Foto: Emídio Luisi
Aos 92 anos, Décio Otero nos deixou com um legado de mais de 100 coreografias, e incontáveis pessoas afetadas por sua arte
Na primeira vez que eu conversei com Décio Otero, eu tinha ido à antiga sede do Stagium pra buscar cópias em video de algumas obras do repertório da companhia, que eu estava estudando pra uma pesquisa. Anos depois, fazia um mês que eu tinha me mudado de vez pra São Paulo, eu escrevi crítica sobre uma obra do Stagium. Em alguns dias, Décio me chamou pra ir ao Stagium, acompanhar ensaios e conversar sobre dança.
De olhos arregalados eu ouvi alguns dos comentários mais importantes pra minha carreira que se iniciava. Sobre as dificuldades do caminho, sobre a força de vontade, e sobre a importância de fazer o que a gente acredita ser importante no mundo. Com gentileza ímpar, recebi de um mestre conselhos inestimáveis, absolutamente feliz que ele se interessasse e desse importância ao meu trabalho.
Dali pra frente, tive a felicidade de aproveitar por uma década a proximidade e a disponibilidade de Décio Otero, que me incentivava, e lindamente me cobrava de me colocar nesse mundo, escrever sobre a dança, pensar sobre ela, e produzir, mesmo que fosse na raça, como o Stagium tantas vezes fez. Me inspirei em seu exemplo, escrevi sobre um pouco do seu trabalho, assisti a tudo que pude, e, muitas vezes, tive o prazer de vê-lo trabalhando, e de sentar ao seu lado e ouvir sobre sua história.
Na verdade, Décio falava muito mais sobre o presente e o futuro do que sobre o passado. Sua força e seu desejo são notáveis, como sua disposição. Ele faleceu numa segunda-feira, e ouvi que na quinta mesmo estava em sala, criando. Não duvido nem um pouco. Décio sabia que seu lugar era na sala, no palco, no teatro.
Mineiro de Ubá, Décio foi parar no estúdio de Carlos Leite em Belo Horizonte acompanhando um amigo, enviado ao balé para tratar de desvios na coluna. Lá ele ficou. integrou o Ballet de Minas Gerais, onde aos 20 anos também começou a coreografar. Logo depois passou para o Corpo de Baile do Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, onde foi solista e amplamente premiado desde 1960. Aos 30 anos vai dançar no Ballet du Grand Théâtre de Genève, na Suiça, depois passa pelo Ballet da Ópera de Colônia e o Ballet da Ópera de Frankfurt, na Alemanha.
Depois de seis anos pela Europa, retorna ao Brasil, e, em 1970, reencontra Marika Gidali, com quem havia dançado na época do Rio de Janeiro, e com quem fundaria, em 1971, o Ballet Stagium, reconhecido como uma das mais importantes companhias de dança do Brasil.
Com o Stragium, dançaram pelo Brasil inteiro e por boa parte do mundo. São mais de 100 as coreografias do Maestro — como sempre chamado por tantos alunos e artistas —, num estilo próprio extremamente instigante, que mistura uma grande referência da técnica clássica ao pensamento da “nova dança moderna” dos anos 1960. Em um caldeirão de referências, Décio foi contemporâneo antes do termo contemporâneo existir na dança. Suas criações são tão específicas quanto sua aula. Nada me tira da lembrança uma sequência em que ele trabalhava com os bailarinos na barra, com exercícios que iam ao chão, onde víamos diversas influências de técnicas modernas, e outros tantos procedimentos contemporâneos, pra, logo depois de rolamentos, ele puxar os bailarinos de volta pra barra.
Foram assim sua carreira e seu trabalho: ilimitados. Tentaram classificar, segmentar, recortar. O Maestro pegou todas as referências e com elas fez o que precisava fazer: arte. Sempre foi evidente o quanto ele acreditou na dança. Por vezes emprestei da sua força pra acreditar também e trabalhar também. Seu efeito é inegável. Gerações de aprendizes, de bailarinos, de coreógrafos, de artistas, de gente que passou pelo Stagium, e pelo Maestro Décio Otero.
Seu lugar na dança brasileira não pode ser exagerado: Décio está em uma liga única. Sua dança marca a dança brasileira da mesma forma que Balanchine marca os Estados Unidos ou Béjart marca a Europa. Existem muitos outros, certamente, e grandiosos de verdade, mas aqui falamos de gigantes.
Ao longo do tempo que tenho produzido, tentei enfatizar e reconhecer tamanha influência. Outros entendem melhor do que eu sua contribuição coreográfica, formativa, empresarial, de luta de classe, social, e pessoal — e discorrem sobre tanto em uma quantidade ímpar de pesquisas no nosso país. Da minha parte, espero ter conseguido registrar o assombro. O assombro de encontrar uma figura histórica, que te recebe com carinho e atenção, e se importa com você, com seu trabalho, e, sobretudo, com o futuro da dança.
Realmente, gigante. Sua contribuição é inestimável. Décio nos deixou aos 92 anos. Tivesse mais 10 anos, teríamos ainda mais superlativos e realizações pra acumular em sua conta. Mas, veja… tivéssemos mais 10 dias, isso também seria verdade: seu legado é gigante porque não foi construído por si, para si, mas pela dança. Em uma vida inteira. Serei eternamente grato por ter podido acompanhar uma parte dela. Obrigado, Maestro. Foi um privilégio.
* Henrique Rochelle é crítico de dança, membro da APCA, doutor em Artes da Cena, com pós-doutoramento pela ECA/USP, onde foi Professor Colaborador, e é editor do site Outra Dança.
Henrique Rochelle