CALENDÁRIO DA DANÇA

Temporada de Dança do Alfa

Domingo, 17 de Outubro de 2021 | por Henrique Rochelle |

2021 vai ter Temporada de Dança do Teatro Alfa. Como se produz um grande evento em tempos de pandemia?

Em 2004 o Teatro Alfa lançou sua primeira Temporada de Dança. Estendida ao longo do segundo semestre, com espetáculos brasileiros e estrangeiros, e organizando um importante sistema de assinaturas, a temporada se tornou um dos pontos tradicionais da dança em São Paulo. Espaço raro pra receber destaques da produção nacional em grande escala, e companhias internacionais que às vezes não dançam em nenhum outro palco.

Como todo o mundo, o Alfa e a Temporada de Dança foram surpreendidos no começo de 2020 pela pandemia, e só agora começam a conseguir reorganizar suas atividades, com um tanto de trabalho e disposição que já fizeram a marca desse empreitada. Em 2018 o Alfa bancou a programação de dança entrando no vermelho e fazendo dívidas pra segurar os 4 milhões que custaram trazer Pina Bausch, Philippe Decouflé, Mats Ek e Ana Laguna, pra dançarem junto do Grupo Corpo, Deborah Colker e São Paulo Companhia de Dança.

É uma proposta sempre atrevida. Enfrentar as situações em que faltam recursos e faltam incentivos, e responder com mais produção. Os produtores de dança, de todos os tamanhos e origem, entendem essa lógica, da qual ninguém escapa.

2020 chegaria com uma temporada de companhias que já conheciam a casa. O Ballet du Grand Théâtre de Genève, da Suíça e a Cloud Gate Dance Theatre, de Taiwan encontrariam a SPCD, a Mimulus, e o Corpo, que celebraria seus 45 anos em uma temporada de três semanas com diversas obras. O teatro anunciou suas atrações, mas com a paralização das atividades, nem chegou a abrir as vendas das assinaturas e a temporada foi indeterminadamente adiada.

Foge da compreensão de muita gente o tempo e a organização desse tipo de agenda. A programação que seria assistida no segundo semestre de 2020 já estava finalizada em maio de 2019. Pra abrir as vendas em maio de 2020, por exemplo, os contratos com as companhias são fechados em outubro de 2019. É por isso que causa um impacto o anúncio da temporada 2021. Criada a partir da liberação do aumento da ocupação dos teatros, a temporada foi organizada entre agosto e setembro, e abriu ontem, 16 de outubro.

Desde o início da pandemia o teatro enfrenta dificuldades, em 2021 tendo reduzido o quadro de funcionários e os salários para se manter, ainda que com o apoio dos patrocinadores. Sem dinheiro em caixa, as tratativas se esforçaram em fazer acontecer a temporada possível pra esse momento, inteiramente focada em companhias brasileiras: desde o adiamento de 2020, o Alfa havia decidido que, quando fosse possível voltar, privilegiariam os nacionais.

É essa a temporada que chega agora ao palco. Com curadoria de Fernando Guimarães, Gerente Técnico Operacional e de Programação, e João Carlos Couto (Janjão), com consultoria da ex-superintendente do teatro Elizabeth Machado, entre outubro e novembro, com estreias da SPCD, Grupo Corpo, e Deborah Colker. Ainda pendente está o Quebra Nozes da Cisne Negro Companhia de Dança, tradicional do natal paulistano.

Enquanto acontece essa temporada, o teatro já trabalha na organização e financiamento das temporadas de 2022 e 2023, a caminho dos 20 anos desse evento contínuo e atualmente único no cenário da dança.

É essa a cara da dança desse momento. Em todos os níveis, em todas as formas de fazeres, em todos os espaços, todo o povo da dança se olha, e olha pra onde a dança pode ir agora. Ainda existe muito receio, muito temor, e não sem razões. Mas olhamos adiante, esperando a dança que ainda está por vir. No Alfa, e em tantos outros espaços de São Paulo.


* Henrique Rochelle é crítico de dança, membro da APCA, doutor em Artes da Cena, Professor Colaborador da ECA/USP, e editor do site Outra Dança

*Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete a opinião do Portal MUD.


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Henrique Rochelle

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