A dançarina, coreógrafa, atriz e pedagoga Elsa Wolliaston, uma das figuras mais influentes da dança contemporânea europeia desde os anos 1970, morreu na quinta-feira, 12 de março, em Paris, aos 80 anos. A artista faleceu no hospital Georges-Pompidou em decorrência de um câncer, após décadas de atuação intensa na criação, pesquisa e ensino da dança, atividade que manteve até as últimas semanas de vida.
Instalada na França desde o final da década de 1960, Wolliaston construiu uma trajetória marcada pela experimentação estética e pela investigação das relações entre corpo, música e ritual. Reconhecida por sua presença cênica magnética e por sua atuação pedagógica, ela se tornou uma referência na formação de artistas e no desenvolvimento de uma dança contemporânea que dialoga com tradições culturais africanas e com a improvisação.
Mesmo nos últimos anos, a coreógrafa manteve uma agenda ativa de workshops, performances e colaborações. O percussionista Jean-Yves Colson, parceiro artístico desde 1984, relatou que os dois ainda realizavam oficinas pouco antes da morte da artista. Segundo ele, a interação entre música e movimento nas criações de Wolliaston permitia experiências cênicas em que músicos e dançarinos compartilhavam o mesmo espaço expressivo.

Ao longo de sua carreira, Elsa Wolliaston criou cerca de quarenta espetáculos e desenvolveu diversos duetos com Colson, além de colaborar com diretores de teatro como Peter Stein e Luc Bondy. Sua produção também incluiu participações no cinema, com papéis em filmes como Magdala (2022), de Damien Manivel, e Goutte d’or (2022), de Clément Cogitore.
Em maio de 2025, a artista organizou o evento performativo L’Envol de la marche, apresentado no Centre Pompidou, em Paris. A criação foi concebida como uma celebração coletiva em diálogo com a exposição Paris noir. Circulations artistiques et luttes anticoloniales 1950-2000, dedicada às conexões culturais e políticas entre artistas negros na segunda metade do século XX.
A morte da coreógrafa provocou reações de diversos artistas nas redes sociais. A coreógrafa Régine Chopinot descreveu Wolliaston como “livre para sempre”, enquanto a pesquisadora e coreógrafa Cécile Proust afirmou que a artista possuía uma dança capaz de “convocar os deuses”.
Elsa Wolliaston nasceu em 28 de junho de 1945, na Jamaica, filha de um pai originário do Kenya e de uma mãe panamenha nascida na Colômbia. Parte da infância foi vivida no país de seu pai, onde foi criada pela avó e teve contato com tradições culturais e rituais que mais tarde influenciariam profundamente sua linguagem artística.
Na adolescência, mudou-se para New York para viver com a mãe. Foi nesse período que iniciou sua formação em dança clássica, entre 1962 e 1964, estudando com a professora Alexandra Danilova. Apesar das limitações impostas pelo racismo estrutural da época – que, segundo relatos da própria artista, dificultavam seu acesso a determinados papéis no balé clássico – Wolliaston continuou sua formação artística.
Posteriormente, aprofundou seu interesse pela dança contemporânea ao entrar em contato com as pesquisas coreográficas de Merce Cunningham, cuja abordagem baseada na exploração do movimento e no uso do silêncio influenciou decisivamente sua prática artística. Paralelamente, estudou piano na Carnegie School of Music and Dance.
Em 1969, Elsa Wolliaston mudou-se definitivamente para Paris, onde frequentou aulas com o coreógrafo Jerome Andrews. Na capital francesa, começou rapidamente a desenvolver suas próprias criações, apresentadas inicialmente no American Center, espaço cultural importante para o surgimento da chamada “nova dança francesa”.
Foi nesse período que conheceu o saxofonista Steve Lacy, com quem criou projetos que combinavam música improvisada e dança. Em 1975, fundou a companhia Ma Danse-Rituel Théâtre ao lado do artista japonês Hideyuki Yano. Entre 1975 e 1986, os dois desenvolveram diversas obras coreográficas que cruzavam referências culturais africanas, asiáticas e ocidentais, como Salomé (1985) e Ishtar et Tamouz (1986).
Antes mesmo da criação da companhia, Wolliaston já havia iniciado uma intensa circulação internacional. A partir de 1970, apresentou performances em diferentes países africanos, com destaque para o Niger, onde apresentou o trabalho La Fleuve em 1974. Durante esse período também aprofundou pesquisas sobre rituais ancestrais e práticas corporais tradicionais.
Após o encerramento da parceria com Yano, a coreógrafa continuou produzindo obras de forma independente. Entre elas está o espetáculo Réveil (1998), inspirado na obra Le Sacre du Printemps, com música original de Bruno Besnaïnou, colaborador frequente da artista.
Além da criação coreográfica, Wolliaston atuou intensamente como pedagoga. Ministrou cursos e workshops em diversos países e ensinou dança contemporânea de inspiração africana em instituições internacionais. Também treinou atores em movimento em centros teatrais como Theaterhaus Interkurst e Theatertreffin, em Berlin.
Sua concepção artística partia da ideia de que a dança nasce do caminhar e do ritmo do corpo em relação ao espaço. Em entrevistas, a coreógrafa afirmava que, em muitas tradições africanas, “a dança é o voo da caminhada”, uma imagem que sintetiza sua pesquisa sobre o movimento cotidiano transformado em gesto poético.
Esse interesse pelos rituais também esteve presente em obras como Rituel (1977), uma de suas primeiras criações, apresentada em um espaço cercado por velas. Para Wolliaston, o objetivo da dança não era produzir movimentos esteticamente perfeitos, mas criar uma experiência compartilhada entre artista e público.
Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, Elsa Wolliaston percorreu diversos países, entre Estados Unidos, França, África e Ásia, desenvolvendo projetos que integravam improvisação, música ao vivo e pesquisa cultural. Sua trajetória foi marcada por colaborações artísticas, pela curiosidade diante de diferentes tradições e por uma busca constante por novas formas de expressão do corpo em cena.
Fonte: Reportagem de Rosita Boisseau publicada no jornal Le Monde [https://www.lemonde.fr/disparitions/article/2026/03/13/elsa-wolliaston-choregraphe-et-danseuse-americaine-a-la-trajectoire-bouillonnante-est-morte_6671100_3382.html]
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