Estudo revela invisibilidade do artista nos EUA: precariedade financeira e falta de dados ofuscam impacto do setor cultural

Um estudo, divulgado em novembro de 2025 pela NORC na Universidade de Chicago, traça um retrato detalhado e inédito da precária realidade econômica dos artistas nos Estados Unidos. Financiado pela Mellon Foundation, a pesquisa ouviu mais de 2.600 profissionais de diversas disciplinas e modalidades de trabalho, revelando um cenário de vulnerabilidade onde a luta para cobrir despesas básicas é frequente e os sistemas de apoio são frágeis.

De acordo com os dados, a maioria dos artistas está longe do estereótipo glamuroso, 57% dos entrevistados relataram estar “um pouco ou muito preocupados” com a capacidade de pagar por “comida, habitação, cuidados médicos ou serviços públicos”. Além disso, 37% dependem de alguma forma de assistência pública, como Previdência Social (Social Security) ou auxílio-local estadual, para complementar a renda.

A instabilidade é agravada pelas condições de trabalho: 34% dos artistas são trabalhadores autônomos e 11% “se viram” em três ou mais empregos simultaneamente. Outro dado alarmante mostra que 28% prestam assistência não remunerada a um familiar ou amigo devido a uma condição de saúde, sobrecarregando ainda mais suas finanças. A pesquisa foi liderada pela cientista sênior Gwendolyn Rugg, da NORC, uma organização de pesquisa apartidária.

Gonzalo Casals, que encomendou o estudo quando era senior policy fellow para arte e cultura na Mellon Foundation e hoje é co-diretor do Culture and Arts Policy Institute, ressalta a importância crucial dos dados. “Sem esses dados, você é invisível”, afirmou. Para ele e para os pesquisadores, a falta de informações consistentes sobre a vida dos artistas os torna uma força de trabalho “invisível”, dificultando a criação de políticas públicas eficazes.

Os resultados contrastam fortemente com relatórios que frequentemente destacam apenas o impacto econômico positivo das artes e os benefícios sociais da educação artística. Profissionais do setor, como Kerri-Noelle Humphrey, diretora executiva do Alabama Dance Council, veem na pesquisa uma ferramenta vital. Ela utiliza estudos para angariar fundos e conscientizar o público, argumentando que muitos apreciadores “não entendem o processo. Eles apenas veem o resultado”. Humphrey cita, por exemplo, que a maioria dos dançarinos em companhias não têm seguro saúde, uma contradição em uma carreira de alto desgaste físico.

Gwendolyn Rugg acredita que “os melhores programas e políticas estão sempre enraizados em dados”, mas reconhece que muitas organizações artísticas têm uma “alergia a dados, decorrente de uma combinação de falta de desejo ou falta de recursos”. Para combater isso, a NORC não apenas publicou os resultados completos do estudo, mas também disponibilizou publicamente o “instrumento de pesquisa” (survey instrument), permitindo que outras organizações repliquem a metodologia.

“Passamos bem mais de um ano construindo este instrumento de pesquisa que consideramos metodologicamente muito sólido”, explicou Rugg. “Compilamos as melhores perguntas de várias fontes de dados e criamos questões novas onde identificamos lacunas. Ao liberar publicamente este instrumento, a esperança é que outras pessoas na área possam utilizá-lo da maneira que desejarem no futuro”.

A pesquisa surge em um contexto onde museus enfrentam dificuldades, subsídios governamentais e de fundações são precários e onde, durante a pandemia, casas de espetáculos estiveram entre os primeiros locais a fechar e os últimos a reabrir. O estudo pretende ser um ponto de partida para mudar essa realidade, dando visibilidade e substância estatística à comunidade artística.

 

Fonte:

Relatório “Artists and their Livelihoods: A National Survey” da NORC na Universidade de Chicago, financiado pela Mellon Foundation.

Pesquisa Nacional de Artistas: Relatório de Resultados

Estudo Nacional de Artistas: Relatório Técnico

A divulgação dos dados e as declarações dos pesquisadores e especialistas foram reportadas originalmente pela NPR em 19 de novembro de 2025, em matéria intitulada “As a labor force, artists are ‘invisible.’ A new survey tries to change that”. [https://www.npr.org/2025/11/19/nx-s1-5611445/2025-norc-artist-labor-survey]

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