Foto: @brunnomartins
UM CAUSO:
Às 19h do dia 13 de maio de 2026, na Galeria Laboratório do Departamento de Artes da UFRN, ocorreu a última apresentação da temporada de estreia do mais novo solo de Alexandre Américo: PAPANGÚ.
Nesta noite, a democracia estremeceu mais uma vez.
Em busca de mais uma cortina de fumaça, a ultradireita encontra o alvo perfeito: caça e censura o artista e sua obra. Um corpo negro que dança despido de vestes convencionais, inteiramente pintado, parece ameaçar a branca estrutura do mundo.
O QUE PODERIA TER ACONTECIDO?
Se esta dança não acontecesse, se ela recuasse, a historiografia da dança continuaria sua escrita oficial: héterobrancocorponormativa.
Com isso, o esperançar de outros modos de ser e estar em dança perderia a vitalidade necessária à continuidade de suas vidas.
Sim, estamos falando de vidas.
O QUE ACONTECEU?
Quando as ameaças tornaram-se públicas e os ataques à dança avançaram em direção à Universidade Pública Brasileira, o povo acordou.
Estudantes, professores e a comunidade da dança potiguar ergueram-se, em barricada, para que este ato artístico pudesse acontecer.
Um solo se torna multidão e a dança revela o seu poder de instauração político-estética de uma ética do vivo.
PAPANGÚ (2026)

Foto: @brunnomartins
Peça em formato de aparição teatral, pretende dar continuidade ao movimento ancestral e ritualístico da vestimenta de máscaras comum às manifestações culturais da terra que emergem constantemente em todo planeta, desde os egunguns ao movimento manguebeat, às máscaras da BaianaSystem.
Esta peça/aparição continua a reelaborar a morte no intuito de gestar algum tipo de axé (força vital), que nos ajude a atravessar o tempo em comunidade.
A busca por vestir o ancestral, carne da terra, e despossuir-se de sua própria noção de indivíduo apartado do mundo parece inclinar Américo a estas danças menores, as danças que deram a volta ao mundo, fazendo-o girar com frequência.
UM MANIFESTO VIVO À COMUNIDADE DA DANÇA
Nenhum corpo deve ser atacado.
Nenhuma dança deve temer por sua existência.
Nenhuma política deve ser apartada da vida.
Nenhum espaço de educação emancipatória deve recuar.
Nenhum lugar que celebre a crítica deve curvar-se ao silêncio.
Que educação defendemos?
A Universidade Pública Brasileira deve continuar a ser um espaço seguro ao exercício da liberdade, deve continuar a ser um espaço potencial à constante reinvenção de um mundo menos desigual para que nos lembremos, constantemente, que:
A DIFERENÇA É O CORAÇÃO DAS COISAS!
Mais sobre
Negro, caiçara, neurodivergente e LGBT+, Alexandre Américo é artista e pesquisador da dança.
Pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (BR) é Doutorando em Educação (PPGED), Mestre em Artes Cênicas (PPGARC) e Licenciado em Dança.
Numa perspectiva racializada e acessível, atua na área da investigação em Arte Contemporânea com enfoque na “diferença” a partir de pesquisas performativas, improvisação e seus desdobramentos dramatúrgicos contra-coloniais.
Entre 2018 e 2023, foi Direção Artística da Cia Giradança, Natal-RN.
Para além de seu envolvimento com as teorias psicanalíticas, implica-se nos estudos da Cripstemologia (teoria aleijada) junto a artistas DEFs da periferia de Natal-RN, fundando a TORTA plataforma de arte expandida.
Também colabora, desde a produção de textualidades críticas, com o PORTAL MUD (SP) e FAROFA CRÍTICA (RN).
SINOPSE
A carne quica e o corpo inteiro delira, escorre.
Na ausência de escape o líquido perfura e se acomoda nos buracos e frestas do chão.
PAPANGÚ, o corpo-bomba, é composto de fragmentos guiados pelo desejo de mudança:
eu quero, eu quero, eu quero!
E num gesto mágico, a criatura faminta mastiga com o cú, com os olhos, com o suor, com as bocas a anatomia da cor que se agarra ao solo.
“A fome deveria ser o tema do universo” (Hijikata Tatsumi)
Duração: 45min
Classificação Indicativa: 18 anos (nudez)
Ficha técnica
Conceito: Alexandre Américo e Pedro Vitor | Coreografia e performance: Alexandre Américo | Direção artística: Pedro Vitor | Direção coreográfica: Laura Samy | Assistência: Santelmo Dias | Interlocução cênica: Ana Cláudia Viana, Cícero Mendes, Iara Isidoro | Pintura corporal: Caroline Santos | Adereçagem: Mateus Barros | Design e cenografia: Maria Antônia | Iluminação: Cléo Morais | Pesquisa sonora: Tinoc | Fotografias: Brunno Martins | Filmagem: Zuma | Produção: Celso Filho (Listo Produções) e Corpo Rastreado | Colaboração: Itaciara Costa | Assessoria de imprensa: Carol Reis
Alexandre Américo