MUSEU DA DANÇA

Vinte de novembro de 2020

Imagem: University of Timbuktu | Sexta, 20 de Novembro de 2020 | por Rui Moreira |

Como ser você mesmo sem fechar-se ao outro, e como abrir-se ao outro sem perder-se a si próprio? Edouard Glissant

O Brasil é o segundo país com maior densidade populacional negra do planeta, fica atrás apenas da Nigéria, país do continente africano. É a maior diáspora africana. Contraditoriamente, aqui o racismo ainda é prática cotidiana em pleno século XXI. Isso persiste pela negação da classe dominante branca, de que mais de 50% da população é preta e descende de africanos subsaarianos. A sociedade brasileira é resultado do hibridismo das culturas africanas, europeias, indígenas e na atualidade de muitos mais povos que aqui vivem.

Os processos afro diaspóricos na América tiveram início através de um êxodo involuntário provocado por vergonhosos processos de subjugação humana que não geram orgulho a ninguém. A história, a partir daí, foi contada com apagamentos que ocasionam às gerações de afrodescendentes, um distanciamento e desconhecimento de sua verdadeira história ancestral. Foi permitido acesso apenas aos relatos dos colonizadores brancos que por sua vez omitiram as riquezas materiais, a nobreza dos reinados africanos subsaarianos e o reconhecimento sobre a origem dos legados fundantes do conhecimento ocidental. Poucos de nós sabemos que a universidade corânica de Sankoré, na cidade de Timbuktu, no Mali, foi, possivelmente, a primeira universidade do mundo, e pesquisadores acreditam que ela foi fundada no século XII.

Nas Américas, e muito intensamente aqui no Brasil, cultua-se um orgulho soberbo de descender de colonizadores que promoveram terríveis genocídios contra os povos indígenas, população negra africana e seus descendentes. Isto é tão fortemente interiorizado que os traços desta visão hegemônica contaminam até mesmo quem se declara não racista ou se diz antirracismo.

O racismo também está intensamente ligado ao direito de ir e vir do ser humano, pois ondas xenofóbicas contribuem para a proliferação de um “racismo ingênuo” ou “velado”. Estas características de nação precisam ser abordadas neste momento, em que as revisões se fazem necessárias. Quando falamos de combate ao racismo ou ao fascismo está implícito um câmbio de percepção de mundo que altere a consciência planetária.

As múltiplas identidades afrodescendentes são sempre temáticas oportunas quando se discute cultura e sociedade.

Na seara das artes, as manifestações inspiradas pelo universo cultural afro orientado, especialmente as que tem os negros como protagonistas, não se limitam ao espetáculo alegórico. Por menos que se perceba há sempre uma forte citação sobre os processos sociais/políticos, revelando e valorizando contextos específicos, expondo convicções ideológicas. Isso acaba diferenciando estas expressões, acentuando formas de comunicação criativas e bastante peculiares e não raro, se popularizam.

Na contemporaneidade, identificamos a tendência de que as matrizes culturais do Brasil sejam visitadas mais fluidamente, sem as ressalvas observadas em outros períodos geracionais. Isto vem proporcionando ampliação do desfrute das nuances culturais do povo brasileiro.

No universo da dança, do qual faço parte, está cada vez mais comum ver criadores e criadoras considerarem os legados culturais afrodescendentes e indígenas, mesmo que os processos educacionais estejam ainda fortemente ancorados na supervalorização de discursos canônicos eurocêntricos, sobretudo nos currículos universitários. Ainda não é fluido o estudo do conjunto de conceitos e práticas corporais que dialoguem com o exercício cultural e produção de arte nacional.

As discussões de identidade que permeiam todo o planeta estão cada vez mais conduzindo as gerações a buscar horizontalidade para ocupar seus espaços de pertencimento. Negritude, crioulização, afrodescendência, africanidade, afrocentrismo, quilombismo, ubuntuidade, pan-africanismo são conceitos formulados a partir dos efeitos do espalhamento da população africana pelo mundo e consequentemente pela formação das múltiplas identidades negras do planeta e traduzem ou influenciam diretamente as expressões culturais das nações diaspóricas e por refluxo, também de algumas nações africanas.   

O momento está difícil, no âmbito da cultura com o objetivo explícito de desvirtuar conquistas cidadãs obtidas, um desmonte estrutural acontece. Vai da extinção do Ministério da Cultura à nomeação para a Fundação Cultural Palmares, órgão estatal criado para cuidar das questões culturais negras, de um presidente que é de pele preta, porém racista e completamente desrespeitoso para com a história do povo negro no país. 

O contexto brasileiro relativiza realidades concentrando nas periferias, as classes sociais economicamente desprovidas situando dentre estes a “população negra”. Neste lugar, as pautas sociais são abordadas de maneira distinta pelo próprio poder público, que parcializa sua interferência, muitas vezes valorizando atitudes preconceituosas contidas em parte da sociedade.

Insegurança pública, dificuldade com transporte público, precariedade na saúde pública, precarização das condições dos contratos de trabalho, dificuldade de acesso à educação básica e pública, sistema carcerário, espaços públicos para manifestações culturais populares, violência feminina, genocídio de jovens, aborto, dentre outras mazelas sociais, são normalizados como assuntos sem solução, pois são inerentes aos pobres e aos pretos das periferias. 

Em função destes fatos é muito comum que os negros convictos de sua cultura e origem sejam incumbidos de buscar justificativas e evidências sobre os pontos de confluência dos traços da pluralidade identitária cultural do país. Mas, ser brasileiro é ser americano do Sul, afrodescendente, ameríndio, portanto, não podemos nunca esquecer que as questões dos negros, em países como o Brasil, são questões de toda a nação.

A arte sempre deverá significar um salvo conduto para todas as expressões da humanidade, livre de qualquer tratado étnico ou social, mas não se pode desconsiderar os aspectos culturais dos indivíduos para discorrer sobre a manifestação das suas expressões artísticas. Há uma dívida histórica com a população negra, e ela só será paga se as gentes do planeta se comprometerem com o propósito de mudar a ideia de exclusão agregada aos conceitos formulados sobre etnia. 

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Rui Moreira

Bailarino, coreógrafo e investigador de culturas



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