, etc etc etc. Sendo q, tanto artistas, quanto empresas/ongs , quanto os eventos possuem alguma ligação direta ou indireta com o próprio prefeito Ricardo Nunes.

Tudo muito suspeito para dizer o mínimo.

São sombrios os movimentos em torno desta troca de gestão.

Enquanto isso, a Secretaria de Cultura da “capital cultural do Brasil, como alguns gostam de dizer, segue – há anos – totalmente sucateada, com desfalque de funcionários, atraso e corte nos pagamentos dos editais. Programas de referência como os Fomentos à Dança, ao Teatro, às Periferias, entre muitos outros, seguem há mais de 15 anos sem um reajuste dos seus valores em acordo com a inflação e com os custos de vida e de produção na cidade de São Paulo, com suas execuções atrasadas, e dependendo de uma contínua pressão da classe artística para garantir as suas continuidades. Assim como não há a implementação de novos programas a fim de contemplar a altíssima demanda da classe artística da cidade.

Neste contexto, se olharmos com o devido rigor para a gestão da Sustenidos frente ao Theatro Municipal percebemos, não uma ideologização da instituição, mas sim, um importante trabalho no sentido de uma maior democratização deste fundamental equipamento público da cidade, q apesar de carregar consigo uma história de reprodução e imposição de uma monocultura de tradição europeia e consequente exclusão das inúmeras e diversas outras manifestações culturais deste território, principalmente aquelas de matriz africana, indígena, mas também de uma certa linhagem crítica e vanguardista da arte com foco no experimental e na pesquisa, possui um enorme potencial de transformação simbólica. E talvez justamente por isso a gestão da Sustenidos tenha incomodado tanto. Uma democratização q se deu não só no sentido de possibilitar q um público mais diverso pudesse acessar a programação do teatro, o q por si já tem uma grandessíssima relevância. Mas também, uma democratização no sentido de inclusão destas inúmeras outras formas de se pensar e fazer arte q até então tinha pouquíssimo ou nenhum espaço dentro do Theatro Municipal. Fato esse q se pode aferir nos programas dos corpos artísticos apresentados ao longo da gestão da Sustenidos de 2021 a 2026. Nunca antes na história do Theatro Municipal de São Paulo havia se podido acompanhar um programa tão diverso, democrático, rico, crítico e comprometido com um pensamento artístico consistente e contemporâneo.

Apesar das crises internas durante seus primeiros anos de gestão, a Sustenidos conseguiu contorná-las e realizar uma gestão muito bem sucedida, sendo a primeira OS a cumprir integralmente seu contrato junto do TMSP desde q se instituiu este modelo de gestão via organização social em 2012.

Talvez o q mais tenha se destacado e gerado repercussão tenha sido os caminhos abertos ao Balé da Cidade de São Paulo. Durante a gestão da Sustenidos o Balé teve duas direções. Quando a OS assumiu a gestão em julho de 2021, Raymundo Costa, ex-bailarino da companhia, estava no cargo de Coordenador Artístico. Após uma transição cuidadosa e em respeito à escolha do elenco de sua direção a partir de uma lista tríplice, Cassi Abranches assumiu a direção de outubro de 2021 a maio de 2023. Mas foi com Alejandro Ahmed, coreógrafo do aclamado grupo de dança catarinense, Cena 11, q assumiu a direção em julho de 2023, após uma escolha direta por parte dos bailarinos e bailarinas – o q é de extrema relevância – q o Balé ganhou um maior protagonismo e uma direção distinta da q até então imperava, abrindo novos caminhos para este importante corpo artístico da cidade.

Com Alejandro à frente da direção da companhia contando com a preciosa assistência de direção de Ana Teixeira, q trabalhou mais de 20 anos na instituição, na qual já foi bailarina e posteriormente atuou como assistente de direção, o Balé, ao invés de seguir tentando se adequar a padrões estrangeiros do q seja ou deixa de ser uma cia de dança internacional – padrões estes, diga-se de passagem, extremamente extenuantes, e mesmo danosos à saúde das bailarinas e bailarinos q privilegia a alta performance e o excesso de criações em detrimento da pesquisa artística e mesmo da excelência artística – passou a questionar este modelo, e aos poucos realizando pequenas mudanças em sua estrutura, revendo seu modo de produção, buscando um maior equilíbrio entre o gesto artístico e as exigências do mercado, sempre em diálogo com o público e com sua própria história. Optou-se por privilegiar coreógrafos e coreógrafas latino-americanas para coreografar a companhia, com suas tecnologias e pesquisas coreográficas singulares, valorizando assim a produção local. Ao invés de importar modelos coreográficos prontos, optou-se por produzir coreografias com um pensamento próprio e num diálogo direto com as questões coreográficas deste nosso tempo. O início de uma atualização q há muito se fazia necessária para o Balé da Cidade de São Paulo. Rompendo com o padrão de se contratar sempre coreógrafos estrangeiros – em geral homens – já assimilados pelo mercado da dança internacional, e q na maioria das vezes produz uma dança já bastante diluída artisticamente. Assumindo, portanto, sua vocação de ser uma companhia de dança pública de uma cidade com a importância de São Paulo.

Salta aos olhos o fato de q nos 58 anos de história do Balé da Cidade de São Paulo foram criadas 242 coreografias, sendo apenas 33 delas por coreógrafas mulheres. Durante a gestão de Alejandro, foram 12 criações coreográficas, 6 delas por coreógrafas e 6 por coreógrafos. Nada tem de ideológico, nem de esquerda, tomar o devido cuidado em se buscar uma paridade de gênero entre as pessoas artistas convidadas a coreografar o Balé. Ideológico é justamente o conjunto de ideias pré-concebidas q estruturam o machismo da nossa sociedade q acaba por criar barreiras e dificuldades maiores às artistas e coreógrafas mulheres.

Além das criações coreográficas e revisões estruturais, é importante também olharmos para os inúmeros programas públicos criados pela equipe de direção – visitas guiadas, ensaios abertos, debates, conversas públicas, etc – q proporcionaram uma maior proximidade do público com o processo criativo do Balé, dos bastidores, dos temas e conceitos trabalhados pelas coreografias, da estrutura mesma da companhia, e claro, uma proximidade junto ao elenco de bailarinas/bailarinos, e toda equipe de criação e direção. Favorecendo assim, a formação de público de dança, fomentando o debate estético e artístico, e possibilitando um contato mais direto com uma rica diversidade de pesquisas e pensamentos coreográficos.

Não é exagero dizermos q o trabalho realizado por Alejandro Ahmed e Ana Teixeira ao longo destes quase três anos, teve uma importância decisiva dentro dos 58 anos de história da companhia. Um marco. Assim como o foi, quando, em 1974 sob direção de Antonio Carlos Cardoso, o Balé rompeu radicalmente com o repertório clássico e passou a realizar criações próprias, a investir na experimentação estética, e a se abrir para outras linguagens da dança, principalmente a dança moderna. Mudança esta q com o decorrer dos anos foi se cristalizando, como é comum q ocorra com companhias públicas. Com as recentes mudanças iniciadas por Alejandro e Ana Teixeira o Balé da Cidade caminhava na direção de uma renovação, atualização, sem perder seus princípios. Mudanças necessárias e totalmente coerentes com sua história. Um trabalho q pedia continuidade e desdobramento, e q infelizmente, ao q parece, será descontinuado.

A esta altura já podemos constatar q os ataques feitos contra a Sustenidos e contra a direção do Theatro Municipal e também diretamente à direção do Balé da Cidade, se deviam não a falhas de gestão, improbidade administrativa, inconsistência artística, ou por qualquer outra incompetência. Pelo contrário, os ataques foram feitos justamente por conta da ousadia da Sustenidos e do seu corpo de diretores artísticos, em enfrentar uma estrutura ideológica de exclusão operante ainda hoje na cultura brasileira, e por rever e questionar um pensamento cultural q se encontra ainda hoje aprisionado a valores estéticos europeus do século XVIII turbinado por exigências produtivas insustentáveis do século XX. Ainda q possamos tecer críticas à gestão da Sustenidos e a alguns programas e criações dos corpos artísticos do Theatro Municipal sob sua gestão, é inegável a excelência do trabalho realizado e a importância histórica desta gestão.

E o q esperar da nova gestão assumida pelo Instituto Baccarelli?

Primeiro precisamos entender quem é o Instituto Baccarelli. Organização social sem fins lucrativos q atua desde 1996 na favela de Heliópolis em São Paulo, oferecendo formação musical gratuita para crianças e jovens com foco no repertório clássico, romântico e um bem restrito modernismo da música de concerto europeia com algumas poucas exceções para compositores brasileiros românticos e modernos já consagrados como Carlos Gomes e Villa Lobos. O instituto tem um foco assistencialista, q tem sua importância, porém, reproduzindo uma visão da arte extremamente limitada. Visão esta q fica escancarada quando lemos atentamente a proposta de gestão encaminhada pelo Instituto para o edital de concorrência pela gestão do TMSP.

Chama a atenção o fato do Instituto não possuir nenhuma ligação com a dança e ainda assim ter ganho o edital para fazer a gestão dentre outros corpos artísticos do Balé da Cidade de São Paulo. De forma atropelada, o Baccarelli, em seu plano de gestão, impôs um novo diretor artístico para o Balé, desrespeitando a tradicional escolha feita através de uma lista tríplice apresentada para q o corpo artístico realizasse a escolha de sua direção. Chama mais atenção ainda o fato do Instituto ter imposto um novo diretor dentro todos os corpos artísticos apenas para o Balé.

Qual a necessidade de se mudar com urgência as direções do Balé da Cidade, inclusive demitindo sem aviso prévio tanto o diretor artístico Alejandro Ahmed quanto a assistente de direção Ana Teixeira? Porque o ataque mais direto ao Balé?

No trecho dedicado ao Balé em sua proposta de gestão, o Instituto reconhece avanços durante a direção de Alejandro, porém, faz críticas totalmente infundadas. O texto é bastante ambíguo, e escancara uma total falta de conhecimento por parte do Baccarelli para com os caminhos e debates da dança contemporânea atualmente. Se insiste exaustivamente na ideia de q trabalhar com uma perspectiva mais contemporânea da dança e com coreógrafas e coreógrafos q possuem uma pesquisa, um pensamento e uma linguagem coreográfica próprias, significaria uma falta de diversidade de linguagens da dança. Quando, na verdade, nunca houve tanta diversidade estética e de linguagem nas produções do BCSP como durante a direção de Alejandro e Ana. Basta lembrarmos, por exemplo, da coreografia criada pela cubana Judith Sánchez Ruíz, Piedad Salvaje, e da coreografia criada pelo carioca Davi Pontes, Variação. Fala-se também q os caminhos optados pela gestão anterior teriam conduzido o Balé para um distanciamento do seu público, reduzindo-o, e se fechando em um pequeno nicho da dança. O q também não é verdade e os números levantados pelos balanços anuais do TMSP podem demonstrar isso de forma clara e objetiva. Isso sem falarmos do sucesso e da grande e positiva repercussão internacional de coreografias como Boca Abissal e Fôlego da jovem coreógrafa Rafaela Sahyoun, e Réquiem SP de Alejandro Ahmed.

É curioso notar q toda a crítica do Baccarelli é construída a partir desta premissa de q a dança contemporânea se destina a um nicho reduzido do público por reduzir a diversidade de linguagens da dança. Premissa essa q qualquer pessoa q conheça minimamente de dança contemporânea entenderia como equivocada, pois não há maior diversidade de linguagens de dança do q na contemporaneidade. Ao contrário do repertório clássico, q este sim, está fundamentado numa linguagem com uma quase inexistente abertura à diversidade. E é exatamente este o foco q o Baccarelli quer dar à sua gestão, retomar o repertório clássico do balé europeu. A intenção é comprometer 40% das encenações no ano do Balé da Cidade com esses repertórios clássicos, seja através de releituras ou de reencenações. Como se uma releitura do balé Giselle por exemplo fosse equivalente à reencenação da coreografia original de Giselle, e como se existisse uma coreografia original de Giselle. A proposta do Baccarelli é profundamente confusa.

Consequentemente a proposta apresentada pelo Instituto para o Balé carrega consigo esses inúmeros equívocos q acabam por descredibilizar sua argumentação. Utiliza-se os termos ‘experimentação’, ‘contemporâneo’ sem absolutamente nenhum rigor conceitual, nem conhecimento de arte, ou mesmo da história da arte. Como se para realizar uma montagem de uma coreografia contemporânea, uma ópera contemporânea, bastasse utilizar recursos tecnológicos de interação como por exemplo de realidade aumentada, de realidade virtual. Sim, este é um exemplo dado pelo próprio Instituto para defender sua visão de dança e ópera contemporânea. Já o ‘experimentalismo’ estaria circunscrito à “busca de recursos de encenação, sonoros e visuais inovadores”, quando no texto se diz q “a programação deverá contemplar a experimentação como uma tônica presente”.

Ou seja, a partir de uma leitura minuciosa da proposta do Intituto Baccarelli, vemos uma total desconexão com um pensamento artístico coerente com nosso tempo e com o nível do debate e das criações artísticas num contexto de uma cidade global como São Paulo. O Instituto demonstra um conhecimento perigosamente superficial da história da arte, e mais especificamente da história da dança. O q faz com q nos perguntemos; como eles venceram este edital para fazer a gestão do Balé da Cidade de São Paulo e dos demais corpos artísticos do Theatro Municipal de São Paulo?

Como dito anteriormente, as argumentações da comissão são frágeis. Há inconsistências do próprio edital e da própria comissão.

A pessoa escolhida para assumir o cargo de Diretor Geral na gestão do TMSP é o Hélio Ferraz de Oliveira. E quem é Hélio Ferraz de Oliveira? Seu nome ganhou as manchetes em 2022 quando assumiu a Secretaria Especial de Cultura durante o governo Bolsonaro substituindo seu amigo de longa data Mário Frias, q na época deixou a pasta para se candidatar a Deputado Federal pelo PL. Advogado cujo currículo quase nada se relacionava com o campo da cultura, muito menos da arte. No fim de 2020, Hélio foi o companheiro de viagem de Frias em polêmica ida a Nova York com custo de 39 mil reais aos cofres públicos para discutir uma produção audiovisual com um lutador de jiu jitsu aposentado. Também em 2020, enquanto secretário nacional do audiovisual substituto, junto de agentes da polícia federal, Ferraz se dirigiu até a Cinemateca Brasileira em São Paulo, para tomar as chaves da instituição de forma ostensiva, q deixava de ser gerida pela organização social Acerp e passava para a União, representando assim um risco iminente a todo delicado e precioso acervo cinematográfico guardado pela instituição. Em outubro de 2021, outra controvérsia surgiu depois que Mario Frias publicou uma foto em que aparece ao lado de Ferraz, junto de outros colegas, cada um portando uma submetralhadora Thompson nas mãos. Será q o Ricardo Nunes irá se manifestar dizendo q “Quem pactua com violência não serve para prestar serviço à Prefeitura”?.

Mario Frias está hoje novamente nos noticiários sob a suspeita de ser a ponte entre o Banco Master, a produtora Go Up Entertainment, a ONG Instituto Conhecer Brasil, e o filme Black Horse sobre o presidente condenado por tentativa de abolição do estado democrático de direito e por chefiar uma organização criminosa. Um esquema escandaloso q está sendo investigado pela Polícia Civil de São Paulo q inclui nas investigações contratos fraudulentos com a Prefeitura de São Paulo sob a condução de Ricardo Nunes. Não quero com isso insinuar q Hélio esteja envolvido nesse mesmo esquema, porém chama atenção todas essas ‘coincidências’ q ligam o nome de Hélio, a Mario Frias, ao bolsonarismo, ao prefeito Ricardo Nunes, à apologia à violência, a casos de corrupção, lavagem de dinheiro, ligações com crime organizado, etc, qpoderiam, talvez, nos fazer suspeitar de q houve algum tipo de conchavo para q o Instituto Baccarelli vencesse o edital. Isso não é uma afirmação, mas uma dúvida. Será?

Em entrevista recente ao portal da Revista Concerto, Edilson Venturelli CEO do Instituto Baccarelli, afirmou: “não haverá espaço para ideologia política na nossa gestão, nem para um lado, nem para o outro. Viemos aqui para fazer arte, para fazer música, como ela é”. Devemos então nos perguntar, arte não tem nada a ver com política nem com ideologia? Quando Carlos Gomes em sua famosa ópera O Guarani, traveste o índio Peri de um espírito heróico grego e medieval, idealizando a figura do indígena e atestando sua total ignorância para com uma cultura distinta da sua, ele não está atuando de forma ideológica e política? Quando se opta por incluir no programa do Theatro, por exemplo, a execução do oratório O Messias de Haendel, e se exclui do programa obras do compositor pernambucano Moacir Santos, não se está fazendo política? Quando se exclui do repertório uma compositora russa como Galina Ustvolskaya, não é político-ideológica essa exclusão, ainda q por ignorância? Ou mesmo quando se exclui do repertório compositores brasileiros como Almeida Prado, Gilberto Mendes, Flo Menezes, entre tantos outros e outras. Ou mesmo talentosos compositores contemporâneos menos ou pouco conhecidos. Ou quando se exclui a possibilidade da apresentação de um canto coral Guarani Mbya, não se está fazendo política? Não haveria um recorte ideológico orientando estas escolhas? Se se opta por pagar dezenas de milhares de dólares, por exemplo, para um único coreógrafo como os europeus Jiri Kylian, Hans Van Manen, ou para o estadunidense William Forsythe, fora suas respectivas equipes, para criarem uma coreografia para o Balé da Cidade ao invés de convidar uma coreógrafa brasileira como Michelle Moura, ou uma coreógrafa cubana como Judith Sánchez, isso não é uma escolha político-ideológica? Quando o Instituto Baccarelli em desrespeito ao direito do elenco do Balé em escolher sua direção artística a partir de uma lista tríplice, impõem um novo diretor, isso não é uma ação política? Quando se opta por não fazer uma transição de gestão e já no primeiro dia de sua gestão se demite funcionários sem aviso prévio, isso não é uma ação política? Venturelli segue com sua resposta: “a turma da direita talvez hoje fique mais feliz com o fato de a gente estar na gestão. Mas não é porque nós somos da direita, é porque nós não temos uma ideologia.” Não?

Além de demonstrar não possuir a competência necessária para assumir a gestão do mais importante complexo cultural da capital paulista, o Instituto Baccarelli traz consigo uma espessa, densa e tenebrosa nuvem q poderá nos próximos anos fechar o horizonte para o Theatro Municipal e em especial para o Balé da Cidade de São Paulo.

 

As opiniões e reflexões apresentadas neste texto são de responsabilidade de seu autor e não representam necessariamente o posicionamento do Portal MUD.
Daniel Kairoz

Daniel Kairoz

Ver Perfil

Artista transdisciplinar que através do pensamento coreográfico articula sua prática artística e realiza suas obras sempre na encruzilhada entre perspectivas e diversos territórios da arte, mas também da filosofia, da crítica, da arquitetura/urbanismo e da cosmopolítica.