Crédito: Rita Carmo
Juntamente com as festividades carnavalescas brasileiras, com estreia no dia 22 de janeiro e turnê até o dia 22 de fevereiro de 2026, no Teatro Liberdade, em São Paulo/SP, a companhia portuguesa Vortice Dance Company apresenta “Carmina Burana Ballet”, com coreografia de Cláudia Marins e Rafael Carriço. São Paulo foi a primeira cidade brasileira a receber a obra. Mesmo em um período concomitante ao carnaval, que para nós brasileiros, é a maior festividade anual do nosso calendário, estar em turnê nessa temporada não é tarefa fácil; como diz no dito popular, “é preciso ter culhão” para tal feito. Ainda assim, nesse contexto, “Carmina Burana” precisou abrir sessões extras, dada a elevada procura do público paulistano.
A Vortice Dance Company foi fundada no dia 29 de abril de 2001, sim, no Dia Mundial da Dança, em Fátima, cidade localizada a 126 km da capital portuguesa, Lisboa, pelos coreógrafos e bailarinos Cláudia Marins e Rafael Carriço. Desde então, a companhia tem se destacado no cenário internacional, com trabalhos em dança contemporânea. A cantata “Carmina Burana” baseia-se em um manuscrito composto por poemas e textos datados dos séculos XI, XII e XIII; são escritos cômicos e, em sua maioria, satíricos e provocativos, predominantemente em latim.
O espaço do Teatro Liberdade, por si só, chama a atenção. Trata-se de uma casa de espetáculos bem gerida, com um bom palco e excelente projeção de visão da plateia. Com esses atributos é impossível não se impressionar com sua arquitetura tão imponente. Antes do início do espetáculo, um singelo aviso: talvez o teatro poderia ficar sem energia e, como a apresentação também depende de projetores, poderiam ocorrer alterações. Quem reside em São Paulo provavelmente já vivenciou um apagão. Em bairros mais remotos e distantes do centro, moradores chegam a permanecer horas e, por vezes, dias sem energia elétrica: sem luz, com perda de alimentos, sem banho. É incrível como isso tem se tornado a nossa marca. Até na arte! No entanto, apesar da chuva (e nós sabemos que ela não precisa ser intensa para que fiquemos no escuro), tudo transcorreu bem durante a apresentação.
Logo no início do espetáculo, fomos bombardeados pelo videomapping e com a música estrondosa do compositor alemão Carl Orff (1895-1982). A obra coreográfica começa em tom de exagero: informações visuais e sonoras são disparadas sem qualquer timidez. O corpo de baile entra em cena, ainda singelo diante da imponência do videomapping. Nesse momento, de maneira precipitada, questionei-me: até que ponto o uso dessa linguagem (videomapping) não engole a cena? Como pode o corpo duelar com algo de tamanha magnitude? Existe uma linha muito tênue entre as linguagens somarem-se ou minguarem. Todavia, em “Carmina Burana”, o corpo dialoga com o videomapping e, em alguns momentos, as composições coreográficas se sobressaem, tornando-se o foco da cena.
Um elemento que merece destaque são os figurinos, cuidadosamente compostos. Sobressai a nuance inteligente construída a partir da nudez. Desde os anos 1990, a nudez tem tornado-se cada vez mais presente, sobretudo na cena contemporânea, em trabalhos europeus e americanos (Dantas, 2010). O nu é, acima de tudo, político: refere-se a uma escolha. Assim como o figurino, os dançarinos precisam estar vestidos pela narrativa, pela dramaturgia da obra (Dantas, 2010). Contudo, é importante salientar que o nu em “Carmina Burana” não apresentou-se de forma convencional; ele se presentifica sob uma chave bufonesca. Os seios à mostra são de plástico, exageradamente grandes; as saias compõem quadris avantajados; às pequenas calcinhas vermelhas expostas acabam por ironizar a objetificação e sexualização do corpo da mulher.
Em diálogo com o atual período paulistano, o Bufão reina no Carnaval: seu poder reside no excesso, em performar o discurso e o imagético, na subversão por meio da fisicalidade, escárnio, deboche, riso, sagrado, profano, lucidez, sexulidade, entre outros. Essa figura consegue ativar, na platéia, instintos como desejo, medo e alegria. Sua estética grotesca, construída pelo corpo, provoca estranhamento ou repulsa, mas também evidencia seus vigores (Brondani, 2017). À medida que apreciamos a construção coreográfica, percebemos os elementos do bufão conectarem-se à dramaturgia proposta de maneira estruturada, sem que tais atributos se sobreponham à cena ou permanecem à margem.
Ao final, “Carmina Burana” reafirma a potência do encontro entre linguagens quando estas não competem, mas se tensionam produtivamente. Entre o imagético do videomapping, a grandiosidade sonora de C. Orff e a presença concreta do corpo a partir da coreografia, a cena constrói um equilíbrio instável e é justamente nesses entres que reside sua força. A nudez bufonesca, longe de ser mero recurso estético, instaura uma reflexão sobre poder, desejo e espetacularização, dialogando tanto com a tradição evocada pela obra quanto com o imaginário contemporâneo e carnavalesco paulistano. O grotesco, o exagero e o riso não operam como ornamento, mas como estratégia crítica. Assim, a obra coreográfica da Vortice Dance Company demonstra que, mesmo diante da magnitude tecnológica e sonora, o corpo permanece insubstituível: é nele que a dramaturgia ganha densidade, que a ironia se materializa e que a arte encontra sua dimensão política. Em tempos de apagões, concretos e simbólicos, a cena reafirma a luz que emana da presença.
Referências
BRONDANI, Joice Aglae. O BUFÃO: A COMÉDIA, A CENA E O JOGO. Arte da Cena (Art on Stage), Goiânia, v. 3, n. 2, p. 041–058, 2017. DOI: 10.5216/ac.v3i2.49813. Disponível em: https://revistas.ufg.br/artce/article/view/49813. Acesso em: 18 fev. 2026.
Dantas, M. F. (2011). 11- CORPOS NUS E SEMINUS NA COREOGRAFIA CONTEMPORÂNEA: INTIMIDADE E EXPOSIÇÃO EM AQUILO DE QUE SOMOS FEITOS E EM BUNDAFLOR BUNDAMOR. O Percevejo Online, 2(2). https://doi.org/10.9789/2176-7017.2010.v2i2.%p
VORTICE DANCE COMPANY. Productions. Disponível em: https://www.vorticedance.com/productions. Acesso em: 19 fev. 2026.
DANÇA, inovação e magia: os bastidores da Vórtice Dance Company. Campeão das Províncias, Coimbra, 23 dez. 2023. Disponível em: https://www.campeaoprovincias.pt/2023/12/23/danca-inovacao-e-magia-os-bastidores-da-vortice-dance-company-2/. Acesso em: 19 fev. 2026.
Nailanita Prette