Foto: Safira Moreira
Entre os dias 6 e 10 de agosto de 2026, o Sesc Pompeia, em São Paulo (SP), transformou-se em território, onde fomos atravessados pela força de Ntanga. Sob a direção e performance de Inaê Moreira, o trabalho materializa-se através dos corpos das performers e co-criadoras Júlia Lima e Danielli Mendes, em uma atmosfera sonora tecida pela direção musical de Lucas Carvalho e as performances musicais ao vivo de Felinto e Sthe Araújo.
É no território do corpo que Ntanga opera uma reivindicação histórica no campo da dança contemporânea. Por muito tempo, as criações gestadas a partir de diásporas afro-referenciadas foram confinadas ao rótulo de dança identitária, que as empurrava para as margens da legitimação da dita dança contemporânea. Todavia, Ntanga, ao inscrever suas cosmologias, fraturou as fronteiras do que as epistemologias hegemônicas costumam blindar sob a ótica universal.
Ntanga desvia-se das armadilhas do exótico para traçar uma cartografia espiralar. O rigor da pesquisa faz-se carne na presença das três performers, uma trindade que operou em uma pulsação neurológica, estabelecendo sinapses corporais que se afastaram e se aproximaram, sob a regência de uma corrente construída pelo corpo em movimento. Contudo, o andamento coreográfico flertou com a cadência do lento-rápido-lento. O trabalho revelou uma timidez ao utilizar os elementos do palco de maneira linear, ao empregar todos os materiais dispostos pelo palco, a estrutura coreográficas com partituras que iniciavam com movimentações morosas e ascendiam ao um ritmo acelerado e posteriormente progrediram esse ciclo, o que ocasionou na privação de espaços para o mistério ou a suspensão. Todavia, a genialidade da obra reside no fato de que, mesmo sem essa ousadia formal na construção coreográfica da dança, ela consegue desintegrar o fetiche colonial.
Ntanga bebe do passado, mas não como um arquivo morto ou distante, mas como uma presença viva que se materializa no presente e abre caminhos para fabulações onde esses corpos e danças não sejam interpretados por uma via única. Ao erguer suas cosmologias a obra estilhaça o espelho onde a dança ocidental, a partir de filosofias européias e norte-americanas sobretudo, se autodeclara contemporânea.
Quando a filósofa e artista visual Denise Ferreira da Silva (2025) nos convoca a criar outros imaginários para a instauração de mundos novos, territórios livres da arquitetura da hierarquia racial, torna-se evidente que essa fratura de paradigmas precisa começar pela carne, pela arte. Em seu lugar, Ntanga desenha uma espiralar onde o ontem, o hoje vivo e o amanhã se dobram, se tocam e se constroem mutuamente
Se a dança contemporânea se define pela urgência de tensionar tanto as estruturas políticas quanto as estéticas de sua época (Louppe, 2012), Ntanga desenha um caminho, sua verdadeira radicalidade não reside na sintaxe ou na quebra do movimento, mas na contracolonização profunda do imaginário político que convoca aos espectadores. Pois, na espiral do tempo, o amanhã não é uma promessa distante, mas uma projeção construída que já estamos co-criando, no agora, pelo feitiço insubmisso do corpo que recusa o cativeiro do exótico, desintegra o fetiche eurocêntrico e se ergue como um pergaminho vivo de memórias insurgentes.
Ficha Técnica
Direção, criação e performance: Inaê Moreira
Performance e cocriação: Júlia Lima e Danielli Mendes
Direção musical: Lucas Carvalho
Performance musical: Felinto e Sthe Araújo
Criação e operação de luz: Juliana Jesus
Assistente de iluminação: Rafael Oliveira
Empresa de sonorização: DOMA som – Gil Douglas
Cenografia: Monica Ventura
Assistente de Cenografia: Mariana Rodrigues
Cenotécnico: Matias Ivan Arce
Figurino: Mara Carvalho
Costureira: Oscarina
Produção executiva: Iolanda Sinatra
Assistente de produção: Julia Lacerda e Mariana Dias
Preparação corporal: Janette Santiago
Fotografia e vídeo: Safira Moreira
Designer gráfico: Marcos Pacheco e Mariana Rodrigues
Confecção das máscaras: Eduardo Paiva e Ruth Takiya – Cerâmica do Morro do Querosene
Referências
LOUPPE, Laurence. Poética da dança contemporânea. Prefácio e notas de Maria José Fazenda. Tradução de Rute Costa. Lisboa: Orfeu Negro, 2012.
FERREIRA DA SILVA, Denise. Especulações sobre uma Teoria Transformativa da Justiça. Revista Direito e Práxis, Rio de Janeiro, Vol. 16, N. 1, 2025, p. 1-12. DOI: 10.1590/2179-8966/2025/87348. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/revistaceaju/article/download/87348/53332/337128. Acesso em: 21 de jun. 2026.
SINATRA, Iolanda Maria Figueira. Ntanga. Portal MUD, . Disponível em: https://portalmud.com.br/calendario-da-danca/ntanga/. Acesso em: 1 set. 2026.
Referências consultadas
MOREAU, Arthur. LOUPPE EM PORTUGUÊS, resenha da obra “Poética da Dança Contemporânea”. idança.net, 6 nov. 2013. Disponível em: https://idanca.net/louppe-em-portugues-resenha-da-obra-poetica-da-danca-contemporanea/. Acesso em: 1 set. 2026.
SESC SÃO PAULO. Ntanga | Bienal Sesc de Dança. Sesc SP, 2 set. 2025. Disponível em: https://www.sescsp.org.br/editorial/ntanga-bienal-sesc-de-danca/. Acesso em: 1 set. 2026.
Nailanita Prette