Uma conversa crítica com o momento atual do Balé da Cidade de São Paulo e com sua mais recente criação, Encruzilhada, com coreografia de Renan Martins.
BCSP 58 anos
Em 2026 o Balé da Cidade de São Paulo completa 58 anos desde sua criação. Criado inicialmente como um Corpo de Baile para acompanhar as óperas do Theatro Municipal e remontar o repertório do Balé Clássico. Desde 1974 passou a se afirmar como uma companhia de Dança Contemporânea. Com o passar dos anos foi ganhando autonomia, diversificando e amadurecendo seu pensamento de dança e de produção em dança. Hoje sob direção artística de Alejandro Ahmed e assistência de Ana Teixeira, o BCSP tem dado saltos nesse processo de amadurecimento, principalmente no q tange seu pensamento artístico e poético. Um marco nessa história de 58 anos. Hoje em meio à precarização programática da já precária estrutura de produção em dança em São Paulo, e porque não do Brasil, o Balé se apresenta como uma raríssima exceção. Tanto pelas suas privilegiadas condições de trabalho, mas também pela excelência artística de sua direção atual. Das coisas mais interessantes acontecendo no cenário atual da dança contemporânea. Pois há um pensamento artístico complexo e ao mesmo tempo afinado com os debates estéticos do nosso tempo regendo suas produções atuais. Há proposta artística. E principalmente, há risco e incerteza – como nos lembra o poeta Augusto de Campos não há gesto poético sem risco.
A arte não sobrevive por muito tempo onde há excesso de segurança e certeza. Aqueles q criticam as novas direções q o BCSP tem tomado, o fazem na maioria das vezes, arrisco dizer, por motivos equivocados, talvez por um desejo de q o Balé não continuasse seu processo de amadurecimento e transformação, inerente a tudo o q é vivo, ainda mais quando estamos falando de arte e mais especificamente a arte da dança. Talvez vivam da saudade de um Balé q pouco se arriscava estética e coreograficamente, um Balé q vivia de se adequar a padrões estéticos, corporais, conceituais de cias internacionais referendadas por modelos europeus-estadunidenses pouco coerentes com as questões coreográficas urgentes d’aquiagora. Se estamos falando de arte hoje neste aqui e agora, se estamos falando de uma cia estável e pública de dança, o mínimo q podemos esperar é q se esteja em diálogo com os debates e pensamentos a cerca da dança e da arte na contemporaneidade. Eis o importantíssimo trabalho q a equipe de direção artística do BCSP está fazendo junto dos bailarinos e bailarinas do elenco desde 2023.
O corpo do BCSP aterra
Impressiona o salto q os corpos q compõem o corpo do BCSP deram. Não um salto q busca o ar. Pelo contrário. Um salto para a terra. O encontro destes corpos com o chão. Se nas criações anteriores víamos seus corpos, ainda profundamente coreografados pelo balé clássico, se aventurando por pensamentos de dança muitas vezes estranhos ao lugar da dança q lhes é mais habitual, por vezes se chocando com propostas q pediam outros pensamentos de corpo, agora, justamente em Encruzilhada, vemos seus corpos ganharem chão. Terra. E consequentemente também o espaço. Começamos a ver as bailarinas e bailarinos movendo o ar, q antes não se movia quando dançavam. Mesmo q seja visível resquícios de uma espacialidade excessivamente frontal. Agora o espaço começa aos poucos a dançar junto com eles. Isso é uma conquista e tanto. Traz outra qualidade para suas presenças. Abre muitas possibilidades de jogos e composições q antes se encontravam fechadas, dependendo exclusivamente da proposição coreográfica em questão. Quem sabe em breve, o tempo entre também pra jogo e possamos ver outras temporalidades se abrindo através dos e nos corpos.
Encruzilhada
É notório como as criações recentes do BCSP estão apostando na força do coro. Um necessário contraponto, e respiro, frente ao imaginário cansado de solistas, primeiras bailarinas e toda uma hierarquia de vaidades herdadas do balé. No coro a dança reencontra sua força coletiva, ritualística, dionisíaca, exuística. O coro não apaga as individualidades, mas faz delas abertura para encontros e acontecimentos. Na Encruzilhada, coreografia de Renan Martins, o coro é quem dança. A força do coletivo perfaz o trabalho do início ao fim. É de se notar a força dos encontros q produzem pequenos acontecimentos em meio à coreografia. Vê-se uma sincera cumplicidade entre as bailarinas bailarinos. Vê-se pessoas. Dançando, jogando. Na Encruzilhada há jogo. E isso traz um colorido diferente para a cena. Ainda q seja um jogo bastante controlado, q pouca abertura tem para uma dança da própria estrutura coreográfica. Para o público fica um tanto enigmático qual o jogo q se está jogando, ainda q seja nítido q há um jogo em jogo. Um passo na direção da encruzilhada. Há comandos ditos em voz alta, contagens. Sequências de movimento em paralelo q vão se cruzando, atravessando, criando camadas dinâmicas de composição. Tudo isso dinamiza o espaço. Cria uma sensação de frescor e abertura para acontecimentos q me move enquanto público.
Aos poucos essas várias camadas coreográficas vão se somando até q todo o coro esteja se movendo em uníssono, com movimentos fortes, explosivos, em linha, se dirigindo diretamente ao público. Isso até atingir uma máxima intensidade. Um gozo ao público. É impressionante como esses ápices de intensidade na dança sempre funcionam e capturam o público. Gozo ou catarse? Sintoma ou expurgo? Voltaremos a isso. Essa mesma estrutura se repete ao longo de todo o trabalho: início) parte-se de uma composição complexa de movimentos com camadas atravessamentos diferenças; desenvolvimento) aos poucos vai-se criando blocos de uníssono até q todo o coro esteja se movendo em uníssono; fim) todo coro dançando em uníssono com máxima intensidade nos movimentos até o ápice. A música segue praticamente a mesma dinâmica. Há uma perigosa linearidade nesses crescendos. Essa repetição dramatúrgica acaba por deixar o trabalho previsível, quase cansativo. Nessa previsibilidade perde-se o jogo. Acabamos por sair da encruzilhada.
O q surge depois do ápice surpreende. Há um momento sublime quando após uma dessas explosões de intensidade, todos param, formando uma grande diagonal desde a boca de cena até o fundo do palco. Iniciam pequenos movimentos. Pequenas mudanças de direções de seus corpos em uma luz q rasga o espaço criando uma estranha perspectiva, fazendo com q parte das pessoas do coro estejam na contraluz tornando seus corpos silhuetas enquanto outras numa luz baixa com muitas áreas de sombreamento nos remetendo a uma atmosfera barroconírica. Quase nada se faz e muito acontece. Quase se toca no tempo.
Há signos de festa permeando toda construção do trabalho. O q por vezes ameaça o elo de ligação entre cena e público, quase caindo num fechamento da cena na própria cena. Talvez um problema de escala. Talvez um problema de perspectiva do palco italiano. Voltemos à festa. A vemos na figura do DJ, nas luzes, na energia da dança, na relação entre os corpos em determinados momentos, assim como em alguns passos de dança. Para quem tem acompanhado os programas atuais do BCSP, tem se deparado com a repetição de alguns destes signos. Por vezes beirando a mímese. Aqui na Encruzilhada poderíamos falar da referência aos bailes black cariocas, q tiveram sua origem no movimento Black Rio, berço de todo movimento Black Power brasileiro. Essa referência se mostra mais decididamente em alguns passos de dança q compõem os movimentos do coro e dão um colorido bastante especial às sequências coreográficas. Os demais signos, as escolhas musicais, a densidade das luzes, nos tiram dos bailes do Renascença. Os signos da cultura hegemônica se impõem. Parece q Exu está por perto, mas não chega.
Quem chega é a Xuxa. Chega cantando Arco-íris. Música tema do filme Super Xuxa Contra o Baixo Astral, no qual a rainha dos baixinhos luta contra o baixo astral, representado pela sujeira, pela feiúra, pelo grotesco, pela sombra. O ano era 1988. Ano da constituinte pós anistia geral e irrestrita inclusive para aqueles que cometeram através da máquina do estado crimes os mais cruéis. Vamos esquecer o q passou, vamos olhar para o futuro. Reinava a promessa de um mundo alto astral, dominado pela luz e toda sua cadeia de significantes – razão, alegria, prosperidade, liberdade, riqueza, etc. Quando soam os primeiros acordes de Arco-íris, o riso provocado pela surpresa é inevitável. O q poderia ser apenas um gracejo, insiste. A música é reproduzida em sua integralidade. Aos poucos o espaço vai sendo tomado por um sentimento de nostalgia. Seja por quem tem memórias afetivas com a música, seja pelos timbres de sintetizadores característicos dos anos 80, seja pela própria cadência e estrutura da música. Algumas bailarinas bailarinos começam a chorar e são acolhidos por suas parcerias em cena. Que nostalgia é essa? Pelo q se chora? Estamos escutando uma música pop oitentista q fala dos belos sentimentos q cada cor pode evocar e da vitória sobre um mundo feio e dividido. Choramos por um mundo q não veio e segue sendo feio? Choramos a ausência de futuro hoje? Nostalgia por uma época q prometia um futuro? Choramos assombrados por esses fantasmas destes futuros passados? Hoje há um nome para isso: retrowave. Essa nostalgia específica pelos anos 80 e seu futurismo colorido. Stranger Things, sintetizadores, luz neon, LPs, fitas K7, games, músicas, etc. E a Xuxa. Muitos analistas, pensadoras, pensadores fazem precisos diagnósticos acerca do esgotamento do capitalismo tardio. Inclusive muitos desses diagnósticos já estão exauridos pela repetição sem elaboração. A sociedade do cansaço. É mais fácil imaginar o fim do mundo q o fim do capitalismo. O cinismo (zinismo) tomou o campo da crítica. E aqui nos perguntamos: o q cada escolha num processo criativo diz? A qual cadeia de significantes ela se aliança? Como podemos querer dizer algo quando antes mesmo de dizer já estamos dizendo? O q quer uma criação artística? O q quer uma dança hoje?
Nessa encruzilhada com o mundo contemporâneo e os imperativos da cultura da exaustão, o trabalho Encruzilhada encontra-se com seu nó górdio. Uma cia como BCSP costuma ter como um dos seus mais fundamentais princípios, a máxima produtividade e eficiência, a alta performance. Graças à sua direção artística atual estes princípios q promovem a exaustão dos meios estão sendo revistos. Por isso, nos chama ainda mais à atenção as repetidas cenas de exaustão presentes no trabalho. O q para uma leitura mais imediata pode parecer uma manifestação de resiliência e força de vontade, coletividade, aos poucos, conforme vamos conversando com os elementos em cena, pode se revelar pelo contrário, corpos submetidos a um regime de morte. Uma repetição q a cada volta reitera ainda mais os signos de exaustão, chegando mesmo a encenar a exaustão. Eis o ápice do ápice. Ou se preferirmos o gozo do gozo. Vemos em cena a exaustão da dança. Bailarinas e bailarinos encenam q não aguentam mais continuar e ainda assim são compelidos pelos seus a seguir adiante e continuar dançando. Não há a possibilidade do descanso. Vemos em cena a representação do cansaço e a impossibilidade de parar. Estes corpos foram treinados para não cansar. Ainda q estejam efetivamente cansados. Um verdadeiro paradoxo, pois foram treinados para não transparecer o cansaço e seguir dançando. Com o corpo machucado ou não. A impossibilidade de parar. Exaurir a dança. A atualização do imperativo moderno ao movimento em movimento. Uma mobilização total. Uma atualização da promessa de recompensa por se exaurir? Toda uma cultura da exaustão como valor moral em jogo onde justamente o jogo se tornou soma zero. Me parece q se perde a força coletiva nessa exaustão sem fim. Se perde a potência do coro tão emblemática em outros momentos da peça. E o público goza com isso. E aqui me martela o pensamento a pergunta: faz sentido medirmos o êxito de um trabalho artístico pelo gozo do público? Ou ainda, a qualidade artística de uma coreografia é atestada pelo gozo do público? Ouvindo vendo as reações do público, suas manifestações mais espontâneas, temos indícios deste gozo. É ambíguo. Sentimos, me coloco também como público, em nosso corpo um desejo de dança, de dançar junto, de gozar junto, enquanto somos mantidos como Ulisses; amarrado ao mastro do navio ouvindo o canto das sereias gozando sozinho. Um gozo q diferentemente da catarse não promove transmutação de um estado de angústia ou do desejo de morte. Um gozo q nos mantém presos à repetição do já conhecido fechados num círculo q nos impede o acesso à espiral do tempo à qual a encruzilhada é portal. Talvez sintoma da negação (mesmo quando se apresenta como afirmação) do corpo em nossa sociedade? Gozo q nos conduz para um estado de euforia momentânea mas sem o risco de sermos desamarrados do mastro do navio e lançados para fora do mundo instituído de aparente segurança. Mas lembremo-nos, um mundo-navio sem futuro possível. A encenação da exaustão parece, por fim, produzir um interdito às forças exuísticas, dionisíacas, entre outras forças manifestas da encruzilhada.
Abro estas questões e reflexões aqui com o único intuito de ampliarmos o espaço de debates e conversas infinitas em torno das práxis coreográficas e artísticas em geral, além de fomentar a reflexão crítica, tão rara em nossos tempos.
Ciclo de maturidade
A aposta q o BCSP vem fazendo em novos novas coreógrafas, muitas vezes em início de suas trajetórias com a dança, ou com pesquisas coreográficas q demandam mais da disponibilidade do público, assumindo os riscos inerentes a um fazer artístico voltado à pesquisa, à experimentação, é louvável. Mesmo q por vezes ainda em processo de maturação estética os trabalhos não atinjam seu lugar enquanto acontecimento (faço questão de ressaltar q não é este o caso da obra em conversa aqui). Mesmo q muito da estrutura voltada à eficiência e máxima produtividade q marcam esses 58 anos da história do Balé sigam operando. Mesmo q ainda se mantenha um certo padrão no elenco de coreógrafos e coreógrafas q parece precisarem de uma chancela internacional. O risco em si com a maturidade com a qual está sendo conduzido, é extremamente precioso neste momento. Assumir o risco é o jogo necessário para, com delicadeza, ir permitindo q essa estrutura se reestruture com outros princípios mais afinados com um fazer artístico capaz de abrir um campo de futuros possíveis. É a artisticidade deste novo momento do BCSP.
Para fechar esta trama, é preciso voltarmos ao arco-íris. Impossivel em meio à encruzilhada falarmos de arco-íris e não falarmos de Oxumarê. Orixá da tradição iorubana relacionado ao arco-íris, mas também aos ciclos, à renovação, ao movimento da vida, à riqueza, à ligação entre Céu e Terra. A serpente sagrada. Quando colocamos em perspectiva a história do Balé da Cidade de São Paulo, fica difícil não nos surpreendermos com o salto de amadurecimento artístico q estes últimos três anos consolidou. Está visível tanto na pertinência artística das novas criações artísticas do Balé, quanto nos corpos e no próprio pensamento de corpo do elenco. Seus corpos, com este salto ao chão, com os pés no chão: aterram. Um novo corpo começa a aparecer. Um corpo q manifesta a Terra. Manifestando a Terra estão a um salto de reestabelecer este eixo de ligação com o Céu – o tempo. Eis a força de Oxumaré. São 58 anos vividos e justamente aos 58 anos um grande ciclo se dá. O planeta Saturno retorna pela segunda vez ao mesmo grau da abóboda celeste q esteve no momento em q algo alguém nasceu. É um ciclo lento para a dimensão da vida humana, ciclos de 28-30 anos. Uma lentidão necessária para, vivendo, conhecer e reconhecer o corpo q se tem para agir no mundo. Ou de um modo geral os meios materiais q se tem, suas estruturas. Conhecer e reconhecer suas potências e consequentemente suas limitações e restrições. Um processo de amadurecimento profundo. Está sendo um privilégio poder acompanhar este processo e disposição ao amadurecimento do Balé da Cidade de São Paulo e sua capacidade de resistência frente à tantas forças contrárias à vida e às transformações q a vida pede.
Daniel Kairoz