Bieel Moraes. Foto: Jack Thomson. Reprodução Instagram.
A dança brasileira atravessou o gelo olímpico em 2026. E não como figurante.
Gabriel Moraes, conhecido artisticamente como Bieel, coreógrafo nascido em Lençóis Paulista, interior de São Paulo, foi responsável pela construção coreográfica de um dos programas apresentados pela dupla formada por Guillaume Cizeron e Laurence Fournier Beaudry, campeões da dança no gelo nos Jogos Olímpicos de Inverno Milano Cortina 2026.
A performance, embalada por Vogue, de Madonna, levou para a arena olímpica referências diretas do voguing, linguagem que nasce das culturas ballroom e LGBTQIAPN+ negras e latinas em Nova York e que, nas últimas décadas, ganhou desdobramentos globais.

Guillaume Cizeron e Laurence Fournier Beaudry durante apresentação na dança no gelo em Milano Cortina 2026. Foto: Action Images via Reuters/Andrew Boyers.
Arms control: precisão, desenho e presença
Bieel é professor de arms control, técnica que investiga controle, desenho e musicalidade dos braços dentro do vocabulário do voguing. Trata-se de um estudo minucioso de linhas, ângulos, ataques e pausas, onde cada gesto constrói narrativa e presença.
Ao transpor esse repertório para a dança no gelo, o desafio não é apenas estético. É físico, espacial e técnico. No gelo, o corpo desliza. A base muda. O eixo negocia constantemente com a lâmina. Inserir a precisão gráfica do arms control nesse contexto exige adaptação, escuta e experimentação.
O trabalho envolveu ensaios intensivos, pesquisa dentro e fora da pista e compreensão da rotina de atletas de alto rendimento. A coreografia precisou dialogar com regras técnicas, critérios de pontuação e exigências atléticas, sem perder a assinatura expressiva.
Do interior ao circuito internacional
A trajetória de Bieel tensiona mapas. De Lençóis Paulista para São Paulo. Da cena de workshops e batalhas para turnês internacionais e, agora, para o maior evento esportivo de inverno do mundo.
Antes da experiência olímpica, o coreógrafo já vinha construindo pontes entre dança urbana e mercado pop, assinando trabalhos para a cantora Marina Sena e circulando com formações e residências artísticas.
O encontro com Cizeron começou anos antes da Olimpíada, a partir de um interesse do atleta em aprofundar a linguagem do voguing. A colaboração evoluiu até integrar o processo de preparação do programa competitivo que culminaria na medalha de ouro.
Quando a dança urbana chega ao pódio
A presença de um coreógrafo brasileiro da cena voguing em uma conquista olímpica amplia a discussão sobre circulação de saberes em dança.
O gelo olímpico, tradicionalmente associado a repertórios clássicos e neoclássicos, abriu espaço para um imaginário vindo da cultura ballroom. E essa travessia carrega assinatura brasileira.
Para o Portal MUD, a notícia não é apenas esportiva. É política, estética e territorial. É a confirmação de que a dança produzida no Brasil continua redesenhando fronteiras.
Informações apuradas junto ao g1 Bauru e Marília e ao site oficial Olympics.com.
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