Cavucada – A Festa Não Será Amanhã. Foto: Patrícia Almeida
Com obras do Rio de Janeiro (RJ), Amazonas (AM), Paraná (PR), Goiás (GO) e Mato Grosso do Sul (MS), a MITbr 2026 evidencia a diversidade territorial da dança brasileira e projeta diferentes matrizes estéticas no circuito nacional e internacional.
A MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo realiza sua 11ª edição entre 6 e 15 de março de 2026 e reafirma, por meio da MITbr – Plataforma Brasil, o compromisso com a circulação e a internacionalização das artes cênicas brasileiras. Em 2026, o recorte dedicado à dança reúne cinco trabalhos que operam em frentes estéticas e políticas distintas — Vogue Funk, TA | Como Ser Grande, Dança Boba, Epílogo e Cavucada – A Festa Não Será Amanhã — compondo um panorama que articula ancestralidade, cultura urbana, improvisação, crítica ao corpo normativo e experiência coletiva.
Entre os espetáculos convidados, Vogue Funk, dirigido por Patfudyda (RJ), cruza dois universos nascidos em territórios periféricos e marcados pela resistência cultural: o baile funk e o vogue ball. Ao aproximar batalhas, poses e gestualidades que emergem de contextos distintos, mas conectados por matrizes negras e dissidentes, a obra afirma o corpo como linguagem política e dispositivo de invenção coreográfica. Em cena, atitude, presença e performatividade tensionam convenções estéticas e sociais, projetando novas relações históricas e culturais.
Na convocatória nacional, Epílogo, do duo chameckilerner (PR), confronta o fetichismo da juventude e desloca o imaginário do “corpo padrão”. Inspirado em nus icônicos da história da arte, o trabalho reinscreve essas imagens por meio de performers com diferentes idades, origens e habilidades, transformando marcas do tempo em potência poética. A obra instaura um campo de fricção entre desejo, identidade e passagem do tempo, subvertendo paradigmas normativos e ampliando a representação dos corpos na cena contemporânea.
Também selecionado, TA | Como Ser Grande, do Corpo de Dança do Amazonas (AM), parte da cosmovisão do povo tikuna para construir uma dramaturgia que conecta língua, território e identidade. Com coreografia de Mário Nascimento e trilha original do DJ Marcos Tubarão, o espetáculo traduz em movimento a relação entre som, natureza e pertencimento, evocando a dor e a beleza de um povo originário e afirmando a dança como expressão da cultura amazônida.
No âmbito do projeto Conexões Centro-Oeste, duas obras reforçam a vitalidade da produção da região. Dança Boba, do Ateliê do Gesto (GO), aposta na improvisação como procedimento compositivo, estruturando-se a partir de jogos coreográficos que privilegiam escuta, presença e criação no aqui e agora. A simplicidade do gesto torna-se matéria poética, abrindo espaço para memórias, afetos e camadas de sentido que emergem da relação entre os intérpretes.
Já Cavucada – A Festa Não Será Amanhã, da Cia Dançurbana (MS), dissolve as fronteiras entre palco e plateia em um espetáculo-festa que atravessa hip-hop, vogue, dança contemporânea e referências do brega funk e das coreografias virais. Ao celebrar mais de duas décadas de trajetória da companhia, a obra transforma o encontro em eixo estruturante, enfatizando a dimensão política da convivência, da diversidade e da liberdade de cada intérprete.
Ao reunir cerca de 100 programadores nacionais e internacionais, com todas as obras legendadas em inglês, a MITbr 2026 consolida a dança como vetor estratégico de articulação entre criação e mercado. O conjunto dos trabalhos evidencia a pluralidade de matrizes, territórios e procedimentos que atravessam a cena brasileira hoje, projetando no circuito profissional um panorama consistente da produção coreográfica contemporânea do país.
Programação de Dança
Vogue Funk

Foto: Charles Pereira
Patfudyda | Quafá Produções (RJ) | CCSP | 70 min | 16 anos
Sinopse: Das vielas para os palcos, das batalhas nas ruas para os holofotes, dos fios emaranhados dos postes ao fio dental das gatas: baile funk e vogue ball se cruzam no espetáculo de dança dirigido por Patfudyda. Originados em contextos geográficos e cronológicos distintos, os movimentos têm em comum a origem periférica e predominantemente preta, além de serem símbolos de resistência cultural, política e social. O trabalho reúne artistas de ambas expressões artísticas e explora a atitude coreográfica dos dois universos: em cena, poses e passos desafiam convenções e elaboram novas relações históricas e culturais.
Cavucada – A Festa Não Será Amanhã

Foto: Patrícia Almeida
Cia Dançurbana (MS) | iBT| 60 min | 18 anos
Sinopse: A Cia Dançurbana comemora mais de duas décadas de trajetória na pista de dança. Sem divisão entre palco e plateia, artistas e público rememoram juntos coreografias presentes no repertório da companhia, além de se movimentarem embalados por sonoridades festivas de diferentes estilos. O espetáculo-festa, cujo título faz referência a um passo de dança do brega funk, passeia por elementos presentes no hip-hop, no vogue, na dança contemporânea e em coreografias do TikTok. A obra privilegia o encontro, ressaltando seu potencial político e artístico, e valoriza a diversidade e a liberdade de cada intérprete.
Dança Boba

Foto: Lu Barcelos
Ateliê do Gesto (GO) | Itaú Cultural | 50 min | Livre
Sinopse: O espetáculo, interpretado pelo duo de bailarinos e coreógrafos Daniel Calvet e João Paulo Gross, se funda na construção de danças a partir de jogos de improviso. As coreografias são desenvolvidas a partir da simplicidade e da criação poética dos intérpretes, cujos gestos se constroem por meio da presença e da fisicalidade de seus corpos. Nessa profusão de imagens e sentidos, a obra transita por memórias, nostalgias, leveza, dramaticidade e ludicidade. Metáforas são criadas sobre uma possível história que a dupla possa querer contar no aqui e no agora.
Epílogo

Foto: Brian Rogers
chameckilerner (PR)| CCSP | 60 min | 16 anos
Sinopse: Desafiando o fetichismo da juventude eterna e subvertendo o corpo normativo, o espetáculo concebido pelo duo chameckilerner se apoia em um vocabulário físico inspirado em nus icônicos da história da arte. Essas pinturas, fotografias e esculturas ganham vida por meio de performers com idades, habilidades, origens raciais e gêneros diversos, destituindo o “corpo padrão” de seu poder no imaginário visual. Movida por histórias pessoais, pela passagem do tempo e pelas experiências acumuladas inscritas em cada corpo, a obra cria um espaço em que a identidade não é limitada pela idade. Em cena, a presença de corpos que carregam as marcas do tempo em sua pele deixa de ser fonte de temor e passa a ser motivo de fascínio, despertando um complexo jogo de identificação e desejo.
TA | Sobre Ser Grande

Foto: Pati Guimarães
Corpo de Dança do Amazonas (AM) | Teatro Sérgio Cardoso | 70 min | Livre
Sinopse: Para os tikuna, povo originário que ocupa uma vasta área do estado de Amazonas, a palavra “TA” significa grande. Eles acreditam que a língua é parte deles, assim como os sons do ambiente fazem parte do idioma que se fala, sejam roncos, chiados e tantas outras sonoridades que conseguem escutar. Os tikuna também definem onde vivem como “TA”, um território que abriga, acolhe, alimenta e precisa de cuidados. Com coreografia de Mário Nascimento e trilha sonora original do DJ Marcos Tubarão, o espetáculo, que conta com bailarinos do Corpo de Dança do Amazonas, apresenta a dor e a beleza dos tikunas, e simboliza a conexão entre a dança e a identidade cultural amazônida, homenageando seu povo e a natureza local.
Serviço
MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo – 11ª Edição
06 a 15 de março de 2026
Ingressos a partir de 12 de fevereiro em www.mitsp.org
Programação completa no site www.mitsp.org
Portal MUD