O Interlude é uma nova comunidade de estudos para quem ama ballet de repertório. Criado por Carol Lancelloti e Milena Pontes, o projeto nasceu com o propósito de mergulhar na história, nos símbolos e nas múltiplas camadas das grandes obras, em uma proposta diferenciada que une reflexão e estudo simbólico.
Conversamos com as criadoras para entender melhor como surgiu essa ideia, o que diferencia o projeto e de que forma ele pode transformar a forma como bailarinos e apreciadores se conectam com o repertório clássico.

O Interlude nasce como uma comunidade de estudos dedicada ao ballet de repertório. O que motivou vocês a criarem esse espaço e qual o diferencial em relação a outros formatos de estudo da dança?
Nossa motivação principal foi o amor pela dança, por mais que pareça um clichê. Ambas sempre fomos muito interessadas nas histórias e nas camadas por trás das obras que vemos no palco. Com o tempo, percebemos que entender esses processos de construção faz toda a diferença na jornada de uma bailarina em sala de aula. Construindo nossa comunidade e consumindo muito conteúdo na internet, vimos que era possível e necessário ir além de resumos superficiais e oferecer algo mais profundo.
O nosso diferencial está justamente nessa abordagem: queremos unir a nossa postura questionadora e reflexiva ao estudo simbólico, que acreditamos ser essencial para que as pessoas se conectem com as obras. Isso fala diretamente sobre a sobrevivência da arte, pois, para além do amor que nos move, precisamos buscar referências e reflexões que a integrem ao nosso tempo de forma responsável.
O primeiro ciclo abordará 10 repertórios, começando com O Lago dos Cisnes. Como foi feita a escolha dessas obras e que aspectos vocês pretendem destacar em cada uma delas?
Nós debatemos bastante para chegar aos repertórios que possuem não só um interesse geral do público, mas que também carregam histórias que merecem ser contadas, com profundas camadas de significado. Queremos gerar reflexão e uma discussão saudável em torno dessas obras.
Além disso, a escolha também se baseia no fato de que algumas obras são como uma chave para entender a história da dança em um contexto mais amplo. Por isso, nossas escolhas para o ciclo, além da obra central, trazem referências de outros repertórios e fatos que se conectam entre si.
Além das aulas, vocês mencionam convidados especiais, artigos e grupos de interação. Como esses recursos complementam a experiência dos alunos e ampliam a compreensão do ballet de repertório?
Para nós, não faz sentido discutir história, símbolos e representações sem a vivência de grandes mestres. Por isso, sempre que possível, traremos convidados para enriquecer o estudo com a perspectiva única de quem está dentro da obra.
Já os grupos de interação, o clube de leitura e os artigos propõem que os alunos direcionem sua atenção para além dos vídeos rápidos das redes sociais, oferecendo uma experiência de estudo mais desacelerada e aprofundada. É um grande desafio dissecar obras tão complexas no tempo da aula ao vivo. Essa interação também funciona como uma extensão da aula que já aconteceu e como um termômetro para o planejamento das próximas.
Um ponto muito especial é o acesso gratuito oferecido a escolas públicas de ballet no Brasil e em Portugal. Como vocês enxergam o impacto dessa iniciativa na formação de jovens bailarinos?
Para nós, não faz sentido restringir o acesso ao conhecimento apenas a uma parte das pessoas ao lançar um projeto educacional. Acreditamos que é através da cultura e da educação que a verdadeira transformação acontece. Nosso propósito é justamente caminhar nessa direção, ampliando o acesso e mostrando que essa linguagem pertence a todos.
Sabemos que o processo de formação de bailarinos é difícil em todos os sentidos, e muitas vezes não há espaço para o estudo teórico da forma como um artista completo deveria ter. Além de possibilitar o acesso a estas escolas, o que foi possível graças ao apoio que recebemos, pensamos na estrutura de cada aula para ser uma ferramenta complementar ao trabalho dos professores, que irá agregar valor à vida de futuros bailarinos.
As trajetórias de ambas trazem formações diversas, da fotografia ao design, da comunicação à pesquisa acadêmica. De que forma essas experiências distintas se cruzam e enriquecem o projeto do Interlude?
Carol Lancelloti: Sempre comentamos entre nós que os nossos diferenciais se unem numa grande potência para este projeto. Para mim, essa é, sem dúvida, a melhor parte de trabalhar em conjunto. Eu não consigo imaginar o Interlude sem a presença, o conhecimento e a visão da Mi. Desde o momento em que comecei a questionar e refletir sobre o simbolismo nos ballets de repertório, ela foi a primeira pessoa com quem conversei, e ela se mostrou imediatamente aberta e atenta a essas particularidades. Além disso, as nossas aulas se complementam de forma natural, criando uma dinâmica leve para as alunas.
Milena Pontes: O interesse e a pesquisa da Carol pela psicologia analítica e pelos estudos dos símbolos me trouxeram de volta o interesse em reassistir algumas obras, dando resposta para algumas questões e curiosidade para outras tantas. E vejo que o nosso trabalho em conjunto traz isso para os alunos também: novos interesses e perspectivas para quem já buscava estudos como esse ou para quem quer começar com a gente!
Existem nuances sobre o ballet que só outras disciplinas explicam. A cada passo do projeto e a cada aula, enxergo novas conexões entre nossas formações que se complementam no Interlude.
Para saber mais acesse: https://bit.ly/interludeballet
Carol Contri