Renda Básica para artistas serem artistas: essa é uma realidade possível

Experiência irlandesa testa se o dinheiro público sem amarras pode revolucionar a Cultura

Um programa piloto inédito do governo da Irlanda está pagando a 2.000 artistas um valor fixo de 325 euros por semana (atualmente, equivalente a pouco mais de 2 mil reais), sem exigências ou contrapartidas, para investigar se uma renda básica garantida pode transformar a vida profissional e a produção cultural no país. Com um orçamento anual de 33,8 milhões de euros, a iniciativa tem como objetivo principal avaliar se a segurança financeira mínima liberta o potencial criativo dos trabalhadores da cultura, que frequentemente dependem de empregos precários para se sustentar.

A seleção dos beneficiários foi realizada de forma aleatória entre mais de 8.200 candidatos considerados elegíveis, que precisaram comprovar sua atuação profissional nas áreas de artes visuais, teatro, literatura, música, dança, circo, cinema ou arquitetura. A ministra da Cultura, Catherine Martin, afirmou para o New York Times que a qualidade do trabalho dos artistas não foi um critério de escolha, mas sim a comprovação de sua atividade na área. Os 2.000 selecionados receberão o pagamento por três anos, enquanto um grupo de controle de 1.000 artistas, também escolhidos aleatoriamente, não receberá qualquer valor, permitindo uma comparação científica dos resultados.

Entre os beneficiários que concordaram em relatar sua experiência está o ilustrador Ian Fay, de 32 anos, que afirmou ao NYT estar pronto para abandonar a carreira artística antes de ser selecionado. “Se eu não tivesse isso, não estaria fazendo arte hoje”, disse ele, explicando que a renda cobre seu aluguel e reduz a ansiedade sobre contas, proporcionando “tempo para praticar e desenvolver minha arte”. A roteirista Lydia Mulvey, de 47 anos, deixou seu emprego em uma empresa de telecomunicações para se dedicar integralmente à escrita de roteiros, chamando a experiência de “transformadora”.

O fotógrafo Mark McGuinness, de 31 anos, destacou a mudança prática em sua rotina: antes do benefício, ele gastava a semana toda em trabalhos comerciais para pagar despesas; agora, consegue dedicar dois dias por semana exclusivamente à produção de obras para exposições de arte. A ministra Catherine Martin, que é cantora de formação, defende o programa argumentando que “a preocupação em garantir o sustento realmente afeta a criatividade dos artistas” e que a iniciativa busca “dar a eles espaço para trabalhar”.

Para medir o impacto de forma rigorosa, o governo irlandês coleta dados detalhados através de questionários enviados aos participantes a cada seis meses. As perguntas abordam desde a situação financeira e a carreira artística até indicadores de bem-estar e saúde, incluindo a capacidade de aquecer a casa adequadamente ou comprar proteína regularmente. A análise comparativa com o grupo de controle visa gerar evidências sólidas para a política cultural.

Apesar do apoio bipartidário, o programa enfrenta questionamentos. Aengus Ó Snodaigh, porta-voz cultural do partido de oposição Sinn Féin, questiona se o dinheiro não seria mais bem aplicado em fundos direcionados a artistas em dificuldades comprovadas e expressa preocupação com possíveis tensões em coletivos onde apenas alguns integrantes são beneficiados. Ele defende a liberação de dados parciais antes do fim dos três anos para evitar que os artistas enfrentem um “abismo” financeiro ao término do piloto.

O experimento irlandês se insere em um movimento global crescente de testes de renda básica voltada para artistas, como o projeto Creatives Rebuild New York, nos Estados Unidos. A singularidade do programa na Irlanda está no seu caráter estatal e na metodologia de avaliação robusta, que pode servir de modelo para outras nações. Enquanto aguardam os resultados oficiais, os beneficiários vivem uma corrida contra o tempo. “Três anos é um período muito curto e já se passaram seis meses”, reflete Lydia Mulvey, que trabalha intensamente para garantir que não precise “voltar a um emprego convencional quando isso acabar”.

 

Fonte: Reportagem de Alex Marshall, publicada em 23 de março de 2023 no The New York Times, intitulada “Irlanda pergunta: E se os artistas pudessem abandonar seus empregos convencionais?”

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