A dança brasileira se une em luto à coreógrafa Deborah Colker, que perdeu seu neto, Theo Colker, aos 14 anos. O jovem enfrentava a epidermólise bolhosa, uma doença genética rara que provoca extrema fragilidade da pele, causando feridas e lesões ao menor atrito.
A morte foi confirmada no dia 16 de março de 2026 e gerou comoção nas redes sociais. Em homenagem, a companhia da coreógrafa publicou uma mensagem emocionada, referindo-se a Theo como “nosso guerreiro, nosso herói”.
Mais do que parte da vida pessoal de Colker, Theo também marcou profundamente sua trajetória artística. Sua história foi uma das principais inspirações para o espetáculo Cura (2021), uma das obras mais íntimas da coreógrafa.

Espetáculo Cura. Foto: Leo Aversa.
A criação do trabalho nasce de uma busca íntima e profunda da artista, atravessada pela convivência com a doença e pela necessidade de elaborar, em cena, aquilo que escapa à lógica da resolução:
“Comecei a perceber que precisava encontrar a cura. A cura do que não tem cura. Eu já sabia que precisava fazer uma ponte entre a fé e a ciência. Entre aceitar e lutar, entre calar e gritar, entre esperar e agir.
No início de 2018, Stephen Hawking morreu, e então entendi o que era a cura do que não tem cura. Hawking sofria de ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica), doença extremamente cruel. Quando diagnosticado, os médicos deram a ele mais três anos de vida. Ele viveu mais cinquenta, criativos.
Passei a procurar histórias antigas. Nilton Bonder, como bom rabino, é um ótimo contador de histórias. Lemos muitas lindas. Mas acabei me fascinando por uma contada pelo coreógrafo baiano Zebrinha. É a história de Obaluaê, orixá da doença e da cura, da rejeição e da adoção.
As feridas se transformando em pipoca é lindo demais.
Cura não é sobre o Theo, mas sobre o que o nascimento do Theo causou em mim.
Eu precisava terminar o espetáculo com o meu antídoto à crueldade: nunca perder a alegria. E agradecer por poder fazer parte dessa grande festa.”
Em Cura, Deborah Colker atravessa questões como ciência, fé, dor e superação, construindo uma reflexão sensível sobre aquilo que não pode ser resolvido no campo físico. A obra se configura como uma investigação poética sobre o que significa “curar”, mesmo quando a cura não é possível.
Neste momento de despedida, Cura permanece como testemunho artístico dessa relação, um gesto de amor que atravessa o palco e agora ganha novos significados diante da perda.
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