MUSEU DA DANÇA

Danças indígenas, simbologia e folclore

Imagem: Tribo Xavante Pimentel Barbosa, de Água Boa/MT, 1989 | Quarta, 04 de Novembro de 2020 | por Portal MUD |

Maria Cristina de Freitas Bonetti, da Universidade Estadual de Goiás (UEG) e Coordenadora Adjunta de Pesquisa do Campus Pirenópolis, é mestre e doutora em Ciências da Religião (PPGCR- PUC-Goiás), onde atuou na linha de pesquisa Cultura e Sistemas Simbólicos, coordenou grupos de pesquisa sobre o Sagrado Feminino, área que é especialista e sobre a qual defendeu seu doutorado "O Sagrado Feminino e a Serpente: Performances Ritualísticas na Simbologia das Danças Circulares Sagradas". 

É folclorista, etnógrafa, analista em cultura (SeCult), escritora, pesquisadora, terapeuta corporal transpessoal (DEP) e focalizadora de Danças Circulares Sagradas, dentre tantas outras atividades interessantíssimas. 

Apresentamos, a seguir, um trecho de um depoimento sobre sua vivência com danças indígenas:


Como começou seu interesse pelas danças indígenas?

Sou paulista radicada em Goiás desde 1972. Quando eu decidi vir para Goiás para terminar meus estudos, eu já pensava em conhecer aldeias indígenas por aqui, uma vez que em São Paulo essa questão é muito distante. Sinceramente, não sabia o que me movia. Muitos anos depois, eu soube por um primo que a minha avó materna tinha na sua genética traços dos povos indígenas, uma vez que descendia de Bandeirantes que adentraram o coração do Brasil e retornaram para São Paulo com família constituída a partir da matriz de mulheres indígenas. No entanto, esse era um assunto proibido, pois que meu avô era de família tradicional da Ilha da Madeira. Meu interesse pelas danças indígenas iniciou quando eu aprofundei meus estudos na cultura popular brasileira, e percebi a não valorização dos nossos povos tradicionais. Como esse assunto não tinha muita importância para a academia, e também era muito difícil o acesso a ele, esperei uma oportunidade para que esse contato surgisse.


Conte-nos algumas simbologias presentes em algumas danças indígenas que são marcantes para você e por quê?

Falar de simbologia nas danças dos povos indígenas é um pouco complicado, uma vez que vou interpretar a partir dos meus estudos acadêmicos aliados aos ensinamentos dos mestres que tive desse conteúdo. Quando estamos na Aldeia assistindo algum ritual temos uma sensação diferente e não é mental. Por outro lado, quando eu levo essas experiências e ensinamentos para a sala de aula é necessário que eles sejam decodificados. Portanto, é o que vou procurar fazer aqui.

O que chama a atenção num primeiro plano é a forma: o Círculo, e toda a sua representação em qualquer cultura. É uma figura geométrica que nos ensina olhar o todo. Uma visão global, e não linear. No círculo não tem hierarquia e todos são responsáveis para a manutenção da forma. Portanto, é necessário a ajuda mútua e assim nos sentimos apoiados. Dançar em roda é uma forma de estar conectado com o todo, além das distâncias serem iguais. Existem sempre alguém a minha frente e nas minhas laterais. Eu sinto que tenho o apoio do grupo.

No sentido da forma coreográfica, encontrei danças em linha (Ritual da Tucandeira-AM), as quais faziam desenhos no chão de acordo com o seu caminhar, significando o caminho que percorrem para superar os desafios. Também deparei com outras formas simbólicas, uma vez que depende do significado da dança para que esse trajeto ocorra enquanto ela se desenvolve.

Outro fator importante é o bater dos pés no chão. Num mundo tão virtual em que vivemos na atualidade é muito importante esse aterramento, ou seja, estar conectado com a realidade. Na maioria das danças, os braços estão fortemente unidos e temos o sentido de coesão, união, elos fortemente construídos. Em muitas danças, o peito/tronco está voltado para o chão para estar em contato com a Mãe Terra, e assim não perdemos essa conexão. Os povos indígenas têm consciência do valor da Mãe Terra, eles sabem que são filhos e produtos dela. E a respeitam.

Encontramos ainda, simbolismos bem interessantes em relação aos pés (abrir e fechar, para frente e para trás), assim como com as mãos (se elas batem no peito, se imitam o toque do tambor ou se movem em direção ao céu). Muitos significados têm sentido apenas para eles, e somos nós que interpretamos de acordo com a nossa compreensão.

O que eu percebi de muito importante nas danças dos povos indígenas é que para eles tudo tem um sentido, e nada é feito por fazer. A vida deles é povoada de significados e, portanto, ela tem uma forte conotação do sagrado. Não o sagrado teológico das religiões. Mas o sagrado de estar conectado com o Todo, com a natureza e com tudo o que é vivente.


Em toda sua experiência com estudo e prática de danças indígenas, que reflexões são as mais fortes referentes a presença das danças indígenas no folclore brasileiro?

Primeiro, gostaria de reafirmar que as atividades indígenas não são Folclore, mas, sim, cultura ancestral e tradicional. Elementos dessa cultura foram associados aos colonizadores europeus, e na sequência com os africanos. Dessa forma, a partir de elementos culturais tradicionais desses três povos foi constituída a base da nossa cultura. Dessa fonte, nasceu o nosso Folclore.

A dança folclórica desenvolve-se em cada país conforme o temperamento (idiossincrasia), os costumes, a identidade cultural e a tradição de cada povo. É um conjunto de tradições vivenciadas por um grupo de pessoas que se identificam por compartilhar elementos culturais ou étnicos comuns, caracterizados por um sincronismo de sons e movimentos que expressam a história e os sentimentos. E assim explica Bernhard Wosien (2000, p. 27): “O homem vivencia na dança a transfiguração de sua existência, uma metamorfose transcendente de seu interior, relativa ao ser e também à elevação ao seu eu divino. A dança, como na forma de uma imagem característica e móvel, é o próprio sagrado”. Neste sentido, evidencia-se que a dimensão sagrada da dança folclórica se manifesta pela sua presença em nossa vida e nos apropriamos delas, e podemos, a partir daí, vivenciar a essência de um povo na sua tradução artística.

Compreendendo que a dança folclórica/ tradicional faz parte da memória e identidade do povo, sendo a sua manifestação artístico-religiosa e cultural realizada através da transmissão de processos indiferenciados de interpretação do povo, observa-se que a sua fruição e reflexão são práticas da tradição oral, simbólica e gestual que contribuem para o conteúdo do imaginário na formação cultural dessas comunidades. Da mesma forma, a elaboração das danças ritualísticas diferencia as imagens de acordo com o espaço tempo a que estão sujeitas, e entendemos que são fatos ocorridos na construção cultural do humano. Por sua vez, encontra-se, nestas danças, um aspecto tradicional, que é transmitido tanto oral (história, origem e ensino da dança), quanto gestual, que são os padrões dos jogos simbólicos e coreográficos, que é a antiguidade da própria dança que “Canta e Conta a sua História com os Pés”. As danças folclóricas e populares tradicionais estão presentes desde o início da colonização, ao celebrarem momentos importantes da vida do povo brasileiro. Os Jesuítas foram os primeiros a cooptar a cultura dos povos indígenas para poder catequizá-los.

Em São Paulo, na Região do Tietê, aconteciam as concentrações dos desbravadores do sertão brasileiro, os quais buscavam ouro e outras oportunidades no país que estava se formando. Os padres Jesuítas também interferiram na recriação destas danças no Brasil, uma vez que tinham o interesse de catequizar os índios e assim aproveitavam elementos dos seus rituais e passos das suas danças para torná-las acessível nas suas pregações ritualísticas, nas quais as danças eram um componente fundamental. Um ponto que os Jesuítas interferiram de forma mais definida foi em relação ao conteúdo das letras, uma vez que seu interesse era de evangelizar os silvícolas. Desta forma, devido ao pouco esclarecimento e reconhecimento dos códigos indígenas, nossas danças folclóricas possuem esta influência, mas poucos sabem decodificar e reconhecer esses códigos nas nossas danças folclóricas.



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