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Suspensão dos pagamentos entre setembro e dezembro de 2026 afeta nove bailarinos; artistas denunciam precarização do trabalho e cobram respostas sobre o futuro do projeto, reconhecido como patrimônio cultural do município.
A Prefeitura de Taubaté, no interior de São Paulo, suspendeu o pagamento das bolsas dos nove integrantes do Balé da Cidade entre setembro e dezembro de 2026, sob a justificativa de falta de disponibilidade orçamentária e financeira. A decisão, anunciada pela Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa, compromete a continuidade das atividades da companhia, que completou 20 anos em maio e é reconhecida por lei como patrimônio cultural do município.
Em comunicado assinado por Mario Carneiro, secretário interino da pasta, a administração municipal atribuiu a medida às ações de contenção de despesas para o encerramento do exercício financeiro. O documento informa que a concessão das bolsas ficará temporariamente suspensa durante os quatro meses finais do período indicado, sem apresentar, no texto divulgado, uma previsão de retomada dos pagamentos.
A interrupção afeta diretamente os bailarinos, que recebem R$ 1.500 mensais e dependem dessa remuneração para custear suas despesas. Além do impacto financeiro sobre os profissionais, a suspensão ameaça a realização de espetáculos e outras atividades da companhia. Até a publicação da reportagem original, não havia esclarecimentos oficiais sobre a continuidade do projeto nos meses seguintes.
Bailarinos denunciam precarização e insegurança financeira
A jornalista e bailarina Victória Rangel, de 29 anos,, integrante do Balé da Cidade há dois anos, classificou a decisão como um desrespeito aos profissionais da dança. Para ela, a interrupção agrava uma situação de precariedade já existente, considerando o valor da bolsa e a dependência dos artistas em relação ao pagamento.
“Isso é um descaso com a nossa profissão de artistas, com a gente que trabalha lá ativamente, que já recebe uma bolsa irrisória”, afirmou Victória ao Metrópoles. A bailarina também criticou a organização administrativa da Prefeitura, apontando os efeitos da decisão sobre trabalhadores que contavam com a remuneração para manter suas condições de vida.
Segundo a artista, a suspensão compromete o planejamento financeiro dos integrantes da companhia, que não sabem como arcarão com as despesas pessoais nos próximos meses. Ela relatou que alguns bailarinos vieram de outras cidades para integrar o grupo e precisaram deixar Taubaté por não conseguirem se sustentar após perderem a renda prevista.
Victória também manifestou preocupação com os professores e demais profissionais envolvidos no projeto. Ao comentar a situação, reconheceu que os gestores da companhia enfrentam limitações que não necessariamente estão sob seu controle, mas lamentou os efeitos da decisão sobre toda a equipe.
Companhia já enfrentou interrupção de atividades
A suspensão das bolsas não é um episódio isolado na gestão de projetos culturais do município. De acordo com o Metrópoles, uma medida semelhante foi adotada no ano anterior, quando as bolsas e os espetáculos do teatro do Sítio do Pica-Pau Amarelo foram interrompidos durante três meses, também sob a justificativa de falta de orçamento.
Naquela ocasião, servidores municipais precisaram substituir os bolsistas para que a programação prevista fosse cumprida. O precedente amplia as preocupações em torno da estabilidade das políticas culturais de Taubaté, especialmente no que diz respeito à manutenção de equipes artísticas e à previsibilidade dos recursos necessários para executar as atividades.
No caso do Balé da Cidade, a interrupção ocorre em um momento simbólico para a companhia, que chegou a duas décadas de existência em 2026. Ainda não havia, segundo os relatos apresentados na reportagem, informações conclusivas sobre como a suspensão afetaria o calendário de apresentações ou sobre quais medidas poderiam garantir a continuidade do grupo.
Balé da Cidade é patrimônio cultural desde 2014
Criado em maio de 2006, o Balé da Cidade de Taubaté foi incorporado à Lei Orgânica do município em 2014, quando passou a ser reconhecido como patrimônio cultural local. No ano seguinte, uma lei municipal instituiu a Bolsa Balé da Cidade, benefício destinado ao aprimoramento profissional dos integrantes e à realização de apresentações artísticas.
O valor mensal previsto na legislação é de R$ 1.500, quantia que, segundo a reportagem, não foi atualizada desde a criação do benefício, em 2015. A bolsa constitui um mecanismo de apoio à formação e à atuação dos bailarinos, vinculando o investimento público à manutenção das atividades da companhia.
Para Rafael Soares, servidor municipal que integra a equipe do Balé da Cidade, o projeto ocupa uma posição estratégica no cenário artístico regional. Ele destacou que a companhia é o único corpo artístico profissional do município voltado à criação de oportunidades de trabalho na dança profissional e uma das principais políticas públicas locais destinadas ao setor.
Rafael também ressaltou a importância do grupo como espaço de formação e acolhimento para artistas que passaram pela companhia ao longo dos anos. Além da produção de espetáculos, o Balé da Cidade contribuiu para o desenvolvimento profissional de bailarinos e para a consolidação da dança como campo de trabalho em Taubaté.
A principal preocupação do servidor, no entanto, é a falta de informações sobre a permanência do projeto. “A gente não tem nenhuma informação sobre continuidade. Qual é a previsão de continuidade do balé para o ano que vem?”, questionou ao Metrópoles.
Prefeitura não respondeu aos questionamentos
A administração municipal é comandada pelo prefeito Sérgio Victor, do partido Novo. A Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa está sob responsabilidade da atriz e dançarina Aline Damásio, que se encontrava temporariamente afastada em licença-maternidade no período mencionado pela reportagem. Durante sua ausência, o comunicado sobre a suspensão das bolsas foi assinado pelo secretário interino Mario Carneiro.
O Metrópoles informou ter procurado a Prefeitura de Taubaté para obter um posicionamento sobre a interrupção dos pagamentos e os impactos da medida, mas não recebeu resposta até a publicação da matéria. Dessa forma, permaneciam sem esclarecimento oficial os questionamentos sobre a previsão de retomada das bolsas, a manutenção das atividades artísticas e a continuidade da companhia em 2027.
Enquanto os bailarinos enfrentam a perda temporária de renda, permanece em aberto como a administração pretende conciliar as medidas de contenção de despesas com a preservação de uma estrutura artística que, há duas décadas, oferece oportunidades de trabalho e formação em dança.
Fonte: Milena Vogado, Metrópoles, reportagem publicada em 30 de setembro de 2026, atualizada às 14h59. Título original: “Taubaté interrompe financiamento de balé da cidade por ‘falta de orçamento’”.
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