Educação somática: A caverna, a chama e o princípio do giro

Meu encontro definitivo com a dança — embora eu já tivesse o desejo de me tornar dançarina e já pisasse em salas de aula — aconteceu no Estúdio Nova Dança, em 1998/1999. Tinha quase dezenove anos, e aquela entrada foi uma guinada. Um acontecimento de força tão desconcertante que, até hoje, resiste à explicação fácil.

Guardo daquelas primeiras aulas memórias pontuais e luminosas. Elas foram como adentrar as cavernas de Chauvet: com uma pequena chama na mão, diante de um breu antigo e intocado, pronta para desvelar algo fundamental dentro de mim. Ao mesmo tempo, era uma profusão de movimentos epessoas de realidades muito diferentes daquela que eu vivia e conhecia. Tudo era novo.

Lembro-me, por exemplo, do mapeamento das escápulas. Aprendi a tocar e a ser tocada, a decifrar a geografia daqueles ossos — suas bordas, o modo como repousam sobre as costelas, sua resposta ao movimento. Compreendi que eram a raiz secreta dos braços, que fluía até as pontas dos dedos feito uma bússola, orientando os movimentos no espaço. Minhas escápulas foram desveladas pelas mãos de outra pessoa; depois, devolvi o gesto, desvelando as dela. Desse duplo toque, nasceu uma cumplicidade silenciosa, uma intimidade sui generis: conheci aquele corpo antes mesmo de saber seu nome.

Em outra aula, foi a vez dos trocânteres e dos ísquios: observar forma, função, volume, localização, relações entre esses dois ossos e a gravidade. A escuta era uma das bases do exercício, que gradativamente ganhava consistência. Após cerca de meia hora de pura investigação, aquele estado concentrado se consolidava como suporte à espacialidade.

A exploração sutil tornou-se movimento no espaço, espirais, giros, suporte interno e, aos poucos, o tema de improvisações e composições em dança. Não eram quaisquer giros, pois baseados nas orientações ósseas, tornaram-se muito mais precisos. Era o que se manifestava como resposta expressiva de um caminho trilhado com a consciência, amparada pelo estudo da Coordenação Motora de Marie-Madeleine Béziers, da técnica Klauss Vianna, da Ideokinesis e da sensibilidade daquela professora.

É difícil descrever a sensação de realizar algo que não teria mais volta. Ficou registrado no corpo como caminho. Hoje, titularia aquele “insight” como o processo de embodiment. Uma alegria que me inundava, não apenas por girar, mas compreender a trajetória interna do movimento. Por olhar ao redor e me reconhecer como parte de uma construção coletiva. Estávamos todos na mesma onda, no mesmo mar.

Vinte e sete anos se passaram, e muitas outras camadas se sobrepuseram a essa pele. No entanto, essas memórias vibrantes ainda hoje sustentam meu modo de habitar o mundo e minhas escolhas. Elas alimentam um contínuo jogo de escuta, um corpo que permanece feito de perguntas sobre o alcance da educação somática, com uma curiosidade que alcança longe. Observo que tais bases seguem organizando meu olhar, minha estrutura, meus gestos e relações.

Este corpo que vivencio hoje às vezes me remete a um palimpsesto, sobre o qual outras histórias estão inscritas sobrepostas às primeiras. A radicalidade somática, seja direcionada às artes da cena ou com viés terapêutico, habita exatamente nesse processo de movimento vivido, na integridade de estar aqui e agora. Não se trata de passado ou presente, mas de suas camadas e profundidades, e os recursos mais eficientes para acessá-las em busca de integração, expressão e relação conscientes a cada instante.

Ao longo dos anos, tenho trilhado o caminho da educação somática e adentrado outras “antigas cavernas” — como artista da dança, pesquisadora, terapeuta e educadora do movimento. Essas memórias integram minha história, minha vida na arte e a escolha dos territórios e lugares a serem dançados, junto ao ..AVOA! Núcleo Artístico, que completa vinte anos em 2026.

É precisamente sobre essa relação — entre a escuta, o jogo de corpo no mundo e as forças gravitacionais que, inconscientemente, nos orientam e conectam — que pretendo seguir escrevendo nos próximos meses. Será uma forma de compartilhar um pouco de minha pesquisa mais recente pela perspectiva do método Rolfing® de Integração Estrutural.

Aos professores e mestres de ontem e de hoje, minha profunda gratidão e reverência. Graças a eles, o conhecimento circula por tantos corpos e tece relações que escapam a seus próprios olhos. A Lu Favoreto, minha primeira professora de dança e educação somática — e é de sua aula que falo nesta primeira coluna —, dedico este primeiro texto de 2026.

 

Textos de apoio:

BRAVI, Valéria Cano. Estúdio Nova Dança: espaço de referência na produção da dança paulistana. Disponível em https://portalmud.com.br/portal/museu-da-danca/estudio-nova-danca-espaco-de-referencia-na-producao-da-danca-paulistana/

BORTOLETTO, Luciana; LOURENÇO, Robson; BRAVI, Valéria Cano. IMPROVISAÇÃO EM CAMADAS: O diálogo das abordagens somáticas voltadas para a pré-para-ação do dançarino-improvisador em contextos urbanos. Disponível em: https://periodicos.unespar.edu.br/mosaico/article/view/8015/5893. Acesso em: 5 fev. 2026

ROLF, Ida P. Rolfing e realidade física. Tradução de Rosemary Feitis. São Paulo: Summus Editorial.

O avesso do avesso do corpo – educação somática como práxis / Organizadores: Cristiane Wosniak, Nirvana Marinho– Joinville: Nova Letra, 2011.

 

Luciana Bortoletto

Luciana Bortoletto

Ver Perfil

É artista, pesquisadora, educadora somática e terapeuta corporal. Sua trajetória profissional teve início em 1998, no Estúdio Nova Dança, com estudos em dança contemporânea e improvisação. No mesmo período, estudou teatro físico, dedicou-se à poesia haicai e atuou como fotógrafa por oito anos — experiências que fundamentam sua abordagem transdisciplinar e sua constante interlocução entre linguagens.

É Rolfista em formação pela Associação Brasileira de Rolfing® e graduanda em Artes Visuais. Fundadora e diretora do …AVOA! Núcleo Artístico desde 2006, desenvolve uma pesquisa que transita entre diferentes campos do conhecimento, focada nas relações entre corpo, somática, memória, território e natureza em contextos urbanos.

Entre suas obras recentes, destacam-se: Olho-D’água (2024); Solos de Rua (2012-2018| Prêmio Denilto Gomes 2013); Ultrapássaros (2016); Pequena dança para crescer nos vãos (2015). Projetos de manutenção de pesquisa artística e criação, a serem destacados: Deságua (2022); Vir-a-Ser (2016); Dança/Haicai (2003).