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Artistas, pesquisadores, estudantes, produtores culturais, grupos e companhias de Mato Grosso do Sul iniciaram uma mobilização em defesa da retomada da Semana Pra Dança, considerada uma das principais ações de difusão, formação e valorização da dança no Estado.
O movimento ganhou força diante da ausência do evento em 2025 e da falta de previsão de uma nova edição em 2026, cenário que tem gerado preocupação quanto à continuidade das políticas públicas voltadas ao setor.
A mobilização busca sensibilizar o poder público sobre a importância da continuidade da Semana Pra Dança e cobrar esclarecimentos sobre sua interrupção. Para os profissionais da área, o evento consolidou-se como uma política pública estruturante, responsável por fortalecer a formação artística, a circulação de espetáculos e a cadeia produtiva da dança em Mato Grosso do Sul.
Para o Coordenador do Colegiado Estadual de Dança de Mato Grosso do Sul Halisson Nunes, um dos participantes do movimento, a preocupação vai além da realização de um festival.
“O que está em discussão é a continuidade de uma política pública construída ao longo de anos. A Semana Pra Dança representa a formação, circulação e valorização da dança sul-mato-grossense, e sua interrupção preocupa toda a comunidade artística”.
Uma história construída pela dança em MS
Criada para celebrar o Dia Internacional da Dança, em 29 de abril, a Semana Pra Dança consolidou-se, ao longo de mais de uma década, como o principal encontro estadual dedicado exclusivamente à linguagem. A programação promoveu intercâmbios entre artistas sul-mato-grossenses e profissionais de outros estados, além de espetáculos, oficinas, mostras coreográficas, mediações artísticas e ações voltadas à formação de público.
Após aproximadamente cinco anos sem realização, o evento retornou ao calendário cultural em 2024. A 13ª edição reuniu artistas de diferentes estados, reafirmando sua relevância como espaço de circulação artística, aperfeiçoamento profissional, democratização do acesso à cultura e geração de oportunidades para a classe.
O pesquisador e articulador cultural Marquinhos Mattos afirma que a trajetória da Semana Pra Dança acompanha a própria construção das políticas públicas para a dança em Mato Grosso do Sul.
“Ao longo dos anos, esse processo foi sendo enfraquecido. A redução dos espaços de participação social e a descontinuidade administrativa comprometeram políticas construídas coletivamente. A interrupção da Semana Pra Dança, do Circuito Dança no Mato e do Prêmio Célio Adolfo representa mais do que a suspensão de ações; significa a desarticulação de uma política pública estruturante”.
Segundo Marquinhos, os reflexos atingem toda a cadeia produtiva da dança.
“A diminuição das oportunidades de circulação, formação, pesquisa e intercâmbio enfraquece redes de colaboração, reduz oportunidades para artistas emergentes e compromete a memória da dança sul-mato-grossense. Sem continuidade, todo o ecossistema da dança fica vulnerável”.
Ao longo desse processo, também surgiram iniciativas como o Circuito Dança no Mato e o Prêmio Célio Adolfo de Incentivo à Dança, considerados pela comunidade artística conquistas da mobilização coletiva e importantes instrumentos para fortalecer a produção, a circulação e a formação em dança no Estado.
Não tem dinheiro?
Além de defender a retomada da Semana Pra Dança, o movimento também questiona a justificativa de insuficiência financeira apresentada para a não realização do evento. Como parte da mobilização, os profissionais reuniram dados publicados no Diário Oficial do Estado de Mato Grosso do Sul para analisar a destinação de recursos públicos voltados ao setor cultural.
Segundo o levantamento, entre 2025 e 2026, a Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul realizou mais de 40 contratações diretas de artistas, grupos, empresas e produtores culturais, totalizando mais de R$ 20 milhões em recursos públicos.
Com base nisso, os integrantes do movimento questionam os critérios adotados para justificar a ausência de recursos destinados ao principal evento estadual dedicado exclusivamente à dança enquanto há recurso para outros eventos culturais.
Para a artista Marcus Perez, a categoria aguarda uma resposta há dois anos.
“A comunidade da dança espera a realização da Semana Pra Dança enquanto a justificativa apresentada tem sido a falta de recursos financeiros. O que pedimos é transparência sobre os critérios adotados para essa decisão”.
Entre os dados apresentados estão o custo de R$420 mil da edição de 2024 da Semana Pra Dança e a informação de que um único estúdio de dança recebeu R$743 mil em 64 contratações por inexigibilidade entre 2023 e 2026. O levantamento também cita R$ 1.154.000,00 destinados à contratação de sete atrações gospel para a Marcha para Jesus 2026 e R$ 1.410.000,00 pagos a duas duplas sertanejas no projeto “Meu Bairro é Show”, defendendo que esses números suscitam um debate sobre as prioridades da política cultural estadual.
Marcus Perez destaca que o impacto da ausência do evento ultrapassa a realização de um festival.
“A Semana Pra Dança fortalece toda a cadeia produtiva da dança. Ela movimenta artistas, companhias, coletivos, técnicos, professores, estudantes, pesquisadores e produtores culturais, além de promover circulação artística, formação de público e intercâmbio profissional”.
Diante desse cenário, artistas e agentes culturais reforçam o pedido pela retomada da Semana Pra Dança e pela reconstrução de mecanismos permanentes de diálogo entre poder público e sociedade civil. Para o movimento, garantir a continuidade do evento significa preservar uma política pública construída ao longo de anos de mobilização da comunidade artística e assegurar condições para que novas gerações de profissionais possam criar, pesquisar, circular e fortalecer a dança em Mato Grosso do Sul.
Entenda: histórico de desrespeito e descompromisso do poder público estadual
Para os integrantes do movimento, a ausência da Semana Pra Dança em 2025 e 2026 não representa um episódio isolado, mas a continuidade de um processo de descontinuidade administrativa que, segundo eles, já havia marcado a realização da última edição, em 2024.
De acordo com a documentação apresentada pela Associação Arado Cultural, selecionada como Organização da Sociedade Civil (OSC) responsável pela execução do evento, o processo passou por sucessivas alterações de planejamento e orçamento durante sua tramitação. A entidade encaminhou a documentação em 21 de março de 2024, apresentou o Plano de Trabalho no valor de R$ 543 mil no dia 29 de março e, posteriormente, recebeu da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS) a solicitação para reduzir o orçamento para R$ 500 mil, sob a justificativa de limitações relacionadas ao Tribunal de Contas do Estado.
Ainda segundo o relato da entidade, após o início da seleção dos grupos e artistas que integrariam a programação, a FCMS alterou o instrumento jurídico inicialmente previsto, substituindo o Termo de Colaboração por um Termo de Fomento e exigindo a reformulação de todo o Plano de Trabalho. Em maio de 2024, novos ajustes reduziram o orçamento para R$ 416,8 mil, valor posteriormente renegociado para R$ 480 mil. Dias depois, entretanto, a produtora foi informada de que o presidente da Fundação autorizaria apenas R$ 420 mil para a realização do evento.
Para os representantes do movimento, a sequência de mudanças de planejamento, cortes orçamentários e alterações administrativas durante a organização da edição de 2024 evidencia um padrão de descontinuidade que ajuda a explicar a preocupação da classe artística com o futuro da Semana Pra Dança. Eles defendem que a retomada do evento passa não apenas pela garantia de recursos, mas também pela reconstrução de uma política pública permanente, com previsibilidade, planejamento e diálogo entre poder público e sociedade civil.
Portal MUD