Emma Goldman discursando em pé sobre um carro durante um ato no Union Square Park, em Nova York, 1916. Foto: Getty Images.
Todos os anos, no Dia Internacional da Mulher, uma frase aparece em cartazes, manifestações, performances e trabalhos artísticos:
“Se eu não puder dançar, não é minha revolução.”
A frase costuma ser associada à ativista anarquista Emma Goldman (1869–1940), uma das figuras mais influentes dos movimentos políticos e feministas do início do século XX.
Não há consenso absoluto sobre a forma exata em que a frase teria sido dita ou registrada. O que se sabe é que a ideia aparece claramente em um episódio narrado por Goldman em sua autobiografia Living My Life, publicada em 1931.
Um episódio em um baile durante uma greve
No livro, Emma Goldman relata um momento ocorrido enquanto participava da organização de greves de trabalhadoras. Parte desse trabalho envolvia reuniões, encontros culturais e também bailes organizados para mobilizar as operárias.
Foi em um desses bailes que um jovem militante a criticou por dançar com entusiasmo, dizendo que “dançar não era próprio de um agitador” e que aquilo não era adequado para alguém envolvido na causa revolucionária.
Goldman respondeu com indignação. No livro, ela escreve:
“Mergulhei no trabalho com todas as minhas forças e estava tão absorvida por ele que nada mais existia. Minha tarefa consistia em conseguir que as moças que pertenciam ao ofício apoiassem a greve. Com esse objetivo foram organizados comícios, concertos, encontros e bailes. Nesses acontecimentos sociais não era difícil fazer as moças compreenderem a necessidade de fazer causa comum com seus irmãos em greve. Eu tinha de falar frequentemente e cada vez me perturbava menos subir à tribuna. Minha fé na justiça da greve ajudava-me a dramatizar minhas exposições e transmitir convicção. Em poucas semanas meu trabalho levou muitas moças a participar da greve.
Eu estava viva novamente. Nos bailes era uma das mais alegres e incansáveis. Uma noite, um primo de Sasha, um rapaz muito jovem, levou-me de lado. Com gravidade, como se fosse anunciar a morte de um companheiro querido, sussurrou-me que dançar não era próprio de um agitador. Pelo menos não com tanto abandono. Era indigno de uma pessoa que estava a caminho de se tornar alguém importante no movimento anarquista. Minha frivolidade só faria mal à Causa.
A insolência do rapaz me deixou furiosa. Disse-lhe que cuidasse de seus próprios assuntos; estava cansada de que sempre me atirassem à cara a Causa. Não acreditava que uma Causa que defendia um ideal maravilhoso — o anarquismo, a libertação das convenções e dos preconceitos — exigisse a negação da vida e da felicidade. Insisti que a Causa não podia esperar de mim que me tornasse uma freira e que o movimento não deveria ser transformado em um claustro. Se significasse isso, eu não queria saber nada dela.
Quero liberdade, o direito de me expressar livremente, o direito de todos às coisas belas.” — Emma Goldman, Living My Life, 1931.
Corpo, liberdade e revolução
O episódio revela uma dimensão importante do pensamento de Emma Goldman: a ideia de que a luta política não deveria exigir a renúncia à alegria, ao corpo ou à liberdade de viver.
Com o tempo, essa passagem passou a ser associada à frase que circula hoje em movimentos feministas e artísticos:
“Se eu não puder dançar, não é minha revolução.”
Seja como síntese, interpretação ou citação indireta, a frase continua ecoando especialmente em campos artísticos como a dança, onde o corpo é também espaço de expressão política.
No 8 de março, ela lembra que a luta por direitos sempre esteve ligada não apenas à sobrevivência, mas também à possibilidade de viver com liberdade, dignidade e alegria.
Que o 8M seja também um convite para imaginar e construir um mundo em que as mulheres possam viver com autonomia e plenitude.
Um mundo em que seus corpos possam ser livres para ocupar as ruas, os palcos e a vida.
Portal MUD