LABORATÓRIO DA DANÇA

Balé para adultos

Quinta, 21 de Novembro de 2019 | por Patricia Cornacchioni Alegre |

Balé para adultos: um diálogo entre uma linguagem centenária e um corpo comum


Nesse pequeno artigo compartilho algumas reflexões acerca do ensino de balé para adultos não profissionais da dança, advindas de experiências minhas.

Do início do anos 2000 até hoje, pôde-se perceber sobretudo em grandes cidades brasileiras, um aumento significativo de cursos de balé direcionados para adultos – tanto adultos que dançaram balé quando mais novos, quanto pessoas que nunca fizeram balé ou qualquer outra dança, mas, em busca de uma atividade física, escolhem o balé. Isso me chama atenção porque até então, cursos de dança clássica eram voltados exclusivamente para crianças ou adultos profissionais da dança. Havia uma ideia de que só seria possível iniciar um estudo dessa dança enquanto criança, sob a perspectiva de que aulas de balé seriam sempre uma preparação para uma profissionalização nessa linguagem. Com o passar do tempo, foi-se percebendo que nem todos aqueles que frequentavam aulas de balé, mesmo crianças, tinham a intenção de se tornar bailarinos profissionais. Desta maneira, seria possível estudar o balé sem o foco na profissionalização: o que incluiria pessoas de todas as idades. Então, provavelmente por uma demanda de mercado, alguns professores começaram a oferecer ensino de balé voltado para pessoas mais velhas, inclusive iniciantes.

Mas será que cabem em uma aula voltada a adultos iniciantes os mesmos caminhos de construção do conhecimento da dança clássica percorridos numa aula para crianças ou adolescentes? Vale lembrar que o balé é uma arte muito calcada na tradição, e grande parte dos professores de balé (me incluo nisso) às vezes sem nem se dar conta, repete maneiras que seus professores tinham de ensinar, reproduzindo tradições que há séculos fazem parte da cultura do balé. Assim como costumes familiares que repetimos sem pensar, no balé isso acontece. E nem sempre é positivo, de modo que os professores devem estar atentos. (Mesmo ao ensinar crianças que desejam ou não se profissionalizar é absolutamente essencial ao professor um enorme cuidado para não repetir fórmulas de ensino vistas no passado. Os tempos mudam, as relações entre as pessoas mudam, e os professores precisam estar conectados com seus alunos no tempo presente, mesmo mantendo a essência do balé)

Tradicionalmente, a vivência que muitos professores de balé tiveram enquanto alunos foi com um ensino voltado à profissionalização. Se repetirem essa maneira de ensino para adultos que já possuem outra profissão, não querem ser bailarinos profissionais e pouco sabem sobre a linguagem do balé, a probabilidade do resultado ser um ensino sem sentido é bem grande. Ao mesmo tempo, pode acontecer de adultos iniciantes no balé terem o desejo de, em pouco tempo, chegarem a dançar como bailarinos profissionais que viram em espetáculos, na TV, na internet, ou que povoam seu imaginário. Muitas vezes esses alunos se frustram, já que aqueles seus ídolos inspiradores estudaram e dedicaram suas vidas inteiras a essa arte, e não a levavam como um hobby de 2 horas semanais...  Mas nada impede que essa pessoa que nunca teve nenhum contato com dança e que pratica 2 horas semanais possa sim aprender o balé, se encantar com ele, aprender a técnica, a forma correta de se executar os passos,  se expressar por meio dessa arte e sentir-se bem. E para isso, é também fundamental que o professor apresente para esse aluno o balé além dos passos: que ensine um pouco da história dessa danca; o significado dos nomes dos movimentos, dos gestos, do contexto histórico dos balés de repertório e seus estilos. Tematizar a dança que se estuda é importante em qualquer idade e potencializa o estudo da técnica. Comparado com outras danças, a técnica do balé é muito complexa e exige bastante do corpo, sendo necessário um preparo físico intenso para conseguir executar determinados movimentos. Por esse motivo em geral as aulas ficam majoritariamente focadas na parte física, nos exercícios, nas sequências coreográficas. É claro que os aspectos físicos e biomecânicos podem e devem ser trabalhados com muita precisão e responsabilidade. Mas, paralelamente a isso, não se pode esquecer que, antes de ser uma “atividade física”, o balé é uma arte que carrega história, símbolos e significados. Nas aulas, é preciso sensibilizar, conhecer e ter consciência da potência expressiva do corpo. Gosto de dizer que o balé é 200%:  não é 50% técnica e 50% expressividade. É 100% técnica e 100% expressividade!

Sendo o balé, uma arte do corpo, deve dialogar com o corpo que dança. Nada vale ensinar passos e exercícios prontos sem considerar o corpo que os executará: se for um adulto, certamente terá padrões de movimento cristalizados, repertórios de dança fixados em seu corpo, vícios posturais, tensões crônicas, dores... As crianças também possuem seus padrões, mas são mais maleáveis já que em geral são mais espontâneas e não foram tão podadas ao longo da vida; quando chegamos à fase adulta, grande parte de nossos movimentos espontâneos e indivuduais foram precisando se adequar às exigências de nosso meio social, cultural, religioso, profissional, etc. Ao aprender uma nova linguagem (no caso, o balé), será necessário um verdadeiro diálogo corporal, e um professor atento e sensível conseguirá torná-lo possível.

A nós não cabe julgar padrões corporais: apenas reconhecê-los! E, ao professor, fica a tarefa de reconhecer esses comportamentos em seus alunos e respeitá-los. A técnica do balé será então ensinada de modo a conversar com esse corpo, sem se impor a ele. Desta maneira, cada bailarino / aprendiz, será único, e em minha opinião, esse é o mais belo de ensinar arte!


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Patricia Cornacchioni Alegre

Arte educadora e bailarina



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