MURAL DA DANÇA

Dança, saúde mental e o corpo em experiência

Imagem: Espetáculo deslocado. AVOA 2016. Foto Felipe de Galisteo | Quarta, 27 de Setembro de 2023 | por Luciana Bortoletto |

Será que as danças promovem impactos positivos na saúde mental? O que pode ser colocado em perspectiva ao relacionarmos uma à outra?  Neste escrito, proponho uma reflexão sobre o modo como a dança agencia experiências de autorregulação, contribuindo para a saúde mental.

Se considerarmos que sentimentos e emoções, tais como: medo, ansiedade, angústia, euforia, alteram a frequência e intensidade de batimentos cardíacos e da respiração, modificam o nosso tônus, produzem ainda outros sintomas físicos, como sensação de boca seca, vista turva, alteração da escuta e resposta a estímulos no ambiente, e muitos outros, já temos aqui algumas pistas para afirmar que há uma ligação entre o que chamamos de “mente” e o que chamamos de corpo”, não é mesmo?  Da mesma maneira, o engajamento de todo o corpo no ato de dançar, incluindo a respiração, a percepção do tempo e a tridimensionalidade os movimentos corporais no espaço, agenciam transformações em nossos pensamentos, gestos, redimensionam os afetos naquele momento, estimulam nossa expressividade, percepção de centralidade, disponibilidade… Enfim, ao dançar nos lançamos à experiência de pensar com todo o corpo, integralmente!

Nesse sentido, podemos dizer que corpo e mente não estão separados, definitivamente e que as danças - independente de um segmento, estilo ou pensamento específico - promovem experiências[1] de conexão com nossas subjetividades impressas em nossas corporalidades e vice-versa. Elas nos convocam ao momento presente, regulam nossos pensamentos e emoções à medida em que vivenciamos o movimento e experimentamos outras maneiras de nos relacionarmos com o meio.

Nas danças com abordagens somáticas[2], por exemplo, a construção de conhecimento durante os estudos de técnicas e códigos de dança, ocorre enquanto sentimos e percebemos nossas estruturas, nossos sistemas corporais: envolve o toque, a atenção à respiração e apoios, aos ajustes internos para exteriorizar forma, intenção e poder de expressão e comunicação.

Por exemplo, segundo explicação da pesquisadora Bonnie Bainbridge Cohen, o sistema esquelético

 “dá ao corpo a forma básica pela qual podemos nos locomover no espaço, esculpir e criar formas de energia no espaço(...). Por meio da corporalização do sistema esquelético, a mente torna-se estruturalmente mais organizada, proporcionando a base de apoio para os pensamentos, a alavanca para as ideias e (...) os espaços  entre as ideias para a articulação e a compreensão dos seus relacionamentos”.[3]

Essa citação trata de apenas um aspecto, entre tantos,da existência de uma mente do corpo. Tocar os ossos, explorar a relação articular entre eles, sentir suas dimensões e densidades, entregar-se à gravidade, brincar com ela, desafiar-se às práticas de queda e recuperação, giros, apoios, alavancas… Respirar profundamente, permitir-se viver uma experiência concreta do corpo em movimento mobiliza e cria outras perspectivas de mundo possíveis, com uma consciência apurada de si.

Experimente, quando estiver se sentindo desorientada e sem foco, com os pensamentos em uma espécie de turbilhão: apoie bem seus pés no chão, perceba cada ponto do solo tocado por eles; fique de olhos abertos e “apoie” o seu olhar em um ponto fixo no espaço, sem deixar de ver os detalhes do ambiente. Permaneça em pausa por alguns instantes e apenas respire profundamente, mantendo ao máximo sua atenção nos pés que tocam o chão e no olhar que se apoia no espaço. A respiração circula pelo ambiente interior e exterior ao corpo, em uma relação de interdependência. Aos poucos, faça o seguinte exercício: inspire olhando o espaço à sua frente; depois expire, fechando os olhos devagarinho. Ao inspirar, seus pulmões inflam, levando seu tórax à expansão e uma transferência de peso acontece e é observada na parte da frente dos pés; ao expirar, observe o retorno do tórax e um certo relaxamento interno, novamente gerando uma transferência do peso ligeiramente para trás, sentindo um pouco mais os seus calcanhares pressionando o solo. Sempre atenta aos pés, aos ossos dos pés que tocam o chão.

Uma dança pode nascer apenas dessa qualidade de presença na respiração, dessa verticalidade do corpo e do olhar que se apoia no espaço. Esse exercício simples pode ser o ponto de partida para outros estados de corpo, outro tônus, com uma certa disponibilidade e prontidão. Pode ser que uma pessoa se sinta mais “enraizada”; talvez reconheça sua centralidade e seu eixo e acesse um estado de quietude dos pensamentos, uma desaceleração. Esta é uma possibilidade, mas você pode até anotar quais as sensações e percepções e comentar depois o que aconteceu. O importante é observar como mente e corpo estão intrinsecamente conectados, em um fluxo contínuo. Não estão separados

Se é a partir do corpo que lemos o mundo e nos relacionamos; se é no corpo que a saúde mental dá os seus sinais de alerta, podemos apostar que o ato de dançar é um caminho de autorregulação em alguma instância, criando outras realidades físicas, emocionais, sensoriais e perceptivas, pois ela congrega uma infinidade de ações internas e externas.

 

Referências:

COHEN, Bonnie Bainbridge. Sentir, perceber e agir. Educação somática pelo método Body-Mind Centering. São Paulo: Edições SESC São Paulo, 2015

GAIARSA, José Ângelo. Respiração, angústia e renascimento - 2ª edição. São Paulo: Ícone, 1994

MILLER, Jussara. Qual é o corpo que dança? Dança e educação somática para adultos e crianças. São Paulo: Summus, 2012

LARROSA, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Disponível em https://www.scielo.br/j/rbedu/a/Ycc5QDzZKcYVspCNspZVDxC/?format=pdf&lang=pt


[1] Jorge Larrosa, no texto Notas sobre a experiência e o saber de experiência diz que  “experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca”. Disponível em https://www.scielo.br/j/rbedu/a/Ycc5QDzZKcYVspCNspZVDxC/?format=pdf &lang=pt

 

[2] Para saber mais a respeito de Educação somática, sugiro ler https://www.scielo.br/j/rbep/a/jZFgqbJDZFTzsLDgvL4C9Xs/

 

[3] Trecho do livro Sentir, perceber e agir: Educação somática pelo método Body-Mind Centering, da editora SESC, página 25.

Publicado por :



Luciana Bortoletto

Pesquisadora, educadora somática e coreógrafa



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