O bailarino e advogado Ted Striggles em 1976, ano de publicação do seu guia de sobrevivência para artistas. Sua camiseta estampa "Unemployed Dancer: Inquire Within" (Bailarino Desempregado: Pergunte Aqui Dentro), refletindo seu trabalho na defesa dos direitos de dançarinos independentes em Nova York. Crédito: Burt Berliner.
A dança norte-americana perdeu, aos 84 anos, uma de suas figuras mais interessantes e menos conhecidas fora dos Estados Unidos. Theodore “Ted” W. Striggles morreu em agosto de 2026, deixando uma trajetória que atravessou o palco, a gestão cultural, as políticas públicas, o direito e a preservação da memória da dança.
Para muitos brasileiros, seu nome provavelmente é desconhecido. Mas sua história merece ser contada justamente porque Striggles representa uma geração de profissionais que ajudou a construir as estruturas que sustentaram a dança independente norte-americana.
Ele foi bailarino. Foi gestor cultural. Foi diretor do Conselho de Artes do Estado de Nova York. Foi advogado especializado em propriedade intelectual. Participou da construção da Pentacle Dance Management e escreveu um dos primeiros guias voltados às questões práticas da vida profissional de bailarinos em Nova York.
Sua trajetória mostra que a história da dança não é feita somente de coreógrafos e intérpretes. Ela também é construída por aqueles que criam as condições para que os artistas possam trabalhar.
Antes do direito, a dança
Ted Striggles atuou profissionalmente como bailarino de dança moderna entre 1968 e 1977, período em que integrou diferentes grupos da cena nova-iorquina.
Em seu currículo, ele descreve essa experiência como uma década de atuação como concert dancer, trabalhando com diversas companhias de dança moderna de Nova York. Também recebeu uma bolsa do National Endowment for the Arts para ensinar gestão e administração a organizações das artes cênicas.
Essa passagem pelo palco seria fundamental para sua vida profissional posterior.
Striggles conhecia a realidade dos artistas porque havia vivido aquela realidade.
E foi justamente essa experiência que parece ter orientado grande parte de sua atuação posterior: ajudar artistas a lidar com as estruturas administrativas, financeiras e jurídicas que normalmente ficam distantes do processo criativo.
Pentacle Dance Management e a construção de uma estrutura para a dança independente
Em 1974, um grupo de coreógrafos e administradores de companhias de dança contemporânea de Nova York começou a experimentar um modelo de gestão compartilhada dentro da organização DanceWorks, Inc.
Entre os administradores envolvidos estava Ted Striggles, ao lado de David White, Peter Levitan, Bill Holcomb e Bob Marinaccio.
Em 1976, a iniciativa passou a se chamar Pentacle Dance Management, posteriormente apenas Pentacle.
A ideia era simples e, para a época, bastante inovadora: companhias independentes poderiam compartilhar recursos administrativos e profissionais em vez de cada uma precisar construir sozinha toda a infraestrutura necessária para funcionar.
A Pentacle oferecia suporte em áreas como administração, representação, finanças e divulgação.
Hoje, a organização é reconhecida como uma importante instituição de apoio às artes cênicas independentes. Em 2026, inclusive, a Pentacle celebra 50 anos de existência.
É importante, portanto, compreender o papel de Striggles nesse contexto: ele fazia parte de uma geração que percebeu que a sobrevivência da dança dependia também da criação de novas formas de organização e gestão.
Diretor do Conselho de Artes do Estado de Nova York
A atuação de Striggles ultrapassou rapidamente o universo das companhias de dança.
Entre 1979 e 1980, ele foi diretor executivo do New York State Council on the Arts (NYSCA), uma das principais instituições de financiamento e formulação de políticas públicas para as artes no estado de Nova York.
De acordo com seu currículo, como diretor executivo ele esteve à frente de uma agência com cerca de 100 funcionários e um orçamento anual de aproximadamente US$ 31 milhões destinados a programas e US$ 2,5 milhões para operações.
A experiência colocou um profissional vindo diretamente do campo das artes em uma posição estratégica dentro da política cultural de um dos maiores centros artísticos do mundo.
Do palco para a defesa dos artistas
Depois de passar pela administração pública, Striggles consolidou sua carreira no direito.
Formou-se em Stanford University e obteve seu Juris Doctor (J.D.) pela Harvard Law School. Também cursou o programa de mestrado em dança da Sarah Lawrence College.
Antes de estabelecer sua própria prática, trabalhou no escritório Paul, Weiss, Rifkind, Wharton and Garrison e atuou no Volunteer Lawyers for the Arts, organização dedicada à assistência jurídica para artistas.
A partir de 1981, passou a trabalhar em seu próprio escritório, concentrando sua atuação em propriedade intelectual, comunicação, artes e organizações sem fins lucrativos.
Essa combinação entre experiência artística e conhecimento jurídico é um dos aspectos mais marcantes de sua trajetória.
Striggles não era um advogado que simplesmente escolheu trabalhar com artistas.
Ele havia sido um artista.
Conhecia os problemas da profissão e compreendia as dificuldades que bailarinos, coreógrafos e companhias enfrentavam para transformar uma criação artística em uma carreira sustentável.
Poor Dancer’s Almanack: quando sobreviver também precisava ser aprendido
Entre suas contribuições mais conhecidas está o Poor Dancer’s Almanack: A Guide to Living and Dancing in New York.
O título já revela a proposta: oferecer aos bailarinos informações práticas para enfrentar a vida profissional em Nova York.
O livro tratava da realidade concreta de quem fazia dança: dinheiro, organização da vida profissional e os diversos aspectos que artistas precisavam administrar para conseguir permanecer trabalhando.
A publicação tornou-se uma referência dentro da comunidade artística e posteriormente recebeu reconhecimento do New York Dance and Performance Awards — Bessie.
O trabalho de Striggles revela uma preocupação que continua extremamente atual: formar um artista não significa apenas ensiná-lo a criar ou executar uma obra; significa também ajudá-lo a compreender os mecanismos que permitem que essa carreira exista.
Direito autoral, contratos e legado
Outro livro de sua autoria foi Fear of Filing: A Beginner’s Guide to Tax Preparation and Record Keeping for Artists, dedicado às questões fiscais e à organização documental dos profissionais das artes.
Sua atuação jurídica também esteve diretamente relacionada à proteção dos direitos de artistas e organizações culturais.
Ao longo de sua carreira, Striggles trabalhou com questões de propriedade intelectual e artes, além de participar de organizações e conselhos ligados ao setor.
Para a dança, esse trabalho tem um significado especial.
Coreografias são obras artísticas, mas também são patrimônio intelectual. Questões como autoria, reprodução, contratos, licenciamento e preservação de repertório fazem parte da vida profissional de uma companhia.
Striggles dedicou parte de sua carreira justamente a esse território onde arte e direito se encontram.
A televisão e a memória da dança
Striggles também participou do universo audiovisual da dança.
Ele esteve ligado ao programa EYE ON DANCE, criado por Celia Ipiotis, importante arquivo audiovisual dedicado à dança e às artes cênicas.
A série registrou entrevistas, performances e conversas com importantes artistas da dança norte-americana.
Para pesquisadores e interessados na história da dança, esse tipo de registro tem um valor que vai muito além da televisão: são documentos de uma época, capazes de preservar vozes, pensamentos e experiências que poderiam desaparecer.
Uma carreira construída nos bastidores
Talvez seja justamente essa característica que torne Ted Striggles tão interessante. Ele não ficou conhecido apenas por uma grande companhia ou por uma obra coreográfica específica. Seu legado está espalhado por diferentes lugares. Está na experiência de quem dançou. Está na criação de estruturas administrativas para companhias independentes. Está na política cultural de Nova York. Está no trabalho jurídico realizado para artistas. Está nos livros escritos para ajudar profissionais da dança a compreender a própria vida financeira e profissional. Está nos arquivos audiovisuais. E está também nas organizações das quais participou.
Seu currículo registra ainda passagens como professor em instituições como New York University, Pace University, State University of New York at Binghamton e Cardozo School of Law, além de sua participação em conselhos e organizações ligadas às artes.
Por que lembrar Ted Striggles no Brasil?
A história de Ted Striggles pode parecer, à primeira vista, distante da realidade brasileira. Não é.
As perguntas que atravessaram sua carreira continuam presentes na dança brasileira:
Como uma companhia independente se organiza? Como um artista administra sua carreira? Como proteger uma obra coreográfica? Como garantir os direitos de um criador? omo criar políticas públicas que sustentem a produção artística? Como preservar a memória de uma geração de artistas?
Striggles dedicou sua vida profissional a diferentes respostas para essas perguntas. Por isso, sua trajetória merece ser conhecida também entre nós. Ele nos lembra que a história da dança não acontece somente quando as luzes se acendem e o espetáculo começa.
Existe uma enorme estrutura por trás de cada obra: pessoas que administram, produzem, negociam, pesquisam, arquivam, financiam e defendem os direitos dos artistas.
Descanse em paz, Ted Striggles.
Que sua história também possa ser conhecida por novas gerações de artistas, gestores, pesquisadores e profissionais da dança.
Fontes consultadas
- Theodore W. Striggles — site profissional e currículo: informações sobre sua formação, carreira como bailarino, atuação no NYSCA, prática jurídica, publicações e atividades acadêmicas. (Striggles)
- Pentacle — History: história da formação da organização, seus fundadores e administradores, incluindo Ted Striggles e David White. (Pentacle)
- Pentacle — Timeline: cronologia da organização desde DanceWorks, em 1974, até a criação da Pentacle em 1976 e seus desdobramentos. (Pentacle)
- Pentacle — About: informações institucionais sobre a organização e sua atuação como entidade sem fins lucrativos de apoio à gestão das artes cênicas. (Pentacle)
- Pentacle — 50th Anniversary: informações sobre os 50 anos da organização em 2026. (Pentacle)
- The New York Times, 20 de agosto de 2026: obituário de Theodore “Ted” Striggles e informações sobre sua morte. (LAMAMIMET)
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