MURAL DA DANÇA

Dança, arte genealógica

Quinta, 19 de Novembro de 2020 | por Henrique Rochelle |

Quem foram os seus mestres? E quem foram os mestres deles? Dança tem história, tem passado, antepassados, e genealogia. Qual é a sua?

Estudando dança, é fácil reparar nas formas de transmissão e de aprendizado. A gente aprende com o outro, a partir do outro, integrando no nosso próprio corpo as experiências de tantos que vieram antes da gente. É uma questão genealógica, quase genética: a dança vai passando de uma pessoa pra outra, misturando referências passadas, às vezes ancestrais, e agregando coisa nova.

Dá pra traçar algumas árvores genealógicas bem famosas. Lucinda Childs e Yvonne Rainer, por exemplo, estudaram com Merce Cunningham, que estudou com Martha Graham, que estudou com Ruth St Denis e Ted Shawn, que traziam influências dos estudos das técnicas de Delsarte e de Dalcroze. Por um outro caminho dessa árvore, Dalcroze também foi professor Laban, que foi professor de Kurt Joss, que foi professor de Pina Bausch.

Na dança clássica, algumas linhagens retraçam caminhos antiquíssimos. George Balanchine foi aluno de Pavel Gerdt, que estudou com Jean Petipa (pai, e também professor, do Marius Petipa), que foi aluno de Eugène Hus, que estudou com Jean Dauberval, que estudou com Jean-Georges Noverre, que foi aluno de Louis Dupré, que estudou com Louis Pécourt, que por sua vez foi aluno de Pierre Beauchamps — o primeiro maître de ballet da Academia Real de Dança francesa, nos 1600.

Saber quem são nossos mestres é um passo fundamental. Mais importante ainda é conhecer a história e as histórias deles e delas. Esse tipo de conhecimento dá concretude para a pessoalidade da dança. Quem foram seus professores? Mas quem foram os professores dos seus professores? E como isso afeta e faz parte da sua concepção de dança?

Aqui no Brasil, Maria Olenewa mantinha as reverências em sala feitas para um retrato de Ana Pavlova. Um reconhecimento constante àqueles que vieram antes. Com Pavlova, Olenewa aprendeu técnica, estética, e pontos de vista, que também transmitiu a seus alunos. É um tanto de genealogia: a gente se faz a partir de informação e conteúdo que vêm de antes de nós, agregados a tantas outras experiências que acumulamos, transformamos, ressignificamos, e ai passamos adiante.

Por sorte, mesmo quando alguém começa a dançar, não se começa sozinho, não se começa do nada. A dança tá ai, em tantos caminhos, há tanto tempo, que a gente chega se inserindo, pendurado num galho, numa fruta, numa flor, de uma árvore genealógica.

A gente pula de galhos, descobre outras várias formas de fazer, e vai criando redes, teias de conhecimentos e de saberes. As teias são nossas, mas esses galhos e essas árvores são mais antigos, são ancestrais. Aos que vieram antes, plantaram sementes, criaram raízes e sustentaram seus galhos pelas tempestades e pelo tempo, nosso reconhecimento, carinho e admiração.


* Henrique Rochelle é crítico de dança, membro da APCA, doutor em Artes da Cena, e Professor Colaborador da ECA/USP. Editor dos sites da Quarta Parede, e Criticatividade.

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Henrique Rochelle

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