Foto: Facebook Claudia Sheinbaum
Declaração do presidente dos Estados Unidos reduz a trajetória artística da líder mexicana a motivo de deboche e levanta questões sobre o reconhecimento da dança e os estereótipos associados às mulheres em posições de poder. Sheinbaum estudou balé dos seis aos 19 anos, antes de seguir carreira na Física e na política.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, questionou publicamente como Claudia Sheinbaum passou de bailarina a presidenta do México. A declaração foi feita em 21 de outubro, durante um comício em Clemson, na Carolina do Sul, e repercutiu na imprensa internacional.
“Ela era bailarina de balé. Não sei como diabos passou de bailarina a presidenta do México. Como diabos isso aconteceu?”, disse Trump diante de seus apoiadores.
A fala ocorreu enquanto o presidente norte-americano relatava uma suposta conversa telefônica com Sheinbaum sobre a decisão de seu governo de utilizar a denominação “Golfo da América” em vez de “Golfo do México” em documentos oficiais dos Estados Unidos.
O comentário vai além de uma referência ao passado artístico da presidenta. Ao perguntar, em tom de deboche, como alguém que estudou balé chegou à Presidência, Trump constrói uma oposição entre a formação em dança e o exercício de uma função política. A declaração não explica por que essas experiências seriam incompatíveis, mas apresenta a passagem de uma à outra como algo surpreendente.
A questão merece atenção também pelo modo como a formação artística é frequentemente tratada fora de seu próprio campo: como atividade secundária, curiosidade biográfica ou etapa que precisaria ser superada para que alguém fosse reconhecido em outras áreas. No caso de Sheinbaum, a dança aparece no discurso de Trump como elemento de desqualificação, e não como parte de uma trajetória que reúne diferentes experiências profissionais.
Claudia Sheinbaum estudou balé dos seis aos 19 anos
A dança clássica fez parte da vida de Sheinbaum durante boa parte da infância e da juventude. Segundo reportagem publicada pelo Infobae em 22 de outubro de 2026, ela estudou balé dos seis aos 19 anos, antes de optar pela Física na Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM).

Foto: Instagram @claudia_shein
A própria presidenta já falou publicamente sobre o significado dessa experiência. Em 29 de abril de 2023, no Dia Internacional da Dança, publicou fotografias de sua infância e escreveu sobre os aprendizados que levou consigo:
“Da dança aprendi a disciplina, a constância, o trabalho coordenado e a confiança em si mesma”, afirmou, em mensagem reproduzida pelo Infobae.

Em abril de 2024, Sheinbaum voltou a compartilhar uma fotografia da época em que estudava balé, destacando que a prática artística a ensinou a ter disciplina desde pequena. Ela também defendeu o acesso à cultura como um direito.
A formação exigia dedicação diária. Em entrevista recuperada pelo jornal mexicano El Financiero, Sheinbaum explicou que as aulas ocupavam de três a quatro horas por dia. Ao ingressar na universidade, precisou escolher entre continuar a formação artística e dedicar-se integralmente aos estudos.
Da dança à Física e à pesquisa científica
Ao entrar na Faculdade de Ciências da UNAM, Sheinbaum decidiu estudar Física. A escolha marcou uma mudança de percurso profissional, mas não torna a experiência anterior com a dança menos relevante.
Em uma entrevista coletiva de 12 de agosto de 2026, a presidenta recordou essa decisão e contou que, depois de deixar o balé, integrou a equipe universitária de remo e também praticou atletismo. O remo exigia que ela começasse os treinos às cinco horas da manhã, antes das aulas na universidade.
Sheinbaum graduou-se em Física, concluiu doutorado em engenharia energética e construiu uma carreira acadêmica voltada à energia e ao meio ambiente. Em 2007, participou do grupo de especialistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que recebeu o Prêmio Nobel da Paz naquele ano, juntamente com o ex-vice-presidente norte-americano Al Gore.
Posteriormente, ingressou na administração pública. Foi secretária do Meio Ambiente da Cidade do México, chefe da administração de Tlalpan e chefe de governo da capital mexicana. Em 2024, venceu a eleição presidencial e tomou posse em 1º de outubro, tornando-se a primeira mulher a ocupar a Presidência do México.
Essa trajetória reúne formação artística, pesquisa científica e atuação política. Não há contradição necessária entre esses campos, tampouco uma hierarquia que faça da dança uma experiência menos legítima do que a ciência ou a política.
O preconceito por trás da pergunta
A fala de Trump também permite discutir os estereótipos que cercam as mulheres em posições de poder. Quando a trajetória de uma presidenta é apresentada como surpreendente por incluir a dança, a declaração sugere que a formação artística não seria compatível com a autoridade política.
Não é possível afirmar, apenas a partir dessa fala, qual foi a intenção pessoal de Trump. É possível, entretanto, analisar o efeito de suas palavras: a experiência de uma mulher na dança é transformada em argumento de deboche, como se fosse necessário explicar como ela chegou a ocupar a Presidência.
Esse enquadramento ganha outra dimensão quando se considera que a dança é uma profissão e um campo de conhecimento que exige formação, técnica, dedicação e trabalho continuado.
A crítica não depende de idealizar a trajetória de Sheinbaum nem de considerar sua experiência artística uma explicação para sua atuação política. O ponto é outro: ter estudado dança não deveria funcionar como motivo para questionar a legitimidade de alguém em uma função pública.
A pergunta que fica é por que a experiência na dança foi escolhida como motivo de deboche — e o que esse enquadramento revela sobre o reconhecimento social da formação artística e sobre as expectativas impostas às mulheres que ocupam posições de poder.
Fontes
- Infobae — “Da dança aprendi a disciplina, a constância, o trabalho coordenado e a confiança”: o que Sheinbaum disse sobre sua passagem pelo balé
- Infobae — Trump questiona como Sheinbaum passou de bailarina a presidenta
- Transcrição do discurso de Trump — Roll Call / Factba.se
- El Financiero — Por que Claudia Sheinbaum deixou o balé para estudar Física
- La Jornada — Trump ironiza sobre o passado de Sheinbaum como bailarina
- Reuters — Perfil de Claudia Sheinbaum, cientista e política
- Presidência do México — Entrevista coletiva de 12 de agosto de 2026
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