Take de um vídeo publicado no instagram do artista Igor Pretto em fevereiro de 2024, onde criticava as políticas decretadas para o carnaval de rua de Porto Alegre
Conheça o artista Igor Pretto que transforma as redes sociais em palco, o corpo em linguagem e a câmera em aliada de discursos sociais e políticos urgentes.
Com quase duas décadas de trajetória na dança, o artista gaúcho Igor Pretto faz do corpo uma ferramenta de criação, denúncia e conexão. Da formação na Licenciatura em Dança pela Universidade de Cruz Alta (Unicruz) à experimentação com o audiovisual nas redes sociais, seu percurso é marcado por inquietações estéticas e urgências sociais.
“Me formei em 2005, com 18 anos. Na época, o curso da Unicruz era o único superior de dança no Rio Grande do Sul. Desde lá, minha pesquisa se voltou para a dança contemporânea e, mais tarde, para o cruzamento com as novas tecnologias”, conta.
Hoje, de volta a Porto Alegre após uma temporada de sete anos no Rio de Janeiro, ele atua em múltiplas frentes: dirige e coreografa espetáculos, orienta oficinas de formação para jovens bailarinos, é carnavalesco premiado e iluminador cênico. Mas foi nas redes sociais, sobretudo no Instagram, que encontrou um novo território artístico.
A dança precisa estar onde as pessoas estão
O perfil que criou ao fim de 2021 nasceu como um espaço despretensioso de experimentação, mas logo ganhou corpo, linguagem e público. Ali, ele compartilha performances autorais criadas especialmente para a lógica e o formato das redes.
“A ideia era trazer a dança e a arte cênica para a rede de uma forma artística, mas também social. As pessoas estão na internet, e é ali que a gente também pode encontrá-las. Talvez apresentar só em teatros já não seja mais suficiente.”
As obras nascem a partir da relação entre corpo, câmera e espaço urbano. A rua, que já era território de performance em sua trajetória carioca, torna-se agora cenário e parte da narrativa.
“O fato de escolher a rua é também uma escolha política. É ocupar um espaço comum com arte. Estar ali, dançando, é afirmar que a cidade também é um lugar de criação.”
Real em ambiente fake
Um dos conceitos que atravessam o trabalho de Pretto é o de “performances reais em ambientes fakes”, uma provocação direta à lógica das redes sociais. Para ele, há uma tensão interessante entre o corpo que se expõe e o ambiente virtual onde essa exposição acontece.
“O Instagram é um espaço fake. Mesmo quando mostramos coisas reais, é sempre uma edição, uma escolha. E a arte também é isso: uma ficção sobre o real. Quando danço ali, estou criando uma realidade para falar da nossa.”
Esse atravessamento entre o íntimo e o coletivo, o político e o poético, tem ganhado força sobretudo desde a enchente que atingiu Porto Alegre em 2024. Morador da cidade, ele perdeu quase tudo e foi no corpo, mais uma vez, que encontrou voz.
“Comecei a produzir vídeos sobre o que estava acontecendo. Foi ali que essa dimensão política e socioambiental se intensificou. Eu entendi que podia usar minha linguagem para dizer algo que muita gente estava sentindo.”

Take de um vídeo publicado no Instagram do artista em agosto de 2024, onde critica a falta de atenção às enchentes, por parte da prefeitura de Porto Alegre.
Compartilhar para transformar
Em tempos de disputas de narrativas no ambiente digital, seus vídeos, que às vezes chegam a milhares de compartilhamentos, não apelam para o humor fácil nem para o conteúdo viral tradicional. Eles propõem outra coisa: parar, sentir, refletir.
“É muito louco ver um vídeo que fala de algo pesado, como uma tragédia, ser compartilhado por milhares de pessoas. E tudo isso usando a linguagem do corpo. Isso me mostra que a arte pode sim tocar, mesmo nas redes.”
Mais do que se adaptar a um novo formato, ele tem feito das redes um campo de resistência estética. “Acho que os artistas não são obrigados a falar sobre política. Mas temos alguma responsabilidade. Estamos vivendo isso, estamos inseridos nisso. Não dá para fingir que não está acontecendo.”
A partir dessa criação, Igor Pretto aposta na escuta, no gesto, no corpo que se movimenta mesmo diante do caos. E nos convida a acompanhar esse percurso, dançando junto, ainda que do outro lado da tela e de onde estivermos.
Para conhecer mais sobre o artista, siga seu Instagram clicando AQUI.
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