O patriarcado historicamente rotula a dança como uma “atividade feminina”. Essa perspectiva e todo seu mecanismo de controle já apresenta um grande problema. Um setor pode ser majoritariamente ocupado pelas mulheres porque elas representam a maioria da mão de obra. Porém, quando se trata de liderança e tomada de decisões, são os homens que geralmente detêm o poder.
Dados recentes do Data Dance Project (DDP) mostram que, em 2023, apenas 29% das diretoras artísticas de companhias de ballet no mundo eram mulheres, contra 71% de homens. O número representa uma queda em relação a 2021, quando elas ocupavam 33% dessas posições, evidenciando um retrocesso na participação feminina em cargos de liderança.
A disparidade se agrava quando se analisam remuneração e reconhecimento. Mulheres em cargos de direção artística recebem, em média, 68% do salário de seus colegas homens, e apenas uma mulher aparece entre os dez diretores artísticos mais bem pagos do setor. Na criação coreográfica, a desigualdade também é expressiva: homens assinaram cerca de 79% a 81% das obras apresentadas nas principais companhias entre 2018 e 2020.
Especialistas apontam que esse fenômeno revela um paradoxo: a presença massiva de mulheres na base dessas profissões não se traduz em poder decisório. “Quanto maior a companhia e sua influência, maior a probabilidade de ser liderada por um homem”, afirma Elizabeth “Liza” Yntema, fundadora do DDP.
No campo do ballet, estudos acadêmicos aprofundam as razões dessa desigualdade. Pesquisa da SWPS University, conduzida pela pesquisadora Emilia Cholewicka, mostra que fatores como competição intensa, exigências físicas extremas, valorização de padrões corporais rígidos e estruturas educacionais hierarquizadas contribuem para afastar mulheres de posições de liderança.
O estudo também aponta que homens são frequentemente favorecidos desde a formação, recebendo mais oportunidades e avançando mais rapidamente na carreira. Em companhias polonesas analisadas, mulheres representavam 59% da força de trabalho e quase o dobro dos bailarinos, mas permaneciam em minoria nos cargos mais altos.
Além disso, mecanismos culturais e institucionais sustentam esse ciclo de desigualdade. Como os cargos de liderança na dança costumam ser ocupados por quem já estava em posições de destaque como bailarino, um ambiente marcado por hierarquias rígidas, competição permanente e critérios pouco transparentes tende a favorecer homens desde a formação, limitando o acesso das mulheres aos espaços de liderança.
Segundo Cholewicka, a ausência de mulheres em cargos de decisão impacta diretamente a produção artística, influenciando repertórios, narrativas e a própria construção do legado da dança. A pesquisadora defende que mudanças estruturais, incluindo políticas institucionais e maior visibilidade para coreógrafas, são essenciais para reverter o quadro.
Outros setores seguem lógica semelhante. Na indústria da beleza, por exemplo, profissões historicamente femininas passaram a ser dominadas por homens nos níveis mais altos, especialmente em áreas de prestígio, como o styling de celebridades e a liderança de grandes marcas.
Analistas afirmam que a raiz do problema está em padrões sociais que associam mulheres à execução e homens à liderança. Essa divisão reforça a ideia de que participação não significa necessariamente poder, mantendo barreiras invisíveis à ascensão de profissionais mulheres.
A transformação passa por redefinir o conceito de liderança como algo neutro em termos de gênero, além de implementar políticas de equidade salarial, incentivo à liderança feminina e revisão de práticas educacionais e institucionais. Sem essas mudanças, a tendência é que o chamado “monopólio masculino” continue a se reproduzir, mesmo em espaços onde as mulheres são maioria.
Fonte: ANAGHA BP. Ballet, Culinary, and Fashion: The male monopoly in so-called women’s worlds. Changeincontent, 23 jan. 2025. Disponível em: https://www.changeincontent.com/the-male-monopoly-in-womens-worlds/. Acesso em: 1 abr. 2026.
SWPS UNIVERSITY. “Men evoke more confidence”, or why so few women are in leadership positions in ballet. EurekAlert, [s.d.]. Disponível em: https://www.eurekalert.org/news-releases/1082362. Acesso em: 1 abr. 2026.
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