QUANDO O TOQUE SE CONECTA COM A MEMÓRIA: COMO A DANÇA A PARTIR DO CONTATO IMPROVISAÇÃO INTEGRA MENTE E CORPO NA VELHICE

Oficina de CI com o Núcleo Improvisação em Contato com o CIAPI, em Caraguá.

Em uma sociedade que transformou a juventude em ideal permanente de produtividade e alto desempenho físico, envelhecer frequentemente significa perder espaço, visibilidade e contato. O corpo idoso, muitas vezes tratado como incapaz, lento ou descartável, passa a ocupar um lugar de isolamento afetivo e social que ultrapassa as limitações físicas do envelhecimento. Nesse contexto, o toque, elemento básico da experiência humana, torna-se também uma ausência.

No livro Toque: o significado humano da pele, o antropólogo Ashley Montagu afirma que a necessidade de estimulação tátil permanece essencial ao longo de toda a vida e tende a se tornar ainda mais profunda na velhice. Segundo o autor, pessoas idosas frequentemente convivem com a falta de contato físico significativo, substituído por gestos protocolares e distantes. “Um beliscãozinho desatento na bochecha não substitui um abraço caloroso”, escreve Montagu ao refletir sobre o empobrecimento tátil vivido por grande parte da população idosa.

A obra também questiona a lógica social que reduz a velhice a decadência ou inutilidade. Para Montagu, o envelhecimento não representa necessariamente perda de qualidade de vida, mas um patrimônio de experiência e memória acumulada. O autor descreve os idosos como uma “elite biológica” portadora de saberes, sensibilidade e resistência, frequentemente invisibilizada em sociedades orientadas pelo culto ao jovem.

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Essa discussão encontra ressonância em práticas artísticas contemporâneas que investigam o corpo para além da produtividade e da performance técnica. Entre elas está o Contato Improvisação, linguagem da dança contemporânea criada nos anos 1970 que utiliza toque, improvisação, gravidade, troca de peso e escuta corporal como base para o movimento. Diferente de técnicas centradas em objetivos que não se adaptam a diferentes necessidades, o Contato Improvisação propõe relações horizontais entre corpos, permitindo que pessoas de diferentes idades e condições físicas compartilhem experiências de movimento a partir da percepção e da adaptação mútua.

Nesse contexto, a velhice deixa de ser entendida apenas como limitação física e passa a integrar uma investigação mais ampla sobre memória, presença, improvisação e relação. O toque torna-se linguagem de cuidado, comunicação, dança e reconhecimento do outro. A improvisação também desloca a ideia de “eficiência” corporal, abrindo espaço para temporalidades com outras qualidades de movimento e modos diversos de existir no movimento.

É justamente nesse cruzamento entre envelhecimento, memória e experiência tátil que se inicia a nova etapa do projeto do Núcleo Improvisação em Contato (NIC), coletivo paulistano que há mais de uma década pesquisa e difunde o Contato Improvisação em São Paulo. Contemplado pelo Programa Municipal de Fomento à Dança, o projeto “Tatear – preencher a dança de memória” propõe uma série de ações artísticas, pedagógicas e sociais ao longo de 13 meses, incluindo oficinas voltadas a pessoas idosas, grupos de estudo, encontros de improvisação coletiva e atividades de acessibilidade.

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A proposta do NIC compreende o corpo como território de memória e invenção, articulando práticas como improvisação cênica, técnicas somáticas e Aikido para investigar o toque como experiência política e relacional. Entre as ações previstas estão o 17º Encontro Internacional de Contato Improvisação em São Paulo, o Global Underscore, a segunda edição da apostila Sobre Improvisar e a criação de um espetáculo inédito com audiodescrição.

Ao trabalhar com pessoas idosas como parte central da pesquisa sobre presença e convivência, o projeto tensiona modelos culturais que associam envelhecimento à invisibilidade. Em vez de tratar a velhice como corpo em desaparecimento, o NIC aposta na potência sensível da experiência acumulada, fazendo do toque uma forma de reconstruir vínculos, memória e participação coletiva na dança contemporânea.

 

Referência Bibliográfica:

• Livro “Toque: o significado humano da pele”, de Ashley Montagu;
• Textos e registros publicados na revista Contact Quarterly, especialmente escritos de Steve Paxton, Nancy Stark Smith, Lisa Nelson e Randy Warshaw, reunidos no Contact Quarterly’s Contact Improvisation Sourcebook e em Dancing Deeper Still, de Martin Keogh.

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