MUSEU DA DANÇA

A trajetória do Grupo Marzipan

Terça, 05 de Junho de 2018 | por Tatiana Cotrim |

O Marzipan surgiu na cidade de São Paulo em 1982, com a proposta de pesquisar o movimento e a dança num trabalho íntimo com o teatro, unindo as duas formas de expressão em cena. Pioneiro em apresentar-se em espaços underground como o “Aeroanta” e o “Carbono 14”, mostrando um trabalho moderno e diferente unindo o espaço com a concepção coreográfica.

O interesse por essa pesquisa surgiu após constatar três pontos importantes que serviram como mote para o seu desenvolvimento. São eles: 1) trabalho próprio composto por uma linguagem de movimento peculiar e irreverente; 2) a existência de poucos registros históricos relevantes sobre a dança contemporânea paulista; e 3) a verificação de que depois de quase vinte anos da extinção do grupo, uma parte significativa dos integrantes que o compunham, permanecem atuantes de forma efetiva na área da dança, no âmbito nacional ou internacional, sejam como intérpretes, coreógrafos ou professores, contribuindo assim para uma melhor formação de bailarinos de outras gerações. 

No trabalho do Marzipan não existia uma nítida divisão entre o que era dança e o que era teatro. O cinema, a dança, o teatro, o vídeo se interpenetravam. Todas as formas de expressão artística se integravam. Existia a procura de uma linguagem cênica própria que recorria além do teatro, à mímica, projeções de slides e figurinos para retratar situações do cotidiano das grandes metrópoles, batizada de linguagem futurista.

O Marzipan foi um grupo que não se preocupava com a perfeição do gesto, e sim com uma dança próxima, que divertia e contava histórias, resultante relax da pesquisa do movimento. Uma idéia simples, temperada no talento, no cuidado coreográfico, e na absorção de outros elementos visuais. Uma idéia que instigava à criação e ao mais puro divertimento.

O primeiro espetáculo do grupo foi “Nunca pare sempre é tarde para começar”, baseado no movimento new wave. As cores fortes usadas por esse movimento, como o rosa, o verde-limão e o roxo, inspiraram o nome do grupo -Marzipan- que, como o doce, também utiliza essas cores fortes. A palavra “Marzipan” é de origem saxônica (austríaca ou alemã) e significa “doce de amêndoas colorido, variado.”

O grupo transformou-se num coletivo de artistas que marcou a dança brasileira paulista, com seu modo bem-humorado de tratar os clichês e o lado kitsch do cotidiano, que desenvolveu em coreografias curtas, as danças-vinhetas ou dança-clip, que geralmente se apoiavam em música de mercado da época, servindo também como forte influência para outros criadores na década de 80. Entre vários artistas associados ao Marzipan, destacaram-se como intérpretes e/ou coreógrafos, Cacá Ribeiro, Renata Melo, Rose Akras, Soraya Sabino, Zeca Nunes, Claudia Rydlewski, Helena Bastos, Lúcia Merlino, Michele Matalon e Zélia Monteiro, entre outros. Além da “troupe” fixa, era habitual a chegada de outros jovens artistas, encarregados de assinar, uma vez ou outra, os figurinos, roteiros, cenários, músicas, fotografia e áudio de cada espetáculo. Nesta lista figuraram Elisa Stecca, Dora Longo Bahia, Gal Oppido, Adriana Vaz, Júlio Rodrigues, Oswaldo Filho, Tuca Camargo, Tutu Cardoso de Almeida, José Possi Neto, Mazé Crescenti e Grupo Luni. Neste período, existiu um número muito grande de espetáculos variados dentro da dança paulistana, mas poucos coreógrafos conseguiram ser originais em seu trabalho de criação e prevaleceu a tendência dos espetáculos longos, em contraposição as coreografias curtas, diferentes e inusitadas como as do Marzipan, que além disso, procurava trazer a arte para mais perto da realidade do público. É importante ressaltar que a dificuldade de conseguir palcos grandes levou o Marzipan a desenvolver coreografias curtas, o que acabou sendo sua marca registrada.

A unanimidade que reinava no Marzipan, o clima de integração pessoal entre seus componentes, fazia com que suas idéias se figurassem em vários ângulos, no que faziam fora e no palco e no que pensavam. A colagem cênica era repleta de oposições e muita criatividade e os temas eram narrativos e abstratos, clássicos e novos. Não existia uma preocupação em definir propostas e o mote do grupo era transpor para o palco situações do cotidiano das metrópoles, num estilo urbano e alucinado.

Eles trabalhavam com o sentido da contemporaneidade, limpando o mofo da dança estabelecida, com arrojo e em direção ao verdadeiro significado de arte / linguagem.

É importante destacar algumas atitudes típicas da década de 80 no Brasil e em São Paulo, pois nessa época já era uma cidade considerada um dos maiores pólos culturais do país, período este em que o Marzipan existiu, como por exemplo; yuppies, fitas VHS, filmes noir, peças cult, gente dark e só se falava em “modernidade”, e não com o sentimento irônico que as aspas, hoje, fazem intuir. Existia uma sede talvez ingênua de importações, de novidades, de cosmopolitismo e descompromisso – coisas que a geração anterior represara, em meio aos deveres, ideais e lutas de um período de fechamento político e econômico. Numa época sem internet, era considerável o abismo de informação entre o público intelectual médio e o seleto grupo dos “antenados” com o que se passava fora do país. O desejo de desprovincianização e permeabilidade internacional acompanhava a definitiva substituição da Europa pelos Estados Unidos enquanto referência das elites culturais. A modernidade se expressou, portanto, num acréscimo de cosmopolitismo e tecnologia, e no final da década de 80 e no decorrer da década de 90 a cidade de São Paulo se internacionalizou de fato, sendo capaz de atrair turistas nacionais e estrangeiros, significando maior abertura para a produção nacional de dança. Um exemplo significativo foi a aparição merecida do Marzipan em 1988 no “II Carlton Dance Festival”, que subiu ao palco juntamente com seletos convidados estrangeiros, depois de sete anos de trabalho e ensaios permanentes, pois até então era considerado um grupo independente profissional, mas não conseguia patrocínio. 

Na época existiam poucas companhias independentes de dança em São Paulo e não existiam editais que apoiassem o trabalho dos bailarinos e sua continuidade dificultando a solidificação dos grupos.

É importante constatar que um traço cultural aparece desafiando a temporalidade do anterior. Este talvez se recicle e surja de outro modo, e talvez também aquele desapareça de vez para sempre. São emblemáticos, por exemplo, casos de forças jovem agrupadas em torno do Casa Forte, Andança, Ballet Ópera Paulista, grupos movidos pelos meios e não pelos fins, assim como o Marzipan.

Os trabalhos na época eram voltados para o universo das raízes brasileiras no que diz respeito ao pensamento e estruturação cênica das obras em maior evidência nas grandes companhias.

O trabalho de base e o trabalho de composição estão relacionados aos modos de fazer acontecer (ou modos de operar o acontecimento da obra coreográfica). A diferença entre eles está que o trabalho de base relaciona-se com o treinamento que a linguagem coreográfica exige e que o Marzipan traz características específicas – questão da formação multidisciplinar, isto é, não só de uma linha técnica corporal ou mesmo não só ligada à área da dança, mas de outras linguagens artísticas. O grupo era formado por “cabeças” que pensaram o teatro e a dança para além do convencional.

Dentro do trabalho de base do grupo não existia uma formação ortodoxa e os bailarinos apresentavam diferentes “bagagens técnico-corporais” e esta formação confere uma grande diversidade plástica aos seus espetáculos, pois as possibilidades geradas com as novas técnicas além da clássica são grandes e as conexões, muitas. Segundo Valéria Cano Bravi, após escolha de dois autores, Hubert Godard e Antonio Pinto Ribeiro, para refletir sobre o assunto “Dança contemporânea (?)” num capítulo de um livro citado na referência bibliográfica deste trabalho, comenta que a questão multidisciplinar na formação do dançarino contemporâneo poderia ser compreendida por busca, investigação, procura de novos parâmetros técnicos corporais para a linguagem coreográfica dar conta das contingências provocativas sob as quais vivemos. Porém, quando o assunto é “dança contemporânea”, ao termo contemporâneo, mais que uma marca temporal com suas inscrições históricas, traz a designação de características muito específicas, configura estéticas peculiares, o que dificulta traçar uma tendência única.         

O trabalho de composição relaciona-se mais diretamente à organização dos elementos compositivos da obra, relaciona-se à tendência estética que opera as interações entre os elementos que constituem ou que estruturam a obra cênica.   Como já foi relatado anteriormente, o Grupo Marzipan possuía uma linguagem própria e predominavam no gestual criativo algumas características peculiares como: elementos da ficção moderna, caricaturas, situações do cotidiano, vinhetas e histórias em quadrinhos. As ações e gestos do cotidiano converteram-se em material de pesquisa e o exercício intelectual de invenção e descoberta de estruturas fizeram com que os artistas se envolvessem profundamente, refletindo positivamente em suas vidas profissionais até os dias atuais. Optando por ser multiforme (o Marzipan não se apresentava sempre com os mesmos bailarinos), escolhendo trilhas sonoras daquela época, produzindo figurinos inventivos e sacando de assuntos diversos dos usuais. Em suas apresentações, o Marzipan costumava usar objetos insólitos em cena, como escovas de dente e enceradeiras. O Marzipan surge como celeiro de tentativas e experimentos dentro de um contexto “alternativo”, que transitava pelos palcos alternativos com uma produção talvez mais alternativa ainda. Os integrantes do grupo foram chamados de frenéticos porque conseguiram dançar todos os finais de semana de 1987 com exceção de dois.

Se no balé contemporâneo recupera-se a narrativa do cotidiano menos intimista do homem, o mesmo ocorre na dança contemporânea: as histórias serão pequenas e falarão do homem, da cidade e das correntes estéticas da moda cultural. Para realizar esses espetáculos, os coreógrafos mesclaram técnicas de autoconhecimento corporal, dança contemporânea e moderna e uma interpretação dramática que variará de um relativo distanciamento em relação à platéia, até uma busca de empatia com a mesma.

Para estruturar uma linguagem que permita expressar temas diretamente associados ao cotidiano dos próprios bailarinos, lança-se mão de muita gestualidade e ações naturais, de dançar-se a si mesmo, de uma emoção controlada e um pouco egoísta, da autogozação, da ironia e novamente do olhar que vai até a platéia numa busca, quase provocativa, de participação e cumplicidade.

A desarticulação do grupo ocorreu por um motivo em comum que foi a existência de outros interesses pelos integrantes. Eles relataram que a experiência vivida durante a existência do grupo foi extremamente verdadeira e rica refletindo em suas vidas profissionais e pessoais até os dias atuais.

O Marzipan foi uma mistura de novas possibilidades e invenções dentro do contexto cênico da dança contemporânea presente na cosmopolita cidade de São Paulo.


- O Programa de Iniciação Científica para Discentes financiado pela Diretoria de Pós-Graduação e Pesquisa da Universidade Anhembi Morumbi (UAM) possibilitou-me estudar o Grupo de dança Marzipan que atuou com destaque na década de 1980.

O período de realização da pesquisa foi de abril de 2008 a março de 2009 com a orientação da Professora Valéria Cano Bravi.


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Tatiana Cotrim

Bailarina e nutricionista



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