Foto: © José Cruz/Agência Brasil
Se analisarmos as dinâmicas de trabalho exclusivas do mercado da dança, encontraremos majoritariamente profissionais informais, com contratos temporários ou autônomos, que dificilmente são amparados pelas legislações que determinam a carga horária. Por isso, em grande parte dos casos, essa classe de artistas não se associa diretamente aos debates e lutas em torno do fim da escala 6×1.
Esse contexto é um eixo central na discussão sobre a precarização do trabalho artístico, a falta de reconhecimento e as novas formas de exploração. Contudo, ao ampliarmos a perspectiva para os movimentos populares de alcance nacional, compreendemos que o fim da escala 6×1 é um passo fundamental para iniciarmos a resolução desses problemas.
Desde a década de 1980, movimentos de trabalhadores se mobilizam por essa pauta, mas foi em 2023, sob a liderança de Rick Azevedo (atualmente vereador do Rio de Janeiro pelo PSOL), que essa luta organizada ganhou tração nacional. Com o apoio da Deputada Erika Hilton e, mais recentemente, do Presidente Lula, o movimento evidencia como as jornadas exaustivas geram impactos que afetam a fruição da cultura e, consequentemente, a economia da dança.
A escala 6×1 determina uma jornada de seis dias consecutivos de atividade para apenas um de descanso semanal. Na prática, esse intervalo é frequentemente consumido por demandas burocráticas e obrigações domésticas, comprometendo o tempo livre de trabalhadores (principalmente mulheres). Esse sistema constrói um abismo que impede a participação de milhões de pessoas em atividades culturais.
Curiosamente (ou não), os desafios que artistas e gestores culturais enfrentam estão relacionados a duas demandas complementares: a formação de público e a democratização do acesso a seus projetos. Isaura Botelho, referência no setor, propõe em “Dimensões da Cultura” (2022) que as políticas culturais devem ser um ecossistema de meios e diversidade. Para ela, a efetiva democracia só ocorre quando a pessoa possui tempo, recurso e oportunidade de escolher seu próprio caminho, livre das pressões do mercado. Se olharmos por essa perspectiva, o engajamento dos profissionais da dança contra a escala 6×1 é intrínseco ao esforço de erradicar as barreiras de acesso às suas próprias obras.
Muitas vezes, limitamo-nos ao cumprimento de exigências institucionais e de editais, em detrimento de uma articulação com lutas populares que tensionam as lógicas sistêmicas. Portanto, sejamos ousadas: a garantia de mais tempo e recursos para a classe trabalhadora estimula a participação comunitária e o engajamento cultural.
Ao garantir que o trabalhador recupere seu direito ao tempo, criam-se as condições para que a dança não seja um artigo extraordinário mas uma linguagem integrada ao cotidiano. Essa sinergia expande as oportunidades de trabalho no setor e fortalece o reconhecimento social da dança, transformando-a em uma prática acessível. Nesse sentido, o fim da escala 6×1 não beneficia apenas o operário ou o comerciário; ele cria o alicerce para que os profissionais da dança sejam reconhecidos como agentes essenciais, revertendo a lógica da arte como mercadoria e luxo.
O apoio a essa pauta é um movimento de emancipação criativa. Ele abre caminhos para ampliarmos nossas experimentações em todos os âmbitos, seja no palco, na sala de aula, no parque ou onde a gente quiser. É a vida do trabalhador que move a cultura. Portanto, uni-vos pelo fim da escala 6×1!
Referência Bibliográfica:
BOTELHO, Isaura. Dimensões da cultura: políticas, gestão e dados. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2022.
Rubia Galera