Bharatanatyam – a dança clássica mais popular da Índia

Na foto: Hladini Gopi. Fotografia tirada por Izabela Cerqueira.

A Índia apresenta uma profusão de danças e expressões culturais. Suas danças se entrelaçam com os costumes, crenças, estilo de vida e tradições do país. E, como se não bastasse tudo isso, desde sua origem a dança se encontra acoplada ao teatro, sem delinear claramente onde começa um e onde termina o outro.

As danças da Índia são variadas, assim como as práticas, vertentes religiosas, comidas e até mesmo línguas do país. E, apesar das diferenças, trazem também semelhanças e raízes em comum. Muitas das danças indianas fazem parte de celebrações populares e têm significado prático e relevante para a comunidade onde ocorrem. O Bhangra, de Punjab, nasceu como dança da colheita do trigo, e o Bihu, de Assam, acompanha o ano novo e o ciclo agrícola. O Garba, de Gujarat, é dançado em círculo durante o festival de Navratri. O Kalbelia, do Rajastão, vem de uma comunidade tradicionalmente nômade e hoje é reconhecido pela UNESCO como patrimônio imaterial. Normalmente, essas danças são passadas de geração a geração pela observação dos mais velhos pelos mais jovens. Independentemente de sua complexidade e desafios, não há, em seu cerne, uma preocupação técnica nem um sistema de aprendizado formal.

Além destas, há as danças clássicas – embora esse nome não seja o mais adequado, já que foi um termo importado pela Índia dos estrangeiros. Isso se deu tanto para facilitar a comunicação com o resto do mundo, em uma linguagem que ele pudesse entender, quanto para responder à pressão de estabelecer sua dança como arte, especialmente depois da lei de 1947, que proibiu a dedicação de mulheres aos templos como dançarinas-sacerdotisas e atingiu em cheio a dança – um assunto que merece ser abordado em outro momento, dada a sua complexidade.

A nomenclatura original dessas danças era shastriya nritya, a dança ligada aos shastras, as escrituras sagradas. Essa ligação existe por dois motivos. O primeiro é que há shastras que tratam diretamente da arte, como o Natya Shastra – o grande tratado que abrange teatro, dança, música e poesia – e o Abhinaya Darpana, texto posterior que dá continuidade ao Natya Shastra e aprofunda justamente a parte da dança. O segundo é que o conteúdo e o objetivo dessas danças se conectam às escrituras sagradas de modo geral, como os Vedas. Os dois motivos, aliás, se encontram nos próprios tratados de dança, que apresentam a arte tanto como arte e técnica quanto como algo metafísico e espiritual. Desse modo, a dança clássica – ou shastriya nritya – não trata apenas da técnica e do visível, mas também do que ela diz e do resultado que almeja. O Natya Shastra, por exemplo, embora fale da técnica da dança – entre outros assuntos, como música e poesia –, deixa claro que a arte performática é um tipo de ioga, ou seja, algo feito para conectar o ser humano ao divino, algo de ambições transcendentes. É nessa linha que o Abhinaya Darpana, ao detalhar a técnica da dança a partir da base deixada pelo Natya Shastra, estabelece a diferença entre dois tipos de dança. De um lado, está a dança “vulgar, comum”, aprendida sem um mestre. De outro, a shastriya nritya, aprendida de forma sistemática dentro de uma sucessão de mestres e discípulos, seguindo as estruturas codificadas e as escrituras, com um fundo filosófico e espiritual, e que conduz à liberação. É esse segundo tipo que ficou conhecido como dança clássica.

Na verdade, há diversas danças clássicas na Índia, e elas diferem quanto aos adereços, figurinos, tipos de música e técnica utilizada. Todas podem, de alguma forma, ser traçadas até o Natya Shastra, e percebem-se certas semelhanças entre elas, notadamente na posição básica das pernas com os joelhos dobrados e em certos movimentos de mãos, pescoço e outros. Mas há também diferenças marcantes. Muitos autores e pesquisadores consideram que havia uma dança original e que, a partir dela, outros estilos foram se desenvolvendo em diversas partes do país e tomando formas segundo o gosto local. Assim, algumas danças enfatizaram o trabalho rítmico, ou os movimentos vigorosos, ou as características mais teatrais, ou os movimentos mais ondulares, dependendo de onde se estabeleceram.

Dentre os estilos clássicos, o Bharatanatyam tornou-se o mais popular, tanto na Índia quanto fora dela. Ele é dançado ao som da música clássica do sul da Índia, a música Karnatik. Seus adereços típicos são dourados, e os ornamentos são aqueles usados pelas noivas da região. Isso vem da ideia de que a dançarina é casada com a divindade. Anteriormente, a dança era feita nos templos por mulheres que eram “dedicadas” às divindades, em um ritual a partir do qual eram consideradas casadas com elas. Tanto que essas dançarinas eram chamadas de nitya sumangali, eternamente auspiciosas, pois jamais conheceriam a viuvez. E, casadas com o divino, passavam a ser vistas, de certa forma, como sendo elas mesmas divinas.

O Bharatanatyam, antes conhecido por outros nomes, como sadir e dasi attam, foi se desenvolvendo e tomando novas formas, como acontece com toda a tradição que sobrevive ao passar dos tempos, sem perder suas características essenciais.

O aprendizado da técnica engloba a maestria de muitos movimentos e posições, como as posições básicas dos membros inferiores, o araimandi, as diversas posturas, giros, saltos, movimentos e posições (bhedas) de cabeça, olhos, pescoço, pés, as expressões faciais, os diversos modos de se deslocar pelo espaço e um número imenso de gestos de mãos e seus possíveis usos, que consistem em uma linguagem em si. Os estudantes aprendem as sequências de movimentos chamadas adavus, que vão do mais simples e curto ao mais complexo. As posturas são como letras do alfabeto, os adavus são como palavras e as coreografias são como textos. Desse modo, juntando-se as posturas, temos os adavus e, juntando-se os adavus, temos as coreografias.

Além de toda essa técnica, o estudante deve ter uma compreensão sólida dos complexos ritmos e suas regras, bem como dos diversos tipos de sentimentos, emoções e personagens. É necessário conhecer bem as histórias dançadas e compreender suas várias camadas de profundidade e leituras possíveis a partir da filosofia e das diversas vertentes do pensamento indiano, que trazem seu significado mais profundo e simbólico. Além disso, para quem está dentro da tradição, é necessário também mergulhar em um processo de transformação pessoal através do trabalho artístico, assim como em uma prática de meditação. É claro que é possível aprender a dança apenas como técnica corporal, mas isso deixa de lado uma grande parte dela, conforme dito em suas escrituras e repetido incansavelmente pelos grandes mestres tradicionais que trouxeram essa arte até nós.

Kamalaksi Rupini

Kamalaksi Rupini

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Dançarina, professora, pesquisadora, coreógrafa e atriz, dedicada às artes, especialmente à dança clássica indiana. Com licenciatura plena em Artes Cênicas pela UFMG, também completou lá seu Mestrado em Artes. Desde a infância e ao longo da vida estudou ballet clássico, dança contemporânea, contato-improvisação, dança de salão, dança do ventre, capoeira angola e dança-teatro. Se apresentou nos maiores e mais tradicionais festivais da Índia e em outras partes do mundo, recebendo títulos importantes, como o prestigiado Nritya Ratna (“a joia da dança”) e sendo aclamada pelo público, imprensa e crítica do país. Começando o estudo da dança indiana no ano 2000, em 2007 se estabeleceu na Índia aprendendo o Bharatanatyam com a renomada Guru B. Bhanumati e aprendeu o estilo Bharatanrityam com Sraddha Prabhu Kumar. Teve a oportunidade rara de aprender também com uma devadasi (dançarina-sacerdotisa), Kanagambhujam. Tem feito pesquisas e coreografias que colocam a dança indiana em diálogo com o resto do mundo e outros estilos de dança, mantendo o respeito pela tradição ao mesmo em tempo que traz inovação e criatividade.