Fórum Nacional de Dança realiza 17ª edição com foco na regulamentação da nova Lei da Dança

Espetáculos, performances e ações participativas aproximam o debate institucional da experiência estética, reunindo obras premiadas e criações de forte dimensão territorial.

Encontros, mesas e articulações nacionais discutem a regulamentação da nova Lei da Dança e definem propostas a serem encaminhadas ao poder público.

De 20 a 23 de maio de 2026, no CCSP – Centro Cultural São Paulo, em São Paulo (SP), o Fórum Nacional de Dança realiza sua 17ª edição em um momento decisivo para o setor. Após mais de duas décadas de articulação política e mobilização da sociedade civil, o encontro acontece sob o marco recente da sanção da Lei da Dança pelo presidente da República. Criado em 2001, em meio à mobilização contra exigências do sistema Cref/Confef que restringiam o exercício profissional da dança, o Fórum consolidou-se como associação formal em 2003 e, desde então, promove encontros periódicos que unem artistas, gestores, pesquisadores e parlamentares de todo o país. Para participar, é preciso se inscrever via formulário, que pode ser acessado neste link. Para os espetáculos é necessário retirar ingresso nas bilheterias física e digital do CCSP, um dia antes da programação, a partir das 14h.

“O Fórum foi importantíssimo para o desenvolvimento da dança profissional nesse país. No início do século, em 2001, nós estávamos com uma ameaça séria, que era a dança ficar vinculada ao Conselho Federal de Educação Física. Isso seria uma intervenção no processo artístico, porque dança não é uma atividade física para colocar músculos no lugar ou ossos bem articulados. A dança é para dar liberdade ao indivíduo como um corpo pleno em poesia. Isso aqui é arte, dança é arte, é a expressão artística, está junto com a linguagem da música, do teatro, do circo, do cinema”, diz Dulce Aquino, uma das fundadoras do Fórum e diretora.

A edição deste ano marca uma virada histórica. Durante anos, a luta da classe da dança era  pela aprovação da lei, agora o desafio central é sua regulamentação, etapa que definirá critérios, diretrizes e mecanismos concretos para o reconhecimento profissional nas múltiplas linguagens da dança brasileira. “A grande transformação dessa lei vai ser possibilitar tirar da informalidade milhares de profissionais de dança, que os coloca em situação de vulnerabilidade jurídica”, diz Marise Siqueira, advogada e produtora cultural, hoje consultora do Fórum, que participa de uma das mesas discutindo o assunto e seu impacto na vida. “Principalmente os profissionais de danças populares, tradicionais e urbanas, que não se reconhecem na lei 6533 (que regulamente a profissão de artista e técnicos) porque é algo muito distante da realidade”, completa.

Ela também ressalta que, a partir da regulamentação, cujos tópicos serão discutidos no Fórum, será possível um mapeamento permanente dos diversos profissionais de dança do país. “Com essas informações, é possível buscar novas políticas públicas, novas formas de investimento para a dança”, coloca Marise.

A programação está estruturada em três mesas centrais:

Nos quatro dias de programação, o evento contará com três mesas que conduzirão temas fundamentais para a dança no país neste momento.

Após esses encontros temáticos com especialistas, parlamentares e advogados — entre eles, nomes que atuaram diretamente na tramitação da lei —, as plenárias abertas sistematizarão propostas e estratégias. Ao final, será produzido um documento oficial a ser encaminhado ao Ministério da Cultura e a instituições públicas, consolidando as deliberações do encontro.

Conheça as mesas e os participantes (veja a programação completa abaixo):

1. Dança como profissão e políticas de sustentação econômica
Debate sobre reconhecimento profissional, renda básica e modelos de fomento, com participação de representantes do Ministério da Cultura, parlamentares que acompanharam a tramitação da lei e gestores culturais. Participam da mesa o professor, bailarino, coreógrafo e gestor cultural Matias Santiago; o gestor cultural, historiador e articulador de políticas públicas para a cultura Vítor Ortiz, e o presidente da Cooperativa Paulista de Dança, diretor, dançarino e pesquisador em dança butô e performance Zé Maria Carvalho.

2. Desafios jurídicos da regulamentação
Mesa dedicada aos aspectos legais da implementação da Lei da Dança, com os advogados Ian Angeli e Marise Siqueira, especializados em direitos culturais – Marise também é integrante do grupo de trabalho que atuou na redação do projeto -, Alice Portugal, farmacêutica e deputada federal pelo PCdoB/BA, em seu sexto mandato; Carlos Zarattini, economista formado pela USP e deputado federal pelo PT/SP, em seu quinto mandato,  Lídice da Mata, economista formada pela UFBA e deputada federal pelo PSB/BA; e o deputado federal pelo PSOL/RJ Tarcísio Motta, integrante das Comissões de Educação e Cultura da Câmara.

3. Difusão e internacionalização da dança brasileira
A mesa aborda os desafios para circulação nacional e inserção internacional, com produtores, curadores e representantes de redes latino-americanas de cooperação cultural. Conta com a participação de Fabrício Floro, que atua como Gerente Adjunto na Gerência de Ação Cultural do Sesc São Paulo; Gabi Gonçalves, produtora cultural e fundadora da plataforma Corpo Rastreado; Natacha Melo, artista, docente, curadora e gestora cultural sediada em Montevidéu, Uruguai; e Quito Tembe, curador, gestor cultural e light designer nascido em Maputo, Moçambique.

Destaques

Entre os destaques da programação estão a conferência de abertura com Helena Katz, a palestra de Lili de Grammont e a exibição da videodança “Descanse, não desista!” de Thaís Bandeira, que abordam gênero e violência na dança.

Com representantes de todos os estados brasileiros selecionados por edital, além de inscrições abertas ao público, a 17ª edição marca, uma vez mais, um espaço estratégico de escuta, formulação e incidência política, para discutir critérios de reconhecimento, trabalho e circulação

Programação artística do 17º Fórum Nacional de Dança 

Pela primeira vez, o Fórum incorpora uma programação artística diária, aproximando formulação política e experiência estética. A seleção reúne obras premiadas que serão apresentadas todas as noites após o encerramento das mesas e palestras.

A abertura artística fica por conta de ATO, da Cia Fragmento de Dança, dirigida por Vanessa Macedo. Vencedor do Prêmio APCA 2025, o espetáculo investiga a ideia de coletivo a partir da organização de corpos em uníssono, inspirando-se em manifestações públicas e coreografias de protesto.

O grupo paulistano GRUA apresenta Retorno em Si, performance construída a partir do conceito de ritornelo: o retorno que, ao se repetir, se transforma. Durante o Bolero, de Maurice Ravel, o coletivo desenvolve deslocamentos circulares em uníssono, dos quais emergem solos que atravessam o espaço e retornam ao grupo, reafirmando a relação entre dança e cidade.

Entre os solos, Colibri, de Maria Emília Gomes, vencedora do APCA 2025 de Interpretação em Dança, parte da metáfora do voo para atravessar memórias ligadas ao Congado Mineiro e ao rompimento da Barragem de Fundão, conectando território e ancestralidade.

A programação inclui ainda o ritual performativo Corpo-território: a dança que nasce com a força da terra, com Gilvana Borari e Rô Colares, inspirado em práticas culturais dos povos Borari e Arapiun, na Amazônia; a videodança Descanse, não desista!, de Thaís Bandeira, que aborda criticamente a violência contra mulheres; e Mané Boneco, do Grupo Zumb.boys, intervenção que articula breaking e memória afetiva a partir do brinquedo popular “Mané Gostoso”.

Encerrando o encontro, o Baile Charme, da Clarin Companhia de Dança, transforma o espaço do Fórum em pista coletiva, propondo uma aula aberta que celebra o charme como expressão da cultura periférica.

 

Programação Geral

20 de maio (quarta-feira)

14h às 15h30 – Credenciamento

15h30 às 16h30 – Mesa de Abertura

16h30 às 17h30 – Conferência de Abertura “Entrar na ciranda: dança, arte e corpo de mãos dadas” com Helena Katz

18h às 19h – Palestra “A Dança também é Patriarcal? Poder, Gênero e Violência” com Lili de Grammont e exibição da videodança “Descanse, não desista!” de Thaís Bandeira

19h às 20h – Intervalo

20h às 21h – Apresentação artística “ATO” com Cia Fragmento de Dança

 

21 de maio (quinta-feira)

10h às 10h30 – Ritual indígena “Corpo-território: a dança que nasce com a força da terra” com Gilvana Borari e Rô Colares

10h30 às 12h30 – Mesa Eixo I “A Dança como Profissão e a Renda Básica do Artista: que história é essa?” com Matias Santiago, Vítor Ortiz e Zé Maria Carvalho

12h30 às 14h – Intervalo / Almoço

14h às 19h – Plenária Aberta – Debate e Contribuições do Eixo I

19h às 20h – Intervalo

20h às 21h – Apresentação artística “Colibri” com Maria Emília Gomes

 

22 de maio (sexta-feira)

10h às 12h – Mesa Eixo II “Desafios jurídicos da profissionalização da dança” com Alice Portugal, Carlos Zarattini, Lídice da Mata, Ian Angeli, Tarcísio Motta e Marise Siqueira

12h às 13h30 – Intervalo / Almoço

13h30 às 16h30 – Plenária Aberta – Debate e Contribuições do Eixo II

16h30 às 17h30 – Apresentação artística “Mané Boneco” com Grupo Zumb.boys

17h30 às 19h – Mesa Eixo III “Difusão e Internacionalização da Dança” com Fabricio Floro, Gabi Gonçalves, Natacha Melo e Quito Tembe

19h às 20h – Intervalo

20h às 21h – Apresentação artística “Retorno em Si” com GRUA

 

23 de maio (sábado)

10h às 13h – Plenária Aberta – Debate e Contribuições do Eixo III

13h às 14h30 – Intervalo / Almoço

14h30 às 16h30 – Assembleia Geral

16h30 às 17h30 – Encerramento “Baile Charme” com Clarin Cia de Dança

Fórum Nacional de Dança

Fórum Nacional de Dança

Ver Perfil

O Fórum Nacional de Dança (FND) é uma associação fundada em 2001 frente à emergência advinda da ingerência do Conselho de Educação Física na área do ensino da dança. Sua criação foi baseada na busca por ações estruturadoras para o campo da dança em âmbito nacional tendo como princípio norteador a construção participativa. Sob essa perspectiva, o FND vem buscando o fortalecimento e autonomia da dança como área de atuação e de conhecimento, o que implica na definição de políticas específicas, próprias, nas mais diversas esferas e sua legitimidade enquanto tal, junto aos poderes constituídos e à sociedade civil.

Ao longo de duas décadas, o FND esteve ativamente envolvido em todas as pautas relacionadas à dança. Além de realizar congregações presenciais sistemáticas com pastas específicas, passando pelos estados do Paraná, São Paulo, Bahia, Espírito Santo, Santa Catarina, Distrito Federal, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Rio de Janeiro, Paraíba, o FND participou da Câmara/ Colegiado Setorial de Dança entre os anos de 2005 a 2016, dos encontros promovidos pela Articulação Nacional da Dança e da Política Nacional das Artes entre os anos de 2015 e 2016. No contexto pandêmico, realizou um encontro via remota em 2021 com a participação de aproximadamente 300 pessoas fazedoras da dança.

Assim, o FND é detentor de um acúmulo e avanço nas pautas abarcadas pela dança. Realizou em 2023 o seu XVI encontro com a participação de representantes de todos os estados Brasileiros e em 2024 importantes reuniões, dentre as quais a audiência com a Ministra da Cultura Margareth Menezes. Destacamos em especial proposições e acompanhamento de temas que já tramitam no Congresso Nacional, como o Projeto de Lei que Regulamenta a Atividade dos Profissionais da Dança – PL no 4768/2016; Projeto de Lei Complementar para Aposentadoria Especial para o Profissional da Dança – PLP no 190/2015; e Projeto de Lei que inclui as atividades profissionais da Dança no rol das CNAEs para atuação como MEI, PLP no 47/2022.