Acervo Mercedes Baptista no Portal MUD. Disponibilizado pelo Museu Histórico de Campos dos Goytacazes.
A trajetória da bailarina e coreógrafa Mercedes Baptista no G R E S Acadêmicos do Salgueiro redefiniu a linguagem do Carnaval carioca ao inserir de forma sistemática a dança cênica afro-brasileira e a teatralidade na avenida. A reconstrução desse processo está documentada no livro “Mercedes Baptista: A criação da identidade negra na dança”, de Paulo Melgaço da Silva Júnior.
Em 1960, Fernando Pamplona foi convidado pelo então presidente do G R E S Acadêmicos do Salgueiro, Nelson Andrade, a assumir a direção artística da escola. Ao lado de Arlindo Rodrigues, Nilton Sá, Dirceu Neri e Mary Louise Néri, ele levou para a avenida o histórico enredo “O Quilombo dos Palmares”, exaltando a resistência negra. Foi nesse contexto que Mercedes Baptista foi convidada para integrar o Salgueiro.
Sua estreia foi decisiva. Os bailarinos, adornados com colares africanos e acompanhados por atabaques, desfilaram atrás da porta-bandeira, distribuindo colares ao público, à imprensa e aos jurados. O impacto foi imediato, e o Salgueiro conquistou o título daquele ano, projetando Mercedes como uma das figuras centrais da nova estética que estava se formando no Carnaval.
A consagração, porém, foi seguida de conflito. Em 1963, com o enredo “Xica da Silva”, Mercedes foi encarregada de criar uma ala coreografada com 12 casais dançando um minueto em ritmo de samba, representando os bailes da corte. O Salgueiro venceu o Carnaval, mas a coreografia dividiu a opinião pública.
Parte da crítica passou a acusar a coreógrafa de “descaracterizar” o samba ao introduzir passos marcados e referências da dança aristocrática. Outra parte do público e da imprensa, no entanto, viu na experiência um avanço artístico que elevava o Carnaval a um novo patamar de elaboração estética e narrativa.
O debate se intensificou em 1964, no enredo ‘Chico-rei’. Mercedes foi novamente convocada a criar cenas coreografadas, incluindo o momento em que bailarinas, representando mulheres escravizadas, retiravam ouro escondido nos cabelos. O que se conta é que a exigência de marcações precisas comprometeu o canto e a espontaneidade do desfile. O Salgueiro terminou em segundo lugar, atrás da Portela, e a imprensa responsabilizou a Mercedes Baptista pelo resultado.
Na época, porém, o próprio carnavalesco Arlindo Rodrigues reconheceu que a decisão de teatralizar o desfile havia sido sua. Ainda assim, a narrativa pública consolidou Mercedes como símbolo das transformações que parte das pessoas via como ameaça.
Pesquisas posteriores e depoimentos dos próprios carnavalescos demonstram, entretanto, que Mercedes não foi a criadora dos chamados “passos marcados”. Segundo Fernando Pamplona, essa prática já existia antes de sua chegada ao Salgueiro. No Império Serrano, o grupo de bailarinos dirigido por Arandir Cardoso dos Santos (Careca), já desfilava com coreografias estruturadas, enquanto a Mangueira utilizava marcações coletivas muito antes da atuação de Mercedes. A coreógrafa Helba Nogueira também identificava, ainda na década de 1960, a marcação do conga como uma forma de passo coreografado dentro do samba.
Para Pamplona, a responsabilização recaiu sobre Mercedes porque ela era uma artista já reconhecida nacionalmente. Assim, acabou se tornando o rosto visível de uma transformação coletiva e anterior. Enquanto outros coreógrafos realizavam experiências semelhantes sem grande resistência, Mercedes foi submetida a um julgamento estético mais duro, atravessado por questões de raça, gênero e pertencimento ao universo do samba.
Esse tratamento desigual ficou ainda mais evidente quando, no mesmo período, coreógrafos estrangeiros foram convidados a atuar no Carnaval sem sofrer o mesmo nível de rejeição. A própria Mercedes apontaria essa contradição ao afirmar que, enquanto ela, mulher negra brasileira, era acusada de “levar balé para o samba”, artistas europeus e norte-americanos eram celebrados ao realizar experiências semelhantes.
Apesar das controvérsias, Mercedes voltou a colaborar com o Salgueiro em 1969, no enredo “Bahia de Todos os Deuses”, quando coreografou uma ala inspirada em uma cerimônia de candomblé, com orixás, atabaques e gestualidades afro-brasileiras. O resultado foi mais um título para a escola, confirmando a força estética de sua proposta.
A trajetória de Mercedes Baptista no Carnaval, marcada por vitórias e disputas simbólicas, consolidou sua posição como uma das principais responsáveis por inserir a dança afro-brasileira cênica e a teatralidade no coração do espetáculo carnavalesco brasileiro.
Fonte: Livro “Mercedes Baptista: A criação da identidade negra na dança”, de Paulo Melgaço da Silva Júnior.
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