Fotografia Aldren Lincoln. (Texto acessível: Corpos próximos, quase amontoados, emergem de um chão coberto por lascas de papel que também caem do alto, como uma chuva lenta e seca. A luz quente envolve tudo em tons de terra, criando uma atmosfera íntima e suspensa. Os rostos, distintos e atentos, parecem compartilhar um mesmo tempo — entre a calma e a vigília)
Museu de Arte da Bahia, Salvador, abril de 2026
Por Aila Silva
Esse estado de não-lugar, quando topamos com ele, é sensação que pinga na boca do estômago e derrama. Um lugar cujas possibilidades são várias, mas nenhuma delas é minha, embora eu esteja nelas. Mas ao contrário da definição do antropólogo Marc Augé, que difere um lugar de um não-lugar pela falta de relação de uma pessoa com este espaço, “Dançando Godot” arquiteta um super-lugar, dobrando a esquina da apatia e inventando uma estadia poética na morosidade de habitar um espaço.
O cenário tem o papelão como elemento principal e cria um universo de “brincar de cabaninha”, só que é enorme, cheio de luzes e saletas para serem sorvidas. Lentamente. A sonoridade das coisas e pessoas é componente da trilha, e o som ambiente se compõe com ela, embora haja convites de outras músicas em dados momentos da intervenção. As luzes, sempre confortáveis, variam com as cenas criadas pelos próprios performers, criando objetos movediços que se formam e deformam ao longo do tempo. A dramaturgia cênica convida a esperar, no sentido de largar-se a uma vagarosa curiosidade do descobrimento sem compromisso. Só estar.
As pessoas performando parecem gostar do toque. Não que alguma delas tenha me tocado diretamente, mas era perceptível que elas procuravam estar próximas do público, talvez para mostrar que ali dentro todo mundo é performer. Está ativo. É cena e está em cena. Logo que chego, uma garota pega um monte de papel picado e vem do outro canto da instalação na minha direção, olhar fixo, como quem traz um balde de água prestes a cair, e ela o derrama ao meu lado, nos meus pés. E torna a pegar o caminho de volta para trazer mais uma braçada do elemento. Algo nessa movimentação não é ordinária, é mais dança que outra coisa — ou talvez seja o meu jeito de ver.
O figurino é em tons de terra e jeans, combinando com o cenário em papelão, tornando o ambiente quente junto das luzes amarelas. Uma arquibancada, onde podemos sentar e assistir como num teatro, é forrada do material cortado que dava a impressão de mar. E as pessoas sentadas na crista das ondas. Mas não é um espaço único, nem o papelão o único material. Também havia salinhas menores, com campos de intervenção para escrever, procurar, formar e ir se transformando de acordo com quem estiver disposto a experimentar.
Sento no chão, fora da arquibancada, e sinto o papelão miúdo com meus dedos dos pés descalços. Cada performer faz uma coisa diferente, absortos em seus próprios afazeres. Atrás de mim, percebo o acabamento do cenário e vejo que há barquinhos de papel branco, colados, pequeninos, em locais que ficam difíceis de perceber se você está de pé ou prestando atenção apenas às grandes coisas. Neles está escrito menor ainda: cuide das pequenas coisas.

Fotografia Aldren Lincoln. (Texto acessível: Um corpo se curva para dentro de si, como quem tenta conter algo. Entre os braços, uma massa de fragmentos de papelão é pressionada contra o rosto, se misturando aos cabelos brilhantes e cheios. A luz quente desenha o gesto com intensidade, enquanto pedaços continuam a cair insistentes.)
“Dançando Godot”, livremente inspirada na obra “Esperando a Godot”, de Samuel Beckett, é um jeito de ver. E o que eu vi, certamente, só eu verei. E não digo pelo ponto de vista, não. Digo porque o formato privilegia a individualidade do transeunte, garantindo que o público tenha algo em seu corpo que torne aquele momento só dele. A singularidade de cada um amplia um determinado ponto da performance. A instalação, bem como as cenas dos performers, são compostas para realçar cheiros, sons, tato. A performance é para ser vestida, não apenas observada. Ela é ativa — seja lá o que ‘ativa’ possa significar para você.
Relaxed performance é um jeito de compor. Uma intervenção que repensa práticas teatrais com base na acessibilidade para tornar obras mais convidativas para uma maior diversidade de artistas e público. É uma ideia radical de que corpos — independentemente de quais eles sejam — podem ocupar o mesmo espaço, estabelecer conexões e saborear estas relações de acordo com a forma como eles percebem essas relações. Uma ideia de horizontalização da fruição que não é fácil de implementar nos espaços de arte ou teatros tradicionais. É um contratempo do cotidiano urbano.
Nesse espaço de relaxamento, que permite pausas e retornos de acordo com o tempo do público, onde é possível permanecer e circular durante as quatro horas de duração da peça, as cenas vão se desenrolando sem pressa. Dirigida por Edu O. e Fafá Daltro, cada cena é delicadamente inserida na instalação, onde o público passeia por muitas sensações, digerindo suas complexidades com a lente de aumento da repetição e da expansão do tempo, que permite que um detalhe entre um gesto e outro mude completamente o significado para quem está presente.
A maneira de presenciar a instalação também é cambiante. Fiquei algum tempo fazendo leitura labial para “ouvir” o que a profissional de audiodescrição dizia a uma pessoa com deficiência visual que curtia o espetáculo. A maneira que ela narrava me levava para outro lugar, montando uma cena diferente a partir das percepções dela. A tecnologia assistiva muda a experiência de todos ali, direta e indiretamente, além de detectar denominadores comuns para que eu pudesse me conectar a outro público que estava ali fruindo diferente de mim.
Essa variação de pontos de vista não foi lenta.
Meu corpo caminhava vagarosamente, mas minha mente repousava e saltava entre perspectivas sem nenhum comprometimento. Esses pulos permitiam mergulhar em conteúdos complexos da cena dos performers e, no instante seguinte, se ver transtornado, saindo de seu fluxo de equilíbrio, desaguando em outro lugar. E por ali permanecer mais — essa transição do (meu) tempo foi sutilmente colocada pelos performers no oposto do conceito de customização, porque nada ali era feito para mim, mas para o uso coletivo, onde o Grupo X ofertou espaço para que eu me apropriasse da instalação, para que eu fosse a cena e me movesse para qualquer lugar.
Ficha técnica Dançando Godot – Grupo X
Direção geral: Edu O.
Direção artística: Fafá Daltro
Coreografia: Fafá Daltro e Edu O.
Intérpretes-criadores: Edu O., Lua Candeia, Thiago Cohen, Camila Nantes e Elinilson Soares
Intérprete de Libras e performer: Vinícius Haastari
Coordenação de Produção: Nei Lima
Assistente de produção: Lua Candeia, Soanne Sousa, Elisabetth Feittosa e Eliane Gomes
Cenografia: Cristiano Piton e Débora Mota
Trilha sonora: Lucas de Gal
Iluminação: Daniel Utrez
Consultoria de acessibilidade: Edu O.
Audiodescrição: Adarte Acessibilidade
Arte gráfica: Naiara Rezende
Assessoria de imprensa: Kaô Comunica
Temporada: 23 e 24 de abril, das 16h às 20h; e dias 25 e 26 de abril, das 14h às 18h.
Aila Silva
Artista da dança, curadora independente, diretora criativa e pesquisadora. Com foco em performance na América Latina, é interessada em poéticas do movimento, sotaques de corpo e memórias a fim de discutir (in)justiça social, gênero e construção cultural. Mestra e doutora em Estética e História da Arte pela Universidade de São Paulo, foi pesquisadora visitante na New York University (EUA), associada ao Hemispheric Institute of Performance and Politics.
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