Foto: Dudu Lobato
Para saborear o espetáculo do bailarino paulista naturalizado paraense Danilo Bracchi, é bom levar no bolso um caderninho para anotações e um lencinho para as lágrimas, de rir ou de emoção, a depender da cena.
Depois de 14 anos longe dos palcos paraenses, tempo suficiente para um bom molho apurar no fogo baixo, seu novo espetáculo “Não Tem Segredo” tem gosto de um belo espaguete, desses degustados numa mesa farta, rodeada de afetos e sem pressa para levantar. Isso porque a sonoplastia serve, em doses generosas, os relatos afetuosos que Danilo recebe dos pais via WhatsApp. Neles, há a receita infalível da massa fresca italiana, os segredos do molho e uma narração tão rica em detalhes que dá até vontade de ir direto para a cozinha. Essa massa de memórias afetivas se estende por boa parte dos 50 minutos de espetáculo e, felizmente, todo mundo sai com fome e incrivelmente leve.
O espetáculo circula pelo estado do Pará desde março deste ano, com apresentações esporádicas e temporadas curtas de dois ou três dias, por não ter patrocínio e após uma dessas temporadas relâmpago,eu escrevo este texto. Ao longo da encenação, Bracchidesvela através de seu “corpo-massa” a saudade de seu convívio familiar. A proposta, trazida tanto por ele quanto pela diretora Adriana Cruz, traça a corporeidadedo artista que desenha por meio de movimentos a sua escuta paciente e afetuosa de áudios dos pais. Na receita há um pai imigrante italiano, que conta os segredos para fazer a massa perfeita, detalhando a importância da escolha da farinha na prateleira do mercado às camadas de molho para lasanha narradas por sua mãe, natural de Pernambuco e especialistaneste tema. Atualmente os pais vivem em Ilhéus/BA e é sob esta cumplicidade que a nostalgia afeta o paladar do gesto e atenua os mais de dois mil quilômetros de distância.

Foto: Renan Tavares
”Eu volto ao palco com o desejo de falar sobre minha relação de afeto com a família, sendo um homem de 56 anos, que mora sozinho há mais de 30 anos e entende essa distância como parte de uma diáspora. Não um nomadismo tranquilo, mas um movimento sempre motivado por rupturas fortes, como a guerra e a busca por uma vida melhor que atravessou a história dos meus pais e avós de ambos os lados e de maneiras diferentes.”, destaca o bailarino, que atualmente investiga a “desmontagem cênica” a partir do pensamento Cartográfico, por meio de seu mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Artes na UFPA. É dessa forma que o artista atravessa a maturidade, a partir da conexão presentificada e conectada aos seus arrimes de alma, diante disso escolhe também como parceiros uma equipe aderiu a sua pesquisa e que movimenta a cena paraense de dança, teatro e cinema, como Cruz, Nando Lima, Andresa Soero e Adhara Melo.“Fundamentais para botar a mão na massa comigo.”, diverte-se. Para ele, contar a própria história no palcotem sido uma experiência leve e de realização, pois as plateias têm sido lotadas a cada apresentação. “Cheguei com meus parceiros dizendo que gostaria de criar algo autêntico e especialmente falar sobre esses áudios super passionais que eu recebo do meu pai, enquanto a minha mãe costuma ser mais econômica, só manda uma florzinha e um ‘eu te amo’ e já me dou por satisfeito”, conta. Talvez a maior força dramatúrgica esteja na sintonia entre Danilo e o riso solto de sua plateia, que aos poucos também marejam os olhos, já que o enredo nos conduz ao passado mais duro, como a fuga da família paterna ao longo da Segunda Guerra Mundial e da extrema dificuldade da migração de seu lado materno vindo de Pernambuco até São Paulo, cenas entremeadas também pelo brilho do lip sync da canção Sapore di Sale, do cantor Gino Paolo que tempera a dança-banquete.
Bracchi retoma à cena por meio dos palcos amazônicos-paraenses, mas se encorpa pela universalidade de qualquer um de nós, ao trazer sensações que somos capazes de sentir como o amor, a saudade e sobretudo, a vulnerabilidade que nos habita ao expressarmos tudo isso. Dedos cruzados para que uma nova temporada de “Não tem segredo” ocorra, desta vez por palcos além-baía do Guajará.
Sobre Danilo Bracchi – https://danilobracchi.com.br/
Artista-pesquisador, ator, bailarino, coreógrafo, performer e gestor cultural articulador. Licenciado em Teatro pela Universidade Federal da Bahia e Especialista em Gestão Cultural pela Universidade Santa Cruz UESC – BA e Mestrando em Artes – PPGArtes – UFPA. Servidor público do estado do Pará – Coordenador de Artes Cênicas da Fundação do Estado do Pará (2022-atual). Como performer e bailarino, já teve seu trabalho reconhecido e premiado em mais de 30 festivais artísticos nacionais e internacionais. Atualmente é bailarino e coreógrafo da Companhia de Investigação Cênica e integrante do grupo de pesquisa no Estúdio Reator – Estudos em Performance. Desenvolve pesquisa e práticas ligadas principalmente à Poéticas e Processos de Atuação em Artes, aprofundando nos seguintes temas: dança, coreografia, videodança, performance e fotografia
Ficha Técnica:
Direção: Adriana Cruz
Intérprete e Coreografia: Danilo Bracchi
Cenografia: Nando Lima
Assistência de direção e coreografia: Andreza Soeiro
Pesquisa Trilha Sonora: Danilo Bracchi
Edição: Armando de Mendonça
Foto: Dudu lobato e Renan Tavares
Designer Gráfico: Melissa Barbery
Social Media: Renan Tavares
Release Poético: Danilo Bracchi e Ysmaille Ferreira
Pesquisa de Figurino e Maquiagem: Danilo Bracchi
Costureira: Telma Lima
Produção: Adhara Melo
Apoio: Estúdio Reator
Vanessa Hassegawa