Trecho de vídeo publicado nas redes sociais de Carlinhos de Jesus. Reprodução: @carlinhosdejesus
Recentemente, o artista da dança Carlinhos de Jesus compartilhou, em entrevista à Revista VEJA, um relato sobre a atual relação com seu corpo, enfrentando lesões causadas pelo intenso trabalho com a dança em seus 40 anos de carreira. Após aparecer publicamente utilizando muletas e cadeira de rodas, o artista veio a público explicar que tem lidado com um quadro de bursite trocantérica bilateral, complicada com tendinite nos glúteos.

Carlinhos de Jesus. Foto: @alvimfotografia/Divulgação
Carlinhos de Jesus declarou para a jornalista Anita Prado que “depois de uma vida inteira dedicada à dança, estar hoje em uma cadeira de rodas causa um choque. As pessoas ficam confusas. Nunca me imaginaram assim, muito menos eu, que conquistei tudo rebolando, como costumo dizer.” Aos 72 anos, o artista enfrenta o desafio de reinventar sua dança, sua metodologia de aulas, ao mesmo tempo que busca cuidar do seu maior instrumento de mediação com o mundo: o corpo.
Ainda há muito movimento para emergir dessa figura da dança brasileira e seu grande repertório e consciência corporal apontam para uma expectativa promissora de recuperação. Contudo, esse momento enfrentado pelo artista traz à tona uma inevitável discussão acerca das perspectivas de futuro das pessoas trabalhadoras da dança e suas possibilidades de usufruir de uma velhice digna com acesso à saúde, cultura e educação.
Em 2023, um grupo de artistas da dança paulistana levantou esse debate com o espetáculo “Corpos Velhos – Para que servem?”. A pergunta, presente no título da obra, já buscava tensionar as ideias pré-estabelecidas relacionadas ao corpo velho. Apresentando as contradições existentes no mundo da dança e seus reflexos na sociedade, Célia Gouvêa, Décio Otero, Iracity Cardoso, Luis Arrieta, Lumena Macedo, Marika Gidali, Mônica Mion, Neyde Rossi e Yoko Okada subverteram os sentidos do verbo “servir”. Propuseram um discurso dançado capaz de questionar a definição de trabalho relacionada às lógicas produtivistas e utilitaristas do corpo, seja ele artista ou não, e explicitaram os impulsos revolucionários que a maturidade é capaz de provocar no mundo.

Espetáculo “Corpos Velhos – Para que Servem”. Foto: Silvia Machado
Dirigidos pelo próprio Luis Arrieta e inspirados em movimentos que nascem da improvisação, os artistas revelaram ao público suas limitações de mobilidade, as readaptações do corpo e as marcas que as longas carreiras na dança deixaram em seus corpos. Encontraram no desequilíbrio, nas dores, na ausência de força física e no tempo dilatado uma infinitude criativa capaz de ressignificar a velhice e de fomentar a dança como trabalho vital de expressão, criação e partilha de sentido.
O espetáculo “Corpos Velhos – Para que Servem?”, assim como o caso de Carlinhos de Jesus, proporcionam aprendizados a serem absorvidos cuidadosamente pela juventude trabalhadora da dança. As cicatrizes físicas e simbólicas deixadas pela intensa exploração do corpo mostram que realizar práticas fundamentadas na saúde corporal e na experiência subjetiva do movimento são caminhos importantes. Contudo, é preciso confluir essas práticas com projetos políticos que buscam romper com o individualismo neoliberal.
Compreender os propósitos da arte no meio social, através da história, bem como reconhecer-se como base fundamental para a construção de um contexto emancipatório, são movimentos urgentes que dançarinas e dançarinos precisam inserir em seus repertórios criativos. Nesse mesmo sentido, é necessário que artistas da dança disponham seus corpos para a consciência e participação plena em esforços coletivos dedicados à sustentabilidade de políticas que transformam a maneira como o trabalho é organizado.
Em 2015, o deputado Carlos Zarattini (PT), em articulação com uma frente de trabalhadores e ativistas da dança, apresentou um Projeto de Lei Complementar que reconhece a atividade dos artistas da dança como profissão, garantindo o direito à aposentadoria após 25 anos de contribuição ao INSS.
São 10 anos de luta, em meio a uma série de retrocessos relacionados aos direitos trabalhistas (reforma da previdência, uberização, pejotização, etc). Sandro Borelli, um dos artistas envolvidos nessa articulação, afirma que essa PLP “é um projeto difícil de passar. Precisaria de um empenho muito grande da frente parlamentar, como bandeira de luta. Mas o problema é que enfrentamos várias lutas ao mesmo tempo e tudo fica diluído”.
O direito à aposentadoria não está relacionado ao abandono do trabalho, mas sim à escolha de uma pessoa em permanecer ativa por convicção, desejo e propósito, um empenho primordial no processo de construção da democracia cultural. A garantia de uma velhice digna, com acesso à saúde, moradia, transporte, alimentação e educação, é a projeção de uma continuidade de vida criativa que subverte um presente de exploração ao qual a juventude está submetida.
A dignidade do trabalho artístico é inegociável. Sustenta-se na solidariedade entre gerações e na criação de estratégias que enfrentam as políticas de boicote à coletividade. Unificar os debates da dança e ampliá-los para o campo político expandido é essencial. O futuro da dança depende da recusa em servir como engrenagem descartável e da coragem de inscrever, em corpos jovens e velhos, as coreografias de uma emancipação que só se realiza em comum.
Referências Bibliográficas
PRADO, Anita. Carlinhos de Jesus, sobre a batalha para andar de novo: “Não vou largar o palco por nada”. VEJA, São Paulo, 22 ago. 2025. Disponível em: https://veja.abril.com.br/comportamento/carlinhos-de-jesus-sobre-a-batalha-para-andar-de-novo-nao-vou-largar-o-palco-por-nada/. Acesso em: 29 ago. 2025.
BRASIL. Câmara dos Deputados. PLP 190/2015 – Estabelece aposentadoria especial aos 25 anos de contribuição na atividade de profissional da dança. Apresentado por Carlos Zarattini (PT-SP), em 10 nov. 2015. Disponível em: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2053471. Acesso em: 29 ago. 2025.
Rubia Galera