LABORATÓRIO DA DANÇA

A busca artística imperfeita de sermos sempre perfeitos

Terça, 19 de Março de 2024 | por Geovana Peres da Costa |

Ao pensarmos no mundo da dança, principalmente quem vê de fora, provavelmente de cara, tem alguma lembrança do ballet clássico. A pessoa leiga, talvez raramente vai saber muitas referências de uma dança contemporânea, urbana e etc, mas facilmente ela vai se lembrar da bailarina da caixinha de música…Ou até mesmo do filme O Cisne Negro.

Aqui eu escrevo, no lugar de uma pessoa que estuda bastante, que portanto é curiosa demais, mas que, é uma profissional da dança e comunicação, e não uma psicóloga. Portanto, nesta escrita, você vai encontrar opiniões minhas baseadas nos meus estudos, referenciais e vivência com a dança, além de ter como principal objetivo gerar reflexões. Então se sua opinião for diferente, ela é super bem vinda também!

Fato é que, geralmente quem dança, tende (mas sem generalizar) a começar ainda na infância como uma atividade física, que por sorte ou não (contém ironia) depois essa pessoa acaba continuando sua formação até quem sabe virar a sua profissão. Mas é claro, que existem diversos casos que a dança não profissional vem a acontecer, anos depois, na vida adulta por exemplo. E o que isso tem a ver com a bailarina da caixinha de música ou até mesmo com o tema dessa matéria? Mais do que você pode imaginar.

Ainda quando crianças (período da infância), e agora me referindo bem especificamente principalmente às meninas (e vocês já vão entender o motivo), somos na maioria das vezes motivadas a assistir ou ter contato com o "mundo da Barbie" muito provavelmente por influência dos pais, família ou das coleguinhas da escola, ou seja do contexto que você pode ter sido inserido. Claro, que os meninos também podem ter esse contato, mas o mais comum (e não o que talvez para mim ou para você é certo ou errado, o que pode ou não, o que deveria ser diferente ou não) é sabermos que as meninas têm esse tipo de influência, “com o brincar de bonecas” desde cedo. E bom, o mundo cor de rosa da Barbie, inclusive que foi relatado e bastante repercutido, no filme recente dirigido por Greta Gerwig e indicado ao Oscar, nos mostra exatamente sobre o idealismo perfeito de um mundo que não existe, mas que somos ensinados a gostar e a idealizar a vida perfeita para a nossa realidade também e que no final das contas, é derrubado, porque estamos cansados de sustentar algo que não somos ou aquela “perfect life” que não existe.

A importância de olharmos para o contexto da infância, é porque de acordo com a Psicologia, é nessa fase que está vinculado a grande maioria da construção da nossa autoestima e identidade de qualquer pessoa.

Começa a se estruturar na infância, tendo em vista que uma criança é facilmente moldada, essa construção tem início através das influências parentais, principalmente repetindo comportamentos nos quais elas observam. Desse modo o ambiente em que ela está inserida é a base do desenvolvimento de sua autoimagem. Gonçalves Vaz, Martha, and Tatiana Valéria Emídio Moreira. "Influência da Socialização da 3 Infância na Construção da Autoestima do Adulto." (2022, p. 4). 

Portanto, desde cedo, temos muito mais estímulos para construir nossos conceitos de beleza, estima, baseado em perfeição, do que no imperfeito, muito mais no acerto, do que no erro, e assim por ai vai. Então, quando se trata da dança, acaba não sendo diferente, pois independentemente da idade que você inicia o seu contato com este meio, provavelmente você já teve em algum momento ou terá contato com esse estereótipo e até mesmo um “pré-julgamento" vindo talvez de um inconsciente coletivo, de que a dança exige a perfeição,exige uma estética, exige acertar, exige exige e exige. 

Depois de ler o livro “A Grande Magia” de Elizabeth Gilbert e também o livro (e baita referência/indicação) “O caminho do artista” de Julian Cameron, pude compreender e conectar muito mais esse universo “perfeitinho” que a maioria dos artistas passam a ficar reféns e de como isso bloqueia a vivermos uma vida mágica, mais criativa, mais potente! 

Você tem medo de não ter nenhum talento
Você tem medo de ser rejeitado, criticado,ridicularizado, incompreendido ou - pior de tudo - ignorado. (Gilbert, 2015 p.9) 

Isso que eu trago apenas as 3 primeiras linhas de um trecho, que confesso doeu a minha alma quando eu li, do livro “A Grande Magia". E por que doeu e provavelmente doeu e doa em mais um tanto de pessoas que leram ou vão ler a esta passagem no livro? I-DEN-TI-FI-CA-CÃO. Pois é, qual ser humano, artista nunca passou por algum desses medos em algum momento da vida? A construção disso, pode sim, estar linkado a uma infância com alto senso crítico, altos padrões e critérios, com influências e estímulos bem estereotipados, mas aqui trago o meu ponto de volta, a Dança por si só também pode potencializar tudo isso, principalmente o balé clássico, por ser uma das modalidades de dança com mais exigências, inclusive há estudos dizendo que os bailarinos clássicos são muito mais perfeccionistas, do que outras modalidades por exemplo. Aquela criança que tem contato muito cedo com a dança, já podemos considerar a longo prazo, participação nesse “contexto/ambiência” de construção de personalidade, então aqui vai também o meu adendo a escolhas das escolas de dança e profissionais da área.

Um estudo evidenciou a prevalência de tendências perfeccionistas em 250 dançarinos de ballet clássico e contemporâneo. No estudo, 40,59% da amostra apresentou tendências perfeccionistas e 44,35% apresentou moderadas tendências perfeccionistas. (Norin-Bates et al.,2011). 

As inseguranças artísticas são inúmeras e enquanto estivermos presos nesse falso ideal de que precisamos fazer perfeitamente, senão o mundo acaba, vamos estar alimentando um ciclo sem fim e sem esperanças também, porque sabemos que isso alimenta toda uma sociedade. Precisamos desconectar o perfeccionismo, ao trabalho entregue de forma excelente, que envolve paixão, técnica também, mas sem esse senso de que precisa ser milimetricamente feito e perfeito; o tal do “feito é melhor que perfeito”. Sabe o motivo? Porque perfeição não existe, tente ser perfeito e falhe miseravelmente. Ah, e perfeição, pode ter diversos pontos de vistas e de novo, isso também tem muita a ver com cada background, cultura, experiência de vida e por aí vamos. 

Outra questão que o perfeccionismo nos leva, é a exaustão. Vivemos em uma era de quanto mais melhor, será mesmo? Se eu não trabalho minimamente 8h por dia, me sinto imprestável, se eu não posto minha vida nas redes, me sinto fora do mundo, se eu não estou produzindo algo ou estudando algo, meu deus então quem sou eu? Até onde vamos com essa sensação de que qualquer pausa, descanso, pode ser prejudicial? No livro “Aurora: despertar de uma mulher exausta” de Marcela Ceribelli, ela conta inúmeros acontecimentos em suas vidas e inclusive traz diversas outras referências de psicanalistas, psicólogos e de livros sobre o assunto. Estamos cada vez mais normalizando o cansaço, a exaustão e tudo porque queremos fazer as coisas minimamente perfeitas. 

Para finalizar essa escrita e leitura, confesso que poderíamos ficar aqui horas falando de diversos tópicos e situações de vida que esse tema pode gerar, mas não posso deixar de citar também a questão da validação. A ideia de ser amada, validada e bem sucedida, por isso precisamos sentir que estamos nessa caixinha de bailarina de música, porque todo resto, causa desconforto, é desconhecido, gera desconfiança, dá medo. Então inconscientemente preferimos viver o limbo da perfeição, do que questionar, embora há movimentos lindos de artistas se manifestando em prol de uma vida mais mágica, menos presa e perfeita. 

Então eu te encorajo junto comigo, de sermos muito mais questionadores dos nossos limites, do que apenas aceitar qualquer parada. Olhar para a nossa infância, ajuda sim a ressignificar bastante coisa. Então porque deixar para depois? Viver uma vida mais equilibrada na nossa produtividade, lembre-se que você é um ser humano em primeiro lugar!


*Este texto é de responsabilidade da autora e não reflete necessariamente a opinião do Portal MUD

Publicado por :



Geovana Peres da Costa

Bailarina, comunicadora e mentora de carreiras e comunicação



Deixe seu comentário

Os comentários não representam a opinião do Portal MUD; a responsabilidade é do autor da mensagem.