Foto: Rosângela Silvestre em divulgação. Reprodução ba.gov.br
Um estudo publicado na revista acadêmica InterAção defende que técnicas de dança criadas e desenvolvidas por mulheres negras nas Américas e em África funcionam como arquivos vivos da história da diáspora africana. A pesquisa analisa os trabalhos de Katherine Dunham, Germaine Acogny e Rosângela Silvestre para demonstrar como a dança ultrapassa o campo artístico e atua como ferramenta de memória coletiva, resistência política, afirmação identitária e produção de conhecimento negro contemporâneo.
A pesquisa, assinada por Ana Beatriz Coutinho Rezende, propõe o conceito de “corpo-testemunho” para interpretar práticas de dança negra como registros históricos encarnados. Segundo o artigo, os corpos em movimento carregam marcas da ancestralidade africana, das violências coloniais e das estratégias de sobrevivência cultural produzidas ao longo da diáspora africana. O estudo sustenta que essas técnicas não apenas preservam tradições, mas criam novas formas de expressão, pedagogia e circulação de saberes entre África, Caribe, Estados Unidos e Brasil.
Publicado em março de 2026, o artigo argumenta que a dança negra contemporânea deve ser compreendida como prática artística, política e epistemológica. A autora utiliza referenciais dos Estudos Culturais, das epistemologias negras e da teoria pós-colonial, dialogando com pensadores como Stuart Hall, Homi K. Bhabha, Frantz Fanon e Leda Maria Martins. A investigação defende que as práticas corporais negras operam como formas de resistência à colonialidade e ao apagamento histórico.
No caso de Katherine Dunham, o artigo destaca o pioneirismo da artista ao unir pesquisa antropológica e criação coreográfica nos Estados Unidos a partir da década de 1930. Dunham realizou pesquisas etnográficas em Jamaica, Martinica, Trinidad e Haiti, estudando danças afro-caribenhas e religiões como o Vodun. A partir dessas investigações, desenvolveu a chamada Técnica Dunham, combinando balé clássico, dança moderna e tradições africanas e caribenhas em um sistema próprio de formação corporal.
A autora afirma que Dunham transformou a pesquisa acadêmica em linguagem coreográfica por meio do método “research-to-performance”, no qual a experiência etnográfica se converte em técnica de dança e pedagogia artística. O estudo sustenta que esse processo ajudou a consolidar uma “epistemologia do movimento negro”, conectando Caribe, África e Américas em um fluxo contínuo de trocas culturais da diáspora africana.
O artigo também recupera um episódio ocorrido durante a passagem de Katherine Dunham pelo Brasil, em 1950. Segundo a pesquisa, a artista foi impedida de se hospedar em um hotel em São Paulo por ser uma “mulher de cor”. A denúncia pública do caso gerou repercussão nacional e contribuiu para o debate que culminaria na criação da Lei Afonso Arinos, de 1951, considerada a primeira legislação antirracista brasileira. O estudo interpreta o episódio como exemplo de como o corpo da artista se tornou também testemunho político das estruturas raciais brasileiras.
Na análise sobre Germaine Acogny, o artigo aponta que a coreógrafa franco-senegalesa construiu uma técnica baseada na articulação entre danças tradicionais de África e métodos ocidentais contemporâneos. A pesquisa destaca que Acogny rejeitou reproduzir integralmente modelos europeus de movimento e passou a elaborar uma linguagem própria fundamentada em referências africanas.
Segundo o estudo, a Técnica Acogny rompe com visões exotizantes sobre o continente africano e o posiciona como centro de produção contemporânea de conhecimento coreográfico. A autora argumenta que a artista desenvolveu uma “universalidade pluralista”, na qual ancestralidade e modernidade coexistem sem subordinação aos padrões eurocêntricos.
A pesquisa também destaca o papel da École des Sables, fundada por Acogny no Senegal, como espaço internacional de formação artística voltado à circulação de saberes africanos. O estudo afirma que a escola rompe com modelos coloniais de produção cultural ao transformar o continente africano em polo ativo de intercâmbio artístico global.
Já a Técnica Silvestre, criada por Rosângela Silvestre no Brasil em 1982, é apresentada como uma prática que articula corpo, espiritualidade, ancestralidade afro-brasileira e cosmologia dos orixás. O estudo descreve a técnica como um sistema pedagógico e físico fundamentado nas relações entre movimento corporal, memória ancestral e elementos da natureza.
A autora argumenta que a Técnica Silvestre opera a partir da noção de “corpo-universo”, em que o corpo humano é entendido como extensão das forças naturais e espirituais. O artigo sustenta que a prática transforma o ato de dançar em um processo de autodefinição, no qual cada indivíduo reinscreve sua própria história, memória e identidade negra no corpo em movimento.
O estudo afirma ainda que a Técnica Silvestre confronta estereótipos históricos que reduziram práticas negras ao folclore ou exotismo. Segundo a pesquisa, a pedagogia criada por Rosângela Silvestre reivindica as epistemologias negras como formas legítimas de produção técnica, científica e artística.
Ao comparar as três técnicas, o artigo conclui que Dunham, Acogny e Silvestre desenvolveram diferentes formas de transformar o corpo negro em instrumento de memória e resistência. Enquanto Dunham utiliza o corpo como documento etnográfico da diáspora, Acogny constrói um corpo-arquivo da África contemporânea e Silvestre projeta um corpo cosmológico voltado à autodefinição afro-brasileira.
A pesquisa sustenta que essas práticas criam “pedagogias negras” capazes de confrontar hierarquias coloniais no campo da arte e da cultura. O artigo afirma que as técnicas analisadas não se limitam à preservação de tradições ancestrais, mas produzem novas narrativas políticas, espirituais e artísticas sobre a experiência negra contemporânea.
Nas conclusões, a autora argumenta que a dança negra contemporânea constitui um território de memória, circulação cultural e reinvenção identitária. O estudo afirma que os corpos negros em movimento funcionam simultaneamente como denúncia histórica, prática de cura coletiva e invenção de futuros possíveis diante das permanências do racismo e da colonialidade.
Fonte: Artigo “A dança como corpo-testemunho da história negra em Dunham, Acogny e Silvestre”, de Ana Beatriz Coutinho Rezende, publicado na revista acadêmica InterAção (v. 16, n. 5, 2026).
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