A escrita do corpo no presente: dramaturgia e composição no Contato Improvisação

Steve Paxton e Lisa Nelson em apresentação da coreografia PA RT, 1978.

Desde sua origem oficial em junho de 1972, com a histórica residência na Galeria John Weber em Nova York, o Contato Improvisação (CI) tem desafiado os limites entre as técnicas da improvisação e do movimento coreografado. Criado por Steve Paxton a partir de experimentos como Magnesium, o CI contou com a colaboração fundamental de pioneiros como Nita Little, Nancy Stark Smith, Curt Siddall, Daniel Lepkoff e, posteriormente, Lisa Nelson. Por meio de um pensamento de movimento baseado no toque, na improvisação em dança, nas transferências de peso e na parceria constante com as forças físicas entre o chão e os corpos, o CI tornou-se uma possibilidade de composição em tempo real, a dramaturgia pautada na paleta de sensações de cada bailarina/o e as relações construídas a cada encontro. Uma dramaturgia das relações que reflete sobre o respeito mútuo em diversas situações durante a dança, muitas vezes desafiadoras.

No universo do Núcleo Improvisação em Contato (NIC), coletivo que pesquisa esta vertente desde 2011, a dança é estudada como um campo onde improvisar e compor cenicamente são conceitos que integram a pesquisa e criam combinações para inverter a lógica de definir apenas um caminho para organizar o trânsito entre improvisação e composição, tanto na criação como no resultado cênico. São direções que colocam a composição como disparador principal e a improvisação como meio de elaborar essa organização no espaço, a improvisação como disparador principal e a composição como maneira de estabelecer a relação expressiva ou ainda ambos sendo elaborados ao mesmo tempo. Além de outras técnicas que podem aprimorar a versatilidade de escolhas dos bailarinas/os em cena. A dramaturgia nasce de um diálogo físico e poético ininterrupto.

Improvisar e compor: a escolha como edição e criação

Diferente de métodos coreográficos, a improvisação no C.I. propõe um processo investigativo relacional. A tradução do termo “Contact Improvisation” para o português já sugere um universo de opções entre dois conceitos indissociáveis, sem a necessidade da conjunção “e”: contato improvisação ou improvisação em contato, para designar que se trata sobre essa vertente da dança contemporânea. Para Neves, diretor do Núcleo, “improvisar é aprender e organizar tudo de novo sobre o que eu já sei, escolher, esquecer, lembrar e repetir, um jogo entre propor e seguir a consciência”.

Nesta perspectiva, a improvisação não é a ausência de estrutura, mas a imaginação e a atenção relacionando-se a partir de uma organização e edição  com a forma. O dançarino opera em um estado de uma “mente treinada”, assim como em muitas técnicas, agindo como seu próprio coreógrafo ao tomar decisões instantâneas baseadas na percepção e nas relações criadas. Ao identificar caminhos conhecidos e “hackear” padrões de movimentos básicos, cria-se espaço para que o desconhecido emerja a partir do que eu conheço/estudo, transformando cada encontro em uma peça única de composição instantânea.

Dramaturgia e Improvisação: os sentidos em diálogo

A construção dramatúrgica no CI não depende de um roteiro linear, mas da escuta meticulosa dos campos interno e externo da sensação. É o que Jo Kreiter denomina “danças do coração”, momentos em que o movimento se presta à narrativa e histórias se desenrolam a partir de memórias corporais e diferentes estados. A dramaturgia, nesse caso, é a própria comunicação possível através do toque.

Contudo, o desafio do improvisador é não se tornar refém de seus próprios hábitos. Dres Aguilera, integrante do NIC, reflete sobre essa tensão constante referenciando um pensamento compartilhado já em outras técnicas corporais: “O padrão existe de acordo com o desenvolvimento enquanto ser humano… é como sobrevivemos, criar padrões para não ter que aprender ações básicas como escovar os dentes, o caminho de casa, etc”. Aguilera observa que, embora o padrão possa “salvar ou revelar algo”, o trabalho do improvisador reside em negociar essa multiplicidade de estímulos, atravessando o labirinto entre o hábito, a consciência e a criação.

Democratização e diversidade de habilidades

O Contato Improvisação é frequentemente descrito como uma “revolução do toque”, um ato político que rompe com a rigidez do não-tocar e propõe comunicações igualitárias a partir das forças físicas como eixo dessa comunicação. Por ser uma forma de “fonte aberta” – sem uma instituição central de licenciamento ou controle –  a informação circula de maneira democrática entre os praticantes, permitindo que cada pessoa complete a dança consigo mesma a cada momento. Essa estrutura permite que o CI funcione como uma anarquia, onde o diálogo físico substitui a hierarquia tradicional da dança, mas também abre para as problemáticas que isso traz e a importância do cuidado constante em dar os limites necessários para o foco ser C.I. e não outra coisa. A borda existe, existem conceitos básicos e fundamentais dessa prática que comunicam que é ou não, existe uma origem, uma história e é importante que isso não seja esquecido entre as gerações.

Essa democratização reflete-se, sobretudo, em corpos com diversas habilidades e histórias, desafiando a ideia de que a dança pertence apenas a tipos físicos específicos. Ao subverter o modelo social de como olhamos para o corpo, o C.I. permite que a experiência possa ser um espaço para a construção de uma outra narrativa coletiva, onde a sensibilidade, a inteligência e o estudo do corpo transcendem a ideia de limitação funcional.

É nesse trabalho de disseminação que o Núcleo Improvisação em Contato se insere: para quem deseja conhecer este universo, a pesquisa do Núcleo Improvisação em Contato oferece um material pedagógico vasto, unindo a fisicalidade do CI à criação cênica e a preparação corporal. Através de cursos, oficinas e Jams, o NIC compartilha a ideia de que o CI é uma dança que potencializa o estudo do movimento e das relações.

Entender a dramaturgia no Contato Improvisação e na Improvisação em dança é reconhecer que o corpo que dança está, a todo momento, escrevendo e editando sua própria história no espaço. Como conclui Ricardo Neves, a importância do percurso reside em aprender sobre si mesmo, escolhendo o tempo todo no calor da improvisação com treino e estudo.

 

Referências

KEOGH, Martin. Notas de pesquisa de ensino: pérolas encontradas. Tradução de Pedro Penuela. In: NÚCLEO IMPROVISAÇÃO EM CONTATO. Contato Improvisação: conceitos, princípios e ensino. [São Paulo]: Radar Cultural Gestão e Projetos, [2021]. p. 17-115. Tradução da Parte II do livro Dancing Deeper Still.

KREITER, Jo. Espelho na parede: uma visão de dentro de um dueto de contato. Tradução de Maíra Simões Claudino dos Santos. In: NÚCLEO IMPROVISAÇÃO EM CONTATO. Contato Improvisação: conceitos, princípios e ensino: traduções da revista Contact Quarterly. [São Paulo]: Radar Cultural Gestão e Projetos, [2021]. p. 189-192. Originalmente publicado em: Contact Quarterly, v. 19, n. 2, 1994.

PAXTON, Steve. A queda depois de Newton. Tradução de Pedro Penuela. In: NÚCLEO IMPROVISAÇÃO EM CONTATO. Contato Improvisação: conceitos, princípios e ensino: traduções da revista Contact Quarterly. [São Paulo]: Radar Cultural Gestão e Projetos, [2021]. p. 85-90. Transcrição da narração do vídeo Fall After Newton (1987).

PTASHEK, Alan. O corpo em movimento: um curso integrado. Tradução de Pedro Penuela. In: NÚCLEO IMPROVISAÇÃO EM CONTATO. Contato Improvisação: conceitos, princípios e ensino: traduções da revista Contact Quarterly. [São Paulo]: Radar Cultural Gestão e Projetos, [2021?]. p. 153-157. Originalmente publicado em: Contact Quarterly, v. 17, 1992.

SMITH, Nancy Stark. Colheita: uma história do contato improvisação. Tradução de Pedro Penuela. In: NÚCLEO IMPROVISAÇÃO EM CONTATO. Contato Improvisação: conceitos, princípios e ensino: traduções da revista Contact Quarterly. [São Paulo]: Radar Cultural Gestão e Projetos, [2021]. p. 281-298. Palestra proferida no Festival Internacional de Contato de Freiburg, Alemanha, 2005.

Portal MUD

Portal MUD

Ver Perfil

Portal MUD é uma plataforma online desenvolvida para quem faz a dança acontecer no Brasil! Tudo sobre dança em um clique: história, memória, notícias, divulgação de eventos, um mural dos profissionais, academias, empresas e a difusão de metodologias de renomados professores brasileiros. Todos os serviços são oferecidos online e podem ser usufruídos a qualquer horário e de qualquer lugar.