TAANTEATRO COMPANHIA CONQUISTA PRÊMIO INTERNACIONAL NA ITÁLIA POR ESPETÁCULO INSPIRADO NO ESCULTOR MOÇAMBICANO ALBERTO CHISSANO

Acervo Taanteatro

CHISSANO: Rito para Mabungulane recebe o Prêmio Especial pela Preservação do Patrimônio Cultural da Humanidade na 17ª edição do Premio Internazionale “Il Teatro Nudo” di Teresa Pomodoro. Cerimônia de premiação acontece em 5 de novembro, em Milão, com transmissão mundial pela internet.

A Taanteatro Companhia, sediada em São Paulo, Brasil, conquistou um importante reconhecimento internacional: o Prêmio Especial pela Preservação do Patrimônio Cultural da Humanidade, concedido pelo júri da 17ª edição do Premio Internazionale “Il Teatro Nudo” di Teresa Pomodoro, pelo espetáculo CHISSANO: Rito para Mabungulane.

A distinção reconhece uma criação artística que transforma dança, escultura, ancestralidade e memória histórica em uma experiência cênica contemporânea. Inspirado na vida e na obra de Alberto Mabungulane Chissano (1935–1994), um dos mais importantes escultores da história de Moçambique, o espetáculo estabelece uma ponte entre a herança cultural africana e a pesquisa artística contemporânea, fazendo da memória não apenas um objeto de preservação, mas uma força viva de criação e transformação.

A cerimônia oficial de premiação será realizada na quinta-feira, 5 de novembro de 2026, das 21h às 22h30 (horário italiano), no Spazio Teatro No’hma, em Milão, com transmissão simultânea pelo canal oficial do teatro no YouTube. A transmissão permitirá que espectadores de diferentes países acompanhem a celebração, incluindo o público brasileiro e moçambicano. Transmissão ao vivo: www.youtube.com/@SPAZIOTEATRONOHMA

UM PRÊMIO DE DIMENSÃO INTERNACIONAL

Promovido e patrocinado conjuntamente pelo Spazio Teatro NO’HMA e pela Prefeitura de Milão, o Premio Internazionale “Il Teatro Nudo” di Teresa Pomodoro conta com o Alto Patrocínio do Presidente da República Italiana (Alto Patronato del Presidente della Repubblica) e o apoio do Ministério das Relações Exteriores e da Cooperação Internacional da Itália.

Nesta 17ª edição, 14 espetáculos de diferentes países foram selecionados para integrar a programação internacional.

A avaliação dos trabalhos é realizada por duas instâncias: um Júri Internacional de Especialistas e um Júri de Espectadores. O primeiro reúne entre nove e onze personalidades de destaque das artes, da cultura e do teatro internacional, sob a presidência de Livia Pomodoro, presidente e diretora artística do Spazio Teatro No’hma.

Entre os nomes que compõem o corpo internacional de especialistas estão importantes diretores, atores e dirigentes de instituições teatrais, como Lev Abramovič Dodin (Rússia), Fadhel Jaïbi (Tunísia), Oskaras Koršunovas (Lituânia), Lim Soon Heng (Malásia), Stathis Livathinos (Grécia), Muriel Mayette-Holtz (França), Lluís Pasqual (Espanha), Tadashi Suzuki (Japão), Gábor Tompa (Romênia) e Toni Servillo (Itália).

A presença de artistas e dirigentes de diferentes tradições teatrais confere ao prêmio uma perspectiva efetivamente internacional, na qual diferentes linguagens, culturas e experiências cênicas são colocadas em diálogo.

MILÃO E MAPUTO: UMA PONTE ENTRE CULTURAS

A Taanteatro Companhia apresentou CHISSANO: Rito para Mabungulane nos dias 28 e 29 de janeiro de 2026, no Spazio Teatro No’hma, em Milão. As apresentações contaram com a presença de autoridades e representantes dos meios culturais, artísticos, acadêmicos e diplomáticos da Itália e de Moçambique.

Entre os convidados estavam, pela Itália: Livia Pomodoro, presidente do Teatro No’hma; Dr. Alberto Meomartini, da Associação África, Arte, Cultura e Beleza; o escultor Gaetano Grillo; e o crítico de arte Luigi Marsiglia.

De Moçambique, participaram Ivan Laranjeira, diretor do Museu Malfalala de Maputo; Dr. José Júlio Júnior Guambe, diretor da Faculdade de Ciências da Terra e do Meio Ambiente da Universidade Pedagógica de Maputo; Pedro Chissano, representante do Museu-Galeria Alberto Chissano; e Dr. Gabriele Annis, embaixador da Itália em Moçambique.

Um aspecto especialmente significativo da participação da Taanteatro foi a transmissão simultânea das apresentações de Milão para o Museu-Galeria Alberto Chissano, em Moçambique. O público moçambicano pôde acompanhar, em tempo real, a homenagem coreográfica ao artista cuja vida e obra constituem o ponto de partida da criação.

Esse encontro entre Milão e Maputo conferiu à apresentação uma dimensão que ultrapassou os limites do acontecimento teatral. A obra de Chissano, reinterpretada por artistas de diferentes origens, retornou simbolicamente ao seu território de origem, compartilhada com o público e com a instituição dedicada à preservação de seu legado.

UMA ÁRVORE, DOIS CORPOS: O ESCULTOR E O CURANDEIRO

Na interseção entre dança e escultura, CHISSANO: Rito para Mabungulane é um solo coreográfico concebido por Wolfgang Pannek e Mabalane Jorge Ndlozy. A obra investiga duas dimensões interligadas da trajetória de Alberto Chissano: o escultor, que extrai da madeira formas capazes de expressar a experiência histórica de seu povo, e o curandeiro, vinculado aos saberes ancestrais e às forças simbólicas da natureza.

A árvore constitui o eixo poético e dramatúrgico dessa criação. Não é apenas matéria-prima da escultura de Chissano: é também uma presença simbólica que atravessa sua vida e sua morte. O artista foi sepultado sentado ao pé de uma árvore, imagem que inspira a transfiguração cênica entre corpo humano e corpo vegetal. Na performance, árvore, escultor e dançarino formam uma unidade em permanente metamorfose.

A coreografia evoca motivos recorrentes na obra de Chissano, como os grupos de corpos interconectados, inspirados na tradição escultórica Makonde, e as representações de um Cristo negro crucificado, cujo próprio corpo se transforma em cruz. Essas imagens abrem um campo de tensão entre tradições nativas e coloniais, crenças e línguas, sofrimento e resistência, memória e reinvenção.

A obra de Alberto Chissano desenvolveu-se em um dos períodos mais turbulentos da história moçambicana: a Guerra de Independência (1964–1974) e a Guerra Civil (1975–1992). Suas esculturas em madeira testemunham as lutas, as contradições, as dores e a vitalidade de seu povo. A dimensão política e simbólica de sua produção alcançou reconhecimento nacional, inclusive por meio de sua representação nas notas bancárias de Moçambique.

Ao homenagear Chissano, a Taanteatro não propõe uma reconstituição biográfica ou uma ilustração de suas esculturas. Busca, antes, colocar seu legado em movimento, fazendo do corpo do dançarino um território de ressonância e transformação da memória cultural moçambicana.

ALBERTO CHISSANO: DA EXPERIÊNCIA COLONIAL À UNIVERSALIDADE DA ESCULTURA

Nascido em 1935, na província de Gaza, Alberto Mabungulane Chissano passou a infância como pastor de cabras. Sua prática da ngalanga, dança tradicional chopi do sul de Moçambique, levou à sua expulsão de uma escola missionária. Orientado pela avó materna, aproximou-se dos ritos tradicionais e das práticas curandeiras.

Aos doze anos, mudou-se para Lourenço Marques, atual Maputo, onde trabalhou como empregado doméstico. Aos dezoito, seguiu para as minas de ouro da África do Sul. Em 1956, retornou a Moçambique para cumprir o serviço militar obrigatório nas forças armadas coloniais portuguesas.

Sua trajetória artística começou a tomar forma a partir de trabalhos na Associação Núcleo de Arte e, posteriormente, no Museu Álvaro de Castro, onde estudou taxidermia e escultura.

Realizou sua primeira exposição em Maputo em 1964. Nas décadas seguintes, consolidou uma carreira de reconhecimento nacional e internacional. Em 1982, recebeu a Medalha Nachingwea por mérito extraordinário. Ao lado do pintor Malangatana Ngwenya, é considerado um dos artistas mais influentes de Moçambique. Uma parte representativa de sua produção está preservada no Museu-Galeria Alberto Chissano.

UMA CRIAÇÃO DE COLABORAÇÃO INTERNACIONAL

O espetáculo reúne artistas de diferentes origens e trajetórias em uma colaboração que atravessa fronteiras geográficas e disciplinares.

Mabalane Jorge Ndlozy, dançarino e coreógrafo moçambicano, possui formação em dança tradicional e contemporânea. Estudou com artistas internacionais como Mxolisi George Khumalo, Thomas Hauert, David Zambrano, Francisco Camacho, Luis Filipe e Maura Baiocchi, complementando sua formação com residências na academia P.A.R.T.S., na Bélgica, e no Mark Theater, na África do Sul. Foi integrante da Companhia Municipal de Canto e Dança de Matola durante 14 anos e participou de festivais em diversos países. Como integrante da Taanteatro Companhia, desenvolveu uma trajetória artística internacional. Em 2026, recebeu o Prêmio Denilto Gomes, em sua XIII edição, na categoria Artista e Intérprete da Dança.

Wolfgang Pannek, autor, ator e diretor teatral e cinematográfico alemão radicado no Brasil desde 1992, é diretor da Taanteatro Companhia ao lado de Maura Baiocchi. Mestre em Filosofia, Letras e Psicologia pela FernUniversität Hagen, desenvolve pesquisas e criações que articulam artes cênicas, filosofia, literatura, cinema e ecologia. Entre seus trabalhos de direção destacam-se cARTAUDgrafia (2015), 1001 Platôs (2017) e Da Violência: Fanon (2025). É também codiretor do CineFestival Internacional de Ecoperformance.

Mônica Bernardes, atriz, dançarina, designer de iluminação e produtora brasileira, assina a iluminação de CHISSANO: Rito para Mabungulane. Integrante da Taanteatro desde 2014, desenvolve trabalhos nas áreas da dança, do teatro e da produção cultural, além de atuar como diretora executiva do Festival Internacional de Cinema Ecoperformance.

DA ESTREIA EM SÃO PAULO AO RECONHECIMENTO INTERNACIONAL

Estreado em 2022 no Complexo Cultural Funarte São Paulo, CHISSANO: Rito para Mabungulane integrou a programação de diferentes mostras e festivais de dança e artes cênicas no Brasil.

Entre suas apresentações estão as realizadas na SP Escola de Teatro, na la mínima galeria, no Complexo Cultural Funarte São Paulo, no FUGA UFG, em Goiânia, no Festival Internacional de Araraquara, na IX Mostra de Intérpretes-Criadores e no Centro de Referência da Dança da Cidade de São Paulo, onde foi apresentado por ocasião do Dia Nacional da Consciência Negra.

A participação no Spazio Teatro No’hma representa um novo capítulo dessa trajetória e amplia a circulação internacional de uma obra que aproxima a pesquisa coreográfica brasileira da memória artística e cultural de Moçambique.

TAANTEATRO: ARTE COMO TRAVESSIA ENTRE CULTURAS

Fundada em 1991, em São Paulo, pela coreógrafa brasileira Maura Baiocchi, a Taanteatro Companhia desenvolve uma pesquisa artística própria, o teatro coreográfico de tensões (taanteatro), que articula dança, teatro, filosofia, literatura, ecologia e artes visuais e audiovisuais.

Ao longo de mais de três décadas, a companhia criou espetáculos, performances, filmes e projetos interdisciplinares no Brasil e no exterior, explorando a vida e a obra de artistas, poetas e pensadores como Frida Kahlo, Fernando Pessoa, Antonin Artaud, Friedrich Nietzsche, Comte de Lautréamont, Samuel Beckett, Hölderlin, Alberto Chissano, Gilles Deleuze, Félix Guattari e Frantz Fanon.

Desde 2021, realiza o CineFestival Internacional de Ecoperformance.

Com artistas do Brasil, da Alemanha, de Moçambique e da Argentina, a Taanteatro mantém uma prática de criação que atravessa fronteiras culturais e estéticas, investigando as relações entre corpo, memória, ambiente e transformação.

O Prêmio Especial pela Preservação do Patrimônio Cultural da Humanidade reconhece, assim, não apenas uma realização cênica, mas a potência de uma prática artística que mantém o patrimônio cultural em movimento: não como vestígio imóvel do passado, mas como experiência capaz de atravessar corpos, gerações e geografias.

CHISSANO: Rito para Mabungulane — quando a árvore se transforma em corpo, e o corpo se torna memória.

 

CERIMÔNIA INTERNACIONAL DE PREMIAÇÃO

17ª edição do Premio Internazionale “Il Teatro Nudo” di Teresa Pomodoro

• Data: 5 de novembro de 2026 (quinta-feira)
• Horário: 21h às 22h30 (horário italiano)
• Local: Spazio Teatro No’hma, Milão, Itália
• Transmissão ao vivo:www.youtube.com/@SPAZIOTEATRONOHMA

 

FICHA TÉCNICA

CHISSANO: Rito para Mabungulane

• Concepção: Wolfgang Pannek e Jorge Ndlozy
• Direção, cenografia e trilha sonora: Wolfgang Pannek
• Dança: Mabalane Jorge Ndlozy
• Iluminação: Mônica Cristina Bernardes
• Realização: Taanteatro Companhia
• Estreia: 2022, Complexo Cultural Funarte São Paulo
• Apresentações no Spazio Teatro No’hma, Milão: 28 e 29 de janeiro de 2026
• Premiação: Prêmio Especial pela Preservação do Patrimônio Cultural da Humanidade — 17ª edição do Premio Internazionale “Il Teatro Nudo” di Teresa Pomodoro
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