
Crédito: Praia de Camburi, São Sebastião/SP.
O Dia Internacional de Conscientização sobre o Ruído (International Noise Awareness Day -INAD) é comemorado nesse mês, em abril. No final do ano o Novembro Laranja é dedicado à conscientização sobre a saúde auditiva no Brasil. A Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, trata de crimes ambientais e considera a poluição sonora uma contravenção. Esther Melcon, da ONG ACCCA (Associação Catalã Contra a Contaminação Acústica), declara: “O ruído não é um incômodo, é um problema de saúde pública (…)”.
Neste texto, traduzo e avalio como usuária as práticas nacionais e internacionais bem-sucedidas para o conforto acústico, como o uso de fones de ouvido, protetores auriculares, aplicativos e algumas medidas nas áreas da comunicação, arquitetura, urbanismo, pedagogia, design e arte que podem colaborar para a difusão de produtos, comportamentos e direitos em relação ao tema.
De modo geral, podemos controlar a distância entre os corpos, mas não há escapatória no caso do som, os ruídos da cidade entram na vida privada, em todos os cômodos da casa. A poluição sonora não está somente relacionada com a dinâmica e intensidade, ou seja, a um volume alto ou baixo, mas também envolve o excesso dos tipos diferentes de timbres e características. O resultado desses excessos foi descrito pelo filósofo Arthur Schopenhauer, em On Noise, sobre sons “que paralisam o cérebro, rasgam o fio da reflexão e assassinam o pensamento”.
No livro A Afinação do Mundo, Raymond Murray Schaefer cita o relato feito por Tobias Smollet no século XVIII, quando descreve os sinos do guarda noturno nas ruas: “começo cada hora do meu sono com o terrível barulho do guarda noturno”. Além disso, Schaefer cita diferentes registros antes da Revolução Industrial, da indignação contra os ruídos da cidade, dentre eles, sons de sinos, carroças, bandas de metal e órgãos: “ sinos horríveis de ouvir”, “o rangido das rodas faz o sangue gelar”, “doze em ponto e gelando”, “minha capacidade de trabalho está sendo destruída por essa perturbação”. No texto On Noise, Schopenhauer também se refere ao barulho dos chicotes nas carroças: “(…) esse maldito estalar de chicotes não é apenas desnecessário, mas também inútil (…)”. Esses relatos mostram que a poluição sonora não está relacionada somente com a paisagem moderna das grandes metrópoles.
No mesmo livro, Schaefer discute o som como uma forma de poder na construção das leis sobre o barulho excessivo. Apesar de todas as reinvindicações e da evolução dos projetos de lei antes do século XX, escreve que: “nenhuma parte da legislação europeia jamais foi dirigida contra os sinos, de longe o mais alto dos sons”.
A maioria dos trabalhos acadêmicos que pesquisaram sobre os sinos esteve focada nas igrejas, nas badaladas centralizadas, vistas e ouvidas por todos. Porém, esse instrumento existe em todo o mundo, com funções e estéticas completamente diferentes. Em pesquisas de campo sobre danças e músicas de diferentes regiões, observei a presença dos sinos no Brasil, em manifestações populares brasileiras, em rituais de candomblé, no maracatu rural, e em algumas folias de reis. Na Croácia, acompanhei um cortejo carnavalesco em que os sinos pareciam representar a genitália masculina, reproduzindo o movimento pendular do sexo. Essa manifestação era realizada para espantar a morte. No Japão, dizem que o sino é sinal de boa sorte. Na cultura védica, o som dos sinos dá origem à terceira etapa da criação do universo, que corresponde à percepção corporal e muscular.
Considerando uma interpretação mais simbólica é possível pensar que os diferentes significados do som ao longo da história construíram a subjetividade das angústias relacionadas à audição. No livro Vozes Plurais, a filósofa Adriana Cavarero exemplifica a importância que os hebreus dão à vocalização do nome de Deus, que deve ser resguardado dada a relação que se faz entre o som e o sagrado. Deus é som, antes de ser a semântica da palavra. Essa valorização se manifesta através, por exemplo, no movimento pendular feito pelos hebreus (e muçulmanos), movimento que se faz com a coluna durante a oração, um movimento rítmico para frente e para trás.
Na cultura védica, o fenômeno acústico deu origem ao universo. Com medo da morte, os deuses se esconderam no som, pois ele era o único imortal. Através da sílaba mística “Om”, o que era uno se fragmentou através da mudança de frequência gerando nove etapas da criação do universo. É fascinante o fato de que os deuses se esconderam “no” som, que indica um lugar, uma espacialidade. Essa interpretação é só mais uma evidência da contaminação acústica sentida pelo ser humano.
Como foi descrito por Shaefer, certos aspectos da tecnologia acústica ainda não haviam sido criados nas construções civis. Hoje em dia, mesmo com essa tecnologia, ela é pouco utilizada. Em 2020, um grupo de arquitetos se reuniu para discutir acústica ambiental e poluição sonora. Marcos Holtz e Ernani Machado foram convidados do programa Arquicast, e ofereceram informações valiosas. Os arquitetos comentaram que a questão acústica é vista somente no planejamento de teatros e salas de concerto, e que o barulho excessivo tem piorado a cada ano, sendo necessárias medidas urgentes na área.
Segundo eles, a primeira medida a ser tomada seria colocar em prática a lei 7579, aprovada em 2016, que estabelece uma medida limite de ruído para as construções civis. No caso de problemas entre vizinhos é possível medir a quantidade de ruído produzido com uma fonte sonora dodecaédrica e um martelo. No site proacustica.org.br há um manual disponível para download. Quando o barulho passa do limite, o responsável pela construção precisa fazer adaptações para se adequar às normas, como por exemplo a troca das portas e janelas. Entre os problemas mais comuns no Brasil, os especialistas afirmam que as portas são as menos elaboradas, e comentam também que dificilmente é possível modificar o conforto acústico sem modificar a arquitetura.
Instalei o programa Sound Meter no celular. Ele mede o volume do som, e permite avaliar a poluição sonora em cada ambiente. Embora não seja um medidor profissional, pode servir como evidência para barulhos acima do limite em alguns casos.
Na área do urbanismo existem os aplicativos Hush Siri e Soundprint, que mapeiam áreas silenciosas, e melhores opções para a cidade, como pavimentos e ônibus alternativos menos ruidosos. Instalei o aplicativo Soundprint no celular e achei a ideia boa, mas é preciso educar os usuários sobre os diagnósticos. Restaurantes descritos no aplicativo como silenciosos não estão adequadamente classificados para pessoas que têm sensibilidades auditivas mais acentuadas. Ou seja, esses mapas poderiam incluir não somente o parâmetro de medida do volume do som (decibéis), como também da tipificação dos principais sons em um determinado ambiente. Nos restaurantes e cafés, um dos principais problemas é o som das louças. Assim, a ausência de abafadores acústicos poderia ser um critério de avaliação.
Esses abafadores acústicos já existem. Encontrei, na área do design, um projeto chamado Quiet Ware Dishes. Foram criados amortecedores de aro removíveis para empilhamentos, tapetes removíveis para redução extrema de ruídos, barulhos das batidas de empilhar e limpar pratos, e dos rangidos provocados entre superfícies e utensílios.
Há também o Programa Silêncio, pelo qual empresas que fabricam eletrodomésticos como liquidificadores secadores de cabelo e aspiradores de pó são obrigados a colocar o Selo Ruído em seus produtos, para que o consumidor possa escolher o aparelho menos ruidoso. No site do Ibama há também um passo a passo para denúncias de restaurantes, estabelecimentos comerciais e construções civis que ultrapassem as normas estabelecidas pela ABNT.
Em apartamentos ou casas com pouco isolamento acústico, o barulho de animais pode gerar um grande problema entre vizinhos. No caso de cachorros que latem muito, recomendo o zootecnista formado pela USP, Alexandre Rossi. Ele também poderá orientar sobre a audição dos animais como vítimas da poluição sonora. Rossi propõe um método para acostumar os cães aos sons de rojões e indica protetores auriculares para animais.
A entrevista do Arquicast traz à tona outro tema: a profissão do artista, principalmente dos músicos que precisam estudar em casa. Para músicos que não têm uma casa acusticamente adequada, uma medida mais rápida é estudar com abafadores, surdinas e espumas. Eu utilizo um pano sobre os instrumentos durante os meus estudos, para abafar idiofones e membranofones. Durante a prática é possível tocar algumas vezes sem abafamento, mas não o estudo inteiro. No caso de bailarinos que treinam em apartamentos é preciso forrar o chão e há soluções no site do Proacustica.
Comprei um fone de ouvido da marca Bose. Lembro de ter escutado: ” Você vai gastar esse tanto de dinheiro só por causa de um fone de ouvido?”. Fiquei em dúvida, mas no fim acabei investindo no aparelho, e foi a melhor escolha possível. Um bom fone antirruído nos dá a dimensão da influência da poluição sonora em nosso corpo, além de apaziguar e proteger contra o abuso de estímulos externos. Recomendo também a massinha auricular Cassell-Massey. Ela não é vendida no Brasil, mas é possível encontrá-la na internet.
Durante a pandemia assisti a uma reunião organizada pelo Misophonia Institute, na Califórnia, na qual especialistas de diferentes áreas discutiram livremente sobre opções para melhorar a qualidade de vida. Para alguns participantes o uso constante do fone antirruído acentuou a sensibilidade auditiva, portanto foi sinalizado que é preciso usá-lo com parcimônia. Outra observação feita no congresso foi a necessidade de conscientizar adolescentes do ensino médio sobre a poluição sonora no momento de escolha de suas carreiras. Se a sensibilidade auditiva for maior é preciso considerar uma profissão em que seja viável trabalhar em um espaço próprio e acusticamente protegido.
Caso não seja possível comprar o fone antirruído, o ideal, por enquanto, é usar um fone normal com a tiara que cubra toda a orelha e escutar música quando for necessário. Isso funciona melhor do que a massinha. Mesmo assim, esse protetor auricular é o melhor que já usei.
Existem normas contra a poluição sonora no trânsito, e aprendemos sobre elas no curso de condutores. Há um limite para excesso de barulho do motor. No entanto, sabemos por experiência própria que ninguém respeita essa lei. O site do Programa Silêncio pode oferecer orientações sobre essa questão. Pesquisando informações sobre o assunto, encontrei matérias em destaque sobre ações em Nova York e Barcelona, que adotaram medidas mais concentradas de fiscalização e que servem de exemplo.
Essas normas poderiam se estender pelo Brasil, por exemplo, para os cinemas, com sessões que proíbam alimentos na sala, assim como a proibição de alimentação dentro do transporte público, como existe em Malta, além da proibição do uso de eletrodomésticos aos domingos, como existe na Alemanha. No entanto, os moradores não respeitam as normas. Por experiência própria, apesar de me hospedar em Stuttgart, em um Airbnb, houve muito barulho no andar de cima do quarto em que eu estava.
No litoral de São Paulo, em São Sebastião o uso de aparelhos sonoros é proibido. Na praia de Camburizinho há uma placa referente à Lei municipal 2506 de 2017, que proíbe o uso de som alto na praia e em logradouros públicos. Não fossem grandes placas na praia, o silêncio dificilmente seria respeitado.
O som excessivo pode causar estresse e desatenção no ambiente profissional. A lei 101. MR15 (ruídos ocupacionais), estabelece diretrizes para prevenção e o controle da exposição a ruídos e define por quanto tempo você pode ficar exposto a um ruído quando estiver trabalhando. É por isso que o home office é necessário e urgente. Dessa forma, os profissionais podem controlar o volume do áudio e adicionar legendas. Porém, é preciso lembrar que o home office não é adequado para todas as pessoas. Um trabalhador que mora em um bairro com pouca estrutura, por exemplo, vive em um ambiente com uma escassez enorme de conforto acústico em sua própria casa.
Nos últimos anos realizei a formação de professores de arte da rede municipal de São Paulo. Atendi mais de 20 municípios e diversas escolas. A maioria das estruturas que compõe a sala emite um ruído intenso. Como uma medida mais simples e urgente, é preciso colocar protetores acústicos nas mesas e cadeiras, para evitar o rangido dos móveis contra o chão, mesmo que os protetores sejam feitos de um tecido simples. Também é preciso considerar o mapeamento sonoro de cada escola e de cada aula, bem como o combinado de ações a serem feitas. Existem estudos e normas para saúde auditiva na escola. Para os alunos com maior sensibilidade, é preciso incentivar o uso de fones de ouvido e permitir que saiam da sala com mais frequência.
Como bailarina e percussionista, sinto falta de uma diversidade maior de espaços para dança com propostas acústicas que nasçam da escuta dos desejos dos bailarinos sobre o resultado artístico do som. Como disse Tom Zé, na entrevista para o canal Arte 1: “O microfone é um sensor estético do sistema. Esse som da furadeira que é estranho, único e por isso mesmo bonito, o microfone à primeira vista não vai aceitar e vai querer transformar ele em um violino. É preciso um técnico de som muito bom que possa entender isso, e enganar o microfone, enganar o sistema para captar todas as nuances do som da furadeira”. O objetivo não é aniquilar o ruído, mas encaminhá-lo para seus guardiões, os artistas e os espaços de arte.
Por que, então, é importante diminuir a poluição sonora? Além do fato de que produzir som em excesso é crime, existem também alguns problemas de audição que vêm crescendo na população mundial por conta do barulho intenso.
No jornal Oeco, Esther Melcon, da ONG Accca (Associação Catalã Contra a Contaminação Acústica), explica: “O ruído não é um incômodo, é um problema de saúde pública (…) A incidência direta sobre o aparelho auditivo se manifesta com, por exemplo, tinnitus (zumbidos no ouvido) e surdez. A indireta, com falta de descanso e estresse derivado de uma exposição continua a partir de 65 decibéis em infartos, problemas respiratórios, agravamento de doenças mentais, acidentes por cansaço e falta de atenção, transtornos do sono etc (…)”
O professor Brian Moore, do Departamento de Psicologia da Universidade de Cambridge, respondendo à uma entrevista ao grupo de audiologia na Conferência de Tinnitus em 2020 responde, diante de uma pergunta sobre a causalidade da poluição sonora em transtornos da audição, como no caso do tinnitus: “Por evidências, depois que uma pessoa fica exposta a muitos sons intensos, possa experienciar tinnitus por um curto período de tempo. Mas também se sabe que a exposição à longos períodos de barulho excessivo também causem eventualmente um dano permanente, então definitivamente existe uma associação aí”.
Além do tinnitus e da surdez, também há a misofonia, a hiperacusia, a fonofobia, a poliacusia, a diplacusia etc. Dentre elas, a misofonia é a mais comum. Cada pessoa com misofonia tem um “som gatilho”, que é o som que desencadeia um grande mal-estar. Apesar de os gatilhos variarem, o mal-estar é comum, em maior ou menor grau: o coração acelera, há um aumento da tensão muscular, e a impossibilidade de permanecer em locais barulhentos. Todos nós temos um nível de tolerância ao ruído, mas nem todos se incomodam a ponto se isolarem socialmente. Já existem casos de suicídio por causa da misofonia.
Na área médica, encontrei artigos publicados pelo Misophonia Research Fund (MRF), citado em outros tantos trabalhos e que estabeleceram como primeira tarefa definir o que é misofonia. Das nomenclaturas votadas pelo conselho de especialistas, a palavra “transtorno” foi considerada como mais adequada. Esse estudo deixa evidente o fato de que uma série de informações circula de forma precipitada na mídia, sem comprovação. Também não é possível afirmar que a misofonia que acomete a maioria da população é a mesma que ocorre no caso do autismo, pois os sons que causam mal-estar são diferentes em cada caso.
É importante citar relatos de pessoas encontrados em textos e romances do mundo, como fez Schaefer, pois são relatos que descrevem sensações de forma mais cuidadosa, o que talvez ajude na compreensão de alguns transtornos da audição.
Hoje em dia, é possível encontrar programas como o podcast Misophonia, de Adeel Ahmad e ouvir as experiências de muitas pessoas. O slogam do programa é “cuidadosamente editado para evitar sons gatilho”. Também existe o programa Fractais, focado nas neurodivergências. Muitos músicos, bailarinos e atores que têm sensibilidades auditivas aguçadas compartilham suas experiências nas redes sociais. Por prestarem atenção excessiva ao próprio corpo, com o objetivo de aprimoramento profissional, os estímulos sonoros se tornam muito mais presentes do dia-a-dia.
Participei de um curso de audiodescrição oferecido pelo Sesc, um recurso para pessoas cegas. Nesse caso, é possível selecionar uma modalidade digital que transforma em áudio a leitura da escrita apresentada, inclusive em redes sociais. Se alguma pessoa cega suspeitar que sofre de misofonia recomendo advertir os audiodescritores sobre a edição dos gatilhos.
Não indico expor ao público material sonoro que possa ser um provável gatilho para pessoas com misofonia, nem mesmo em espetáculos, pois isso não seria inclusivo. Há outras formas de abordar o tema e a criatividade existe para isso.
Parte do mal-estar generalizado pode ser causado pelo excesso de barulho. Talvez muitas pessoas já tenham as sensibilidades da audição afloradas, mas ainda não saibam identificá-las. Se você percebe a influência do barulho na sua vida, além do fone de ouvido e das informações passadas por meio desse texto é recomendada uma mudança de comportamento. Por exemplo, sair em horários e dias menos ruidosos, evitar restaurantes e bares, propor programas mais caseiros ou em locais silenciosos que você já conhece, explicar a sua condição e propor melhores escolhas para evitar sofrimento. Se essas medidas forem tomadas, será possível administrar transtornos da audição, como a misofonia. E é importante a convivência com pessoas que entendam e respeitem isso.
É dever de todos lutar por mais oportunidades de conforto acústico.