INTOLERÂNCIA 2026: Resposta à entrevista de Edilson Ventureli, diretor-executivo do Instituto Baccarelli

Ópera Intolleranza 1960, de Luigi Nono, em sua primeira montagem latino-americana realizada no Theatro Municipal de São Paulo, em maio e junho de 2026. Foto: Rafael Salvador.

É de uma grande força simbólica a temporada da ópera Intolleranza 1960 do compositor italiano Luigi Nono dirigida por Nuno Ramos e Paulo Climachauska no Theatro Municipal de São Paulo, justamente durante a transição de gestão deste importantíssimo teatro público da cidade de São Paulo e de seus corpos artísticos. Transição esta tão cercada de indícios de fraude, ações autoritárias por parte da nova OS Baccarelli, além de uma forte suspeita de ligação com movimentos da extrema direita bolsonarista.

Intolleranza de Luigi Nono é um grito antifascista, contra a intolerância, o preconceito, a tortura e a opressão. Uma denúncia da violência do estado exercida sobre corpos de migrantes e trabalhadores. Escrita e composta após as experiências traumáticas da Segunda Guerra Mundial – bombas nucleares, campos de concentração, fascismos –, a “ação cênica” culmina em um desastre total, seguido por um poema de Brecht q soa como um apelo às gerações vindouras pós-desastre. Na sua estreia em 61, um grupo neo-fascista invadiu o teatro durante a cena da tortura gritando “viva la polizia”.

Apesar de não ter tido nenhum episódio de invasão do teatro durante a temporada de Intolleranza no Municipal em São Paulo, há grupos bolsonaristas rondando a instituição desde q se começou a mover minimamente as estruturas bastante enrijecidas deste complexo cultural q carrega em si, uma história de exclusão, apagamento e imposição de uma única ideia eurocentrada de arte e cultura.

Exatamente no momento em q, durante a gestão da OS Sustenidos, se começa um importante trabalho de democratização real do Theatro Municipal, fazendo uma necessária revisão de sua história de violência colonial, enfrentando seus fantasmas, grupos q se dizem sem ideologia, surgem, para defender com unhas e dentes, justamente, o edifício ideológico q sustenta o Theatro como um espaço elitista e excludente. E para coroar este movimento, o Instituto Baccarelli, surge, como seu novo gestor. Em entrevista recente para a Revista CONCERTO, Edilson Ventureli, diretor-executivo do Instituto, afirmou: “a turma da direita talvez hoje fique mais feliz com o fato de a gente estar na gestão. Mas não é porque nós somos da direita, é porque nós não temos uma ideologia.”

Dizer-se sem ideologia de forma acrítica diante das intolerâncias, é um atestado de q se está em acordo com o intolerável. Não tem nada mais ideológico do q se dizer sem ideologia enquanto se fecha os olhos para as violências instituídas contra determinados grupos sociais.

Há um profundo equívoco q sustenta a convicção desses q se dizem sem ideologia e atacam frontalmente a gestão da Sustenidos como se ideologizante fosse, de q, se se critica a ideologia liberal hegemônica, se está automaticamente aderindo integralmente a qualquer ideologia do espectro político q se convencionou chamar de esquerda. Quando em verdade, não se fez muito mais q apresentar uma revisão crítica sobre a arte, o fazer artístico, suas manifestações culturais e abrir o Theatro para outras perspectivas artísticas e culturais.

Em entrevista recente para o jornal Folha de São Paulo, Ventureli, confirma seu viés ideológico de forma obscena. Ele diz que irá procurar outras formas de dialogar com pessoas gays, negras e indígenas. “Penso que o melhor que a gente pode fazer por essa turma toda não é colocá-la no palco”, afirma o maestro. “Você pode abrir espaço para eles dentro da própria plateia.”.

É de um desdém atroz o modo como se refere a grupos q são alvo, dia após dia, de uma desmedida violência: “essa turma toda”. E repete o gesto de violência colonial q se desdobra hoje no liberalismo, excluindo “essa turma toda” das instâncias de poder. Sim, o palco é uma instância de poder, mais ainda o palco do Theatro Municipal. Incluindo “essa turma toda” na plateia para excluir do palco. Incluir para excluir, gesto tão característico dos estados de exceção, e pior, de quando a exceção, a suspensão das leis para alguns, se torna a regra – como elaborou décadas atrás, de forma quase premonitória, o filósofo italiano Giorgio Agamben – q caracterizam a forma de agir das democracias liberais para com “essa turma toda”.

Podemos entender, então, a partir da sua fala, q “essa turma toda” não produz arte, ou se produz, é uma arte menor, q não tem por que estar no palco do Municipal. Este mesmo raciocínio aparece na própria proposta de gestão do Instituto Baccarelli para o TMSP ao se excluir a dança contemporânea dita “alternativa” e “performática” do palco do Theatro.

E continua: “Uma coisa é clara: nenhum espetáculo vai ter ideologia política, nem para um lado, nem para o outro”. “Nós não temos a intenção de ter nada político ou identitário nas nossas produções”.

Sua fala revela um preconceito profundamente arraigado em seu modo de enxergar o mundo. Na sua visão, quando “essa turma toda” está no palco, o Theatro é contaminado com identitarismo e ideologia, porém, quando se encena uma ópera clássica com elenco branco, não há nem identitarismo, nem ideologia. Ou seja, a ideia de q o homem cis branco hétero adulto é a regra, enquanto todas pessoas q não portem, ou não emulem, tais características, são excessão.

Ventureli com suas afirmações nos faz questionar também se esse instituto tem algum conhecimento sobre história da arte, e mais especificamente sobre a história da ópera, e consequentemente, se tem condições de fazer a gestão do TMSP. Não é possível q alguém q assuma a direção do Theatro Municipal, afirmando q retomará o repertório clássico tal qual foi escrito pelo compositor, não conheça a história das Bodas de Fígaro, de Mozart, da Carmen, de Bizet, Macbeth, de Verdi, entre tantas outras óperas assumidamente com viés político, ideológico, a ponto de fazer tais afirmações completamente descabidas. Isso para ficarmos apenas em alguns poucos exemplos daquilo q se considera o cânone da ópera europeia.

As violências de gênero denunciadas em óperas como As Bodas de Fígaro e Carmen, são manifestações da mesma estrutura machista das violências de gênero q seguem vitimando mulheres e meninas hoje na nossa sociedade. Remontar tais obras sem essa consciência, e sem conhecer a história da recepção das mesmas em suas épocas, chega a ser perverso.

Assim como não podemos perder de vista q a ópera em si, é portadora de enorme viés político e ideológico. A ópera foi amplamente utilizada para a construção da identidade burguesa quando deixou de ser um entretenimento exclusivo das cortes nobres para se tornar um espaço de sociabilidade e difusão de valores da nova classe dominante. Não consigo pensar melhor exemplo de identitarismo.

Não à toa se construiu em 1911 uma casa de ópera em São Paulo durante a ascensão econômica da cidade, nosso Theatro Municipal. A ópera era vista como um instrumento de “civilização” e “aprimoramento do gosto”, educando o público nos padrões comportamentais e estéticos europeus, considerados superiores. Claro, pelos próprios europeus.

Seria esse o princípio norteador da gestão do Instituto Baccarelli? A depender das falas de Ventureli, podemos entender q sim.

As primeiras ações do Instituto não fazem mais q confirmar um modo de agir autoritário e opaco. Cito; a imposição de um novo diretor para o Balé da Cidade, sem respeitar a lista tríplice e o poder de escolha por parte do elenco; demitir funcionários do quadro de direção sem aviso prévio; sem nenhuma justificativa, excluir a diretora Daniela Thomas, da montagem da ópera Tristão e Isolda, prevista para julho deste ano.

Assim, nada mais preciso para esse momento do q a encenação da ópera Intolleranza de Luigi Nono.

Os cantos-gritos em clusters de “morte ao fascismo” e “liberdade aos povos” do coro alinhado na boca de cena encarando o público podem soar datados. Pode-se achar q o fascismo foi algo q aconteceu num recente passado, mas q foi derrotado pelas atuais democracias.

Em seu mais recente livro, o filósofo Vladimir Safatle, defende q a democracia liberal é sempre relativa, pois se você perguntar no bairro de Higienópolis em São Paulo se as pessoas ali vivem numa democracia, dirão q sim. Agora, se você fizer a mesma pergunta, por exemplo, na favela de Heliópolis, muito provavelmente a resposta não será unânime. Quando 120 pessoas são executadas sumariamente pelo estado, nos complexos da Penha e do Alemão no Rio de Janeiro, sem nenhum tipo de consequência para seus agentes, ainda q redundem provas de tortura e execução fora de conflito, não estamos diante de uma democracia. Em determinados contextos, em especial contra “toda essa gente”, as democracias liberais se reservam o direito de atuar com o mesmo tipo de violência característica dos estados fascistas.

Apesar do termo ter sido usado nos últimos anos de forma totalmente desprovida de rigor por parte do espectro progressista, olharmos para nossa sociedade atual, q não cansa de nos dizer q não há espaço para todos, a partir deste conceito, pode ser terrivelmente elucidativo.

Na encenação dirigida por Ramos e Climachauska, a ópera começa com uma projeção onde se lê em letras garrafais significantes da mesma violência e intolerância fascistas denunciadas por Nono na década de 60 do século passado. Glisofato. Pelourinho. Ustra. Navio Negreiro. Gaza. Gás Mostarda. Primeira Missa. Arminha. A lista é longa. Passado e presente se interpenetram através destas manifestações de extrema violência e intolerância, muitas delas defendidas abertamente pelo grupo de vereadores q se voltaram contra a gestão da Sustenidos, acusando-a de ideológica. E quando Ventureli diz q a direita talvez fique feliz com a gestão da Baccarelli, é da felicidade dessas pessoas q defendem o intolerável q ele está falando.

Num determinado momento da ópera, o coro canta:

Os soldados da ordem
torturam, torturam
dia e noite, noite e dia.

Em seguida, se vira para o público e prossegue:

E vocês?
São surdos?
Cúmplices no rebanho?
Na ignóbil vergonha?
Não os abala o lamento dos nossos irmãos?
Megafones! Amplifiquem este grito!
Antes que a calúnia o deforme
e a indiferença o sufoque!

As colocações do diretor-executivo do Instituto Baccarelli q fará a gestão do maior orçamento público do Brasil para um único equipamento cultural nos próximos cinco anos, preocupam. Porém, nos dá uma nítida amostra das intolerâncias q podem vir.

 

As opiniões e reflexões apresentadas neste texto são de responsabilidade de seu autor e não representam necessariamente o posicionamento do Portal MUD.
Daniel Kairoz

Daniel Kairoz

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Artista transdisciplinar que através do pensamento coreográfico articula sua prática artística e realiza suas obras sempre na encruzilhada entre perspectivas e diversos territórios da arte, mas também da filosofia, da crítica, da arquitetura/urbanismo e da cosmopolítica.