Defesa póstuma na Unicamp celebra as trajetórias de Carla Vendramin e Silvia Geraldi

Tese da pesquisadora de dança, defendida mais de dois anos após sua morte, reúne pesquisa, memória e práticas de transformação do corpo e da natureza

Mais de dois anos depois da morte da pesquisadora e professora de dança Carla Vendramin e pouco mais de um ano após a morte de sua orientadora, a professora e artista Silvia Geraldi, uma pesquisa que aproximava dança, permacultura, ecologia e práticas corporais finalmente chegou à banca de defesa.

A cerimônia aconteceu na segunda-feira, 24 de agosto, na Casa do Lago, na Unicamp, e marcou um momento inédito na Universidade: a realização de uma defesa de doutorado após a morte da pesquisadora e, posteriormente, de sua orientadora. A tese “Compostagem como prática performativa: processos imersivos em dança e permacultura” foi apresentada no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena do Instituto de Artes.

A defesa foi resultado de um processo iniciado ainda por Silvia Geraldi, que, após a morte de Carla, buscou junto à Universidade caminhos para que a pesquisa pudesse ser avaliada. A própria Geraldi, no entanto, morreu em julho de 2025, aos 61 anos, interrompendo novamente o percurso.

Coube então à professora Marisa Martins Lambert, do Departamento de Artes Corporais do Instituto de Artes, dar continuidade ao processo. Como não existia na Unicamp um procedimento institucional para uma situação dessa natureza, foi necessário construir, entre diferentes instâncias da Universidade, uma forma de viabilizar a defesa.

A conclusão desse percurso representa não apenas o reconhecimento acadêmico da pesquisa de Carla Vendramin, mas também a preservação de uma produção que atravessa questões centrais para a dança contemporânea: o corpo, a relação com o ambiente, os processos de transformação e a própria ideia de vida e morte.

Carla Vendramin: dança, corpo e ecologia

Natural de Caxias do Sul (RS), Carla Vendramin construiu uma trajetória marcada pela dança, pela educação e pela investigação de práticas corporais. Professora vinculada ao curso de Licenciatura em Dança da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), realizou mestrado em coreografia na Middlesex University, em Londres.

Sua pesquisa de doutorado partia da compostagem como uma prática capaz de produzir outras maneiras de pensar o corpo e suas relações com o mundo. Em vez de tratar a compostagem apenas como uma prática ligada à terra, Vendramin investigava seus processos como possibilidade de reflexão sobre transformação, regeneração, matéria, ambiente e existência.

Na defesa, essa perspectiva apareceu também na própria forma de apresentação. A banca não se limitou ao modelo convencional de exposição e arguição. A atividade foi atravessada por performance, práticas somáticas, permacultura, agrofloresta e experiências corporais.

Amigas, colegas e pesquisadoras que fizeram parte da trajetória de Carla também participaram desse momento, recuperando aspectos de sua pesquisa e de sua presença na dança.

Para a pesquisadora Alba Vieira, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), um dos aspectos importantes do trabalho está justamente na capacidade de levar para a escrita conhecimentos construídos corporalmente, articulando experiência e reflexão acadêmica.

A professora Ana Terra, do Curso de Dança e do Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena, também destacou o caráter prospectivo da pesquisa, apontando sua capacidade de imaginar e, ao mesmo tempo, criar condições para outros modos de existência.

Silvia Geraldi e uma trajetória que permanece em diálogo

A história da tese de Carla também é, inevitavelmente, atravessada pela trajetória de Silvia Geraldi.

Professora do curso de Dança e do Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena da Unicamp, Geraldi teve uma atuação importante na formação de artistas, pesquisadores e professores. Entre 2017 e 2021, coordenou o Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena.

Sua produção esteve profundamente ligada à investigação do corpo, aos processos de criação e à prática como pesquisa, campo que também atravessava o trabalho desenvolvido por Carla.

Foi nesse território de diálogo entre prática artística, pesquisa acadêmica e experiência corporal que as trajetórias das duas pesquisadoras se encontraram.

Durante a cerimônia, essa relação foi lembrada por colegas que conviveram com ambas. A professora Erika Velloso Lemos Schwarz, do Instituto de Artes, contou que conheceu Carla durante a pandemia, quando foi acolhida por Silvia no grupo de pesquisa Prática como Pesquisa. O contato, inicialmente mediado pelo ambiente virtual, tornou-se parte de uma rede de convivência e investigação que aproximou as duas pesquisadoras.

A defesa, portanto, não representou somente a conclusão de uma tese. Também materializou a continuidade de um diálogo entre duas mulheres que, em diferentes momentos, dedicaram suas trajetórias à pesquisa em dança e às possibilidades de transformação produzidas pela arte.

Uma defesa atravessada pela memória

A cerimônia também incorporou elementos da trajetória artística de Carla. Durante o intervalo, amigos da pesquisadora realizaram uma ação do lado de fora da Casa do Lago, com leitura de trechos da tese, movimentos, flores, bambus e referências à palhaçaria.

Entre essas referências estava Malagueta, personagem que acompanhou parte de sua trajetória como artista. A palhaça se tornou uma das formas encontradas pelos amigos para manter presente sua memória.

Crédito: Jornal da Unicamp

A palhaça Giovanna Zottis, que conviveu e trabalhou com Carla durante anos, participou desse momento. A amizade entre as duas atravessou a cena, a pesquisa e também a vida cotidiana, incluindo o período da pandemia.

A presença da terra, das flores e do corpo em movimento durante a cerimônia dialogou diretamente com a própria pesquisa de Carla. A compostagem, entendida como processo de transformação da matéria, ganhou ali também uma dimensão simbólica: aquilo que se transforma não necessariamente desaparece, mas pode dar origem a outras formas de vida.

Essa perspectiva também apareceu nas reflexões da professora Mônica Dantas, da UFRGS, que destacou as relações propostas pela pesquisa entre arte, vida, morte e transformação.

“Essa obra precisa ser plantada em muitos outros lugares”

A realização da defesa encerra um percurso institucional, mas não significa o fim da circulação da pesquisa.

A tese será disponibilizada no repositório institucional da Unicamp e existe a perspectiva de publicação. Para Marisa Lambert, responsável pela continuidade do processo após a morte de Silvia Geraldi, o trabalho precisa continuar encontrando novos espaços e leitores.

A defesa póstuma de Carla Vendramin torna-se, assim, um gesto de reconhecimento de sua trajetória e, ao mesmo tempo, de continuidade de uma pesquisa que permanece aberta a novos diálogos.

Também é uma forma de preservar a contribuição de Silvia Geraldi para esse percurso. Orientadora de Carla e pesquisadora cuja produção dialogava com questões centrais presentes na tese, Geraldi deixou na pesquisa da orientanda uma marca que ultrapassa a relação acadêmica.

No encontro entre as duas trajetórias, a dança aparece como prática capaz de produzir conhecimento, estabelecer relações e imaginar outras formas de existência.

Leoni Lima, mãe de Carla Vendramin, durante a cerimônia de defesa póstuma da tese da pesquisadora, realizada na Casa do Lago, na Unicamp. Crédito: Jornal da Unicamp.

A mãe de Carla, Leoni Lima, acompanhou a defesa em Campinas. Vinda do Rio Grande do Sul, esteve presente para testemunhar a conclusão de uma etapa que a filha havia iniciado em vida.

Carla começou a dançar aos seis anos. Aos 51, morreu em janeiro de 2024, em decorrência de um incêndio em sua casa, em Porto Alegre. Silvia Geraldi morreu aos 61 anos, em julho de 2025, em decorrência de uma doença congênita.

A defesa realizada em agosto de 2026 reúne, portanto, duas ausências e uma presença que permanece: a das pesquisas, dos corpos, das relações e dos legados que Carla Vendramin e Silvia Geraldi construíram na dança.

Fonte: Jornal da Unicamp, “Defesa póstuma inédita no Instituto de Artes celebra legado de pesquisadora e orientadora”, publicado em 26 de agosto de 2026.

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