Foto do Evento Correria com os artistas: Victor Morita, Nani Naan, Lucas Rampazo, Maia Mazamboni, Wallace Jovanovichi e Felipe Batista.
Pergunta capciosa, afinal já vimos um ator hollywoodiano comentar sobre não se importar com a dança e Ópera, desmerecendo toda a rede artística, história e pesquisa. Vimos repentinamente a automação tomar conta dos nossos dias, como também um distanciamento sensível com a forma que nos relacionamos com o nosso corpo.
Em um mundo hiperconectado, entre aplicativos e métricas esportivas, corpos esculturais e looks perfeitos, a imagem do corpo agora é uma visão distorcida: alta performance, métricas de sucesso inatingíveis e uma apatia com sentimentos e sensações para além da felicidade instantânea. Longe de julgamento, estamos todos imersos a esse sistema, ora nadando a favor e às vezes contra. A questão é, como estamos pensando o nosso corpo no meio desse turbilhão de informações.
Difícil descrever nesse único texto uma fração da imagem do corpo atual, mas é inegável não utilizar uma citação de Helena Katz:
Não devemos esquecer que a cultura agora não mais se separa do mercado, porque se transformou em economia política da cultura, imersa nas marcas internacionais, na superabundância de informações, imagens e divertimentos midiáticos (Katz, 2011, p.16).
Então, o que seria realmente se importar com as artes da cena? Ou melhor, o que seria se importar com imagens que vão além da alta performance? Mais que perguntas, é como o papel da arte deve ser sobre multiplicar visões, colocar em debate assuntos delicados e tocar, literalmente ou não, a nossa sensibilidade.
Refletir sobre o papel do corpo na contemporaneidade é poder emergir a vida fora dos feeds infinitos, afinal, é indissociável pensar numa ruptura. A questão é como conciliamos as imagens híbridas do on e offline através de práticas que realizam um choque de linguagens, uma mistura de gerações e ancestralidade com o presente, que evoca em nós tantas imagens que o corpo apenas possa dançar sem receios.
E então, que surge de fato, a dúvida desse texto, por quê ainda se importar com o corpo?
Estamos pensando o corpo mais como um espaço de automatização ou cultivo? Iniciar a questão com essa paisagem mental traça muito bem a maneira como mídias, imagens, redes sociais e sociedade moldam uma ideia sobre o corpo. Por um lado, pensamos o corpo como um recipiente eficaz, forte, preciso e por outro, como um espaço de experiência, onde registramos informações, sentimos emoções e unimos pensamento com o corpo somático.
Quando Helena Katz comenta: “Um corpo nunca existe em si mesmo, nem quando está nú. Corpo é sempre um estado provisório de informações que constitui como corpo. Esse estado vincula-se aos acordos que vão sendo estabelecidos com os ambientes onde vive” (Katz, 2011,p.22). Ela comenta sobre uma série de mudanças filosóficas em relação ao corpo e mente, e desde Foucault, Merleau-Ponty a fenomenologia do Século XX, a maneira como compreendemos informação e ambiente, altera a nossa percepção corporal.
Se importar com o corpo, ainda é falar sobre algo que resiste! Que apesar das imagens que se colocam em meio a turbilhão de informações, Call to Action, superlotação, guerras, crises sociais, pobreza, Deep Fake, Inteligência Artificial. O corpo se mantém como um rio, fluindo entre as informações.
Dessa maneira, o corpo resiste pela sua humanidade, elasticidade e desejo de se recriar e assim, como escreve Christine Greiner em “Articulações do Corpomídia na dança”: “deixando de analisar o corpo como um objeto representado na mídia, para compreendê-lo como mídia de si mesmo” (Greiner, 2010, p.29), é a metáfora perfeita para falar sobre arte.
É entre informação, recepção e análise de informação que há duas coisas: o corpo e o espaço. Nesse conjunto, como criamos informações, como a arte pode romper estruturas imagéticas e conduzir novos pensamentos. Conceber um corpo sensível que soma e subtrai informações, mas sobretudo, constrói em si novas conexões.
E para isso, a dança importa muito! A dança possivelmente tem a mesma idade que o corpo, assim, mais que falar de antiguidades, é comentar sobre uma prática que atravessa a evolução, conecta sentidos, sensações, situações/condições e por fim, nossa história. A dança é muito mais que a estética, das linguagens artísticas e escolásticas. É um ato que exercemos ao decorrer da nossa evolução.
Para além das técnicas em dança, a história da linguagem do corpo que dança é rodeada de ligações que conectam cultura, espaço, tempo, hábitos, política e sociedade. O gesto revela comportamentos que estão intrínsecos em nossa cosmogonia, e portanto, gostaria de destacar a importância da dança contemporânea.
A dança contemporânea é muito mais que a dança sobre o hoje, mas sobre como:
Nesta lógica, pertencer a contemporaneidade asseguraria o vínculo com o presente, a filiação ao próprio tempo, o ser ―a expressão mais aguda da ―nossa época […]. Nesta concepção restrita do contemporâneo, falta justamente o espaço para o que chamamos de experiência do extemporâneo, que rompe com o presente histórico (Quilici, 2009, p.3 apud Xavier, 2012, p.42).
O que falamos de contemporaneidade é também sobre obras que acontecem hoje, mas substancialmente, de obras que evocam o acontecimento que extrapola o passado, presente e futuro. Afinal, quem nunca assistiu uma obra e sentiu que se tratava de um tema atemporal?
O corpo dentro da dança contemporânea carrega a volatilidade e potência de si, dentro de novos paradigmas, conceitos e liberdade. O gesto carrega agora um poder que atravessa os sentidos. É o que a Jussara Xavier referência com a escrita de Louppe em seu livro Poétique de la danse contemporaine: “―corpo crítico, termo que designa um artista que dispõe no corpo um pensamento sobre o mundo, que coloca em cheque os habituais esquemas de representação e questiona as formas de produção espetacular” (Xavier, 2012, p.48).
Para manter viva a radicalidade do gesto, é bem-vindo compreender a sua vitalidade, compreender esse corpo como um organismo potente, retomando a ideia da autora Christine Greiner ― que há uma conexão intrínseca entre movimento com os objetos do mundo, essa constante elaboração de sentido entre cinésio tátil engendra novas possibilidades, que se transformam em ação no mundo. (Greiner, 2005, p.122).
E o que podemos considerar com isso? Que o corpo, especificamente, o corpo-vivo que dança, pode experimentar os estados físicos-psicológicos como treinamento, revisitar técnicas e escolásticas, mas sobretudo, desestabilizar a si, outros corpos e o ambiente. Por meio de experiências artístico-existenciais (Greiner, 2005, p.123).
O corpo se mantém em evolução, apesar de lidarmos com muito mais informações que qualquer sociedade anterior. E apesar da imagem corporal atual comprometer a nossa subjetividade, podemos fazer um exercício de cultivar o corpo para além da automatização que nos envolve. Que o ambiente virtual e físico que nos circundam se torne um jogo móvel, onde a dança, o gesto e toda expressão artística sejam manifestações da nossa vitalidade, energia e radicalidade.
Respondendo a pergunta, a dança importa, a arte importa, pois, sempre será necessário nos lembrar que a vida existe no limiar entre existir e produzir. Mas sobretudo continuar sentindo!
Referências
• GREINER, Christine. Articulações do Corpomídia na Dança. Revista Ensaio Geral, Belém, p. 22-29, 2010.
• GREINER, Christine. O corpo: pistas para estudos. São Paulo: Annablume, 2005.
KATZ, Helena. Do que fala o corpo hoje? In: ALTEMEYER JUNIOR, Fernando; BOMBONATTO, Vera Ivanese (org.). Teologia e comunicação: corpo, palavra e interfaces cibernéticas. São Paulo: Paulinas, 2011. cap. 1.
• XAVIER, Jussara Janning. Acontecimentos de Dança: corporeidades e teatralidades contemporâneas. Florianópolis: Udesc, 2012.
Gabriel Paleari