Preta Rainha

por Cia Dita

espetáculo | Dança Contemporânea

Em comemoração aos seus 60 anos de idade, a bailarina e professora de balé clássico Wilemara Barros apresenta o solo autobiográfico Preta Rainha, que gira em torno da sua trajetória de 50 anos no universo da dança.

“Seguir na cena aos 60 anos de idade e 50 de carreira é uma dádiva. Os anos me trouxeram maturidade artística e crescimento como ser humano. Atravessei o tempo e gerações tendo meu corpo como discurso político. O palco é um lugar sagrado, a dança é o ar que eu respiro. Sigo até o fim, com as dores e as delícias que a maturidade e a arte trazem”, celebra Wilemara.

Em Preta Rainha, Wilemara Barros visita as suas memórias afetivas, tomando para si o legado cultural e ancestral vindo de sua família: a dança, o canto, a percussão, a crença, o corpo e a voz. Wila, como é carinhosamente conhecida na cena local e nacional, faz emergir a poética e a política através de uma obra antirracista reflexiva e potente que celebra as cinco décadas de dedicação à dança.

“Na maior parte da minha infância e adolescência não tive consciência das minhas raízes e foi, a partir dessas vivências, que o trabalho Preta Rainha faz um mergulho na minha ancestralidade, onde volto ao passado para caminhar no presente. Revisito crenças, culturas e afirmo meu discurso antirracista, acreditando que o lugar de fala é meu, mas a ação é de todos”, afirma Wilemara. 

Experiências marcantes e essa busca pelo contato com a ancestralidade são pontos chave no espetáculo. Através de sua trajetória de vida, ela busca criar outras narrativas para que o público seja tocado pela sua obra. A artista propõe um mergulho em si mesma, resgatando a sua criança tantas vezes deslocada de tempo e lugar.

“No palco, apenas a presença desta mulher negra e de sua força, que fala (e escuta), toca, canta, grita (e silencia), chora (e faz chorar), ri (e faz gargalhar), faz o público sentir raiva e amar… E até dança”, afirma Fauller, coreógrafo e fundador da Cia. Dita. 

50 anos de balé

Wila foi levada para o universo do balé clássico aos 10 anos de idade por dona Maria Neide, sua mãe, quando foi selecionada, dentre outras 400 crianças, em audição realizada na Escola de Balé Clássico e Dança Neoclássica do SESI da Barra do Ceará. A partir dos ensinamentos do professor Dennis Gray (Maïtre do Theatro Municipal do Rio de Janeiro), se viu transitar da infância para a adolescência dentro dessa escola. 

Quando criança, Wilemara Barros tinha o biótipo padrão de uma bailarina clássica: tronco pequeno e pernas longas e finas. Porém, as mudanças trazidas pela adolescência fizeram com que ela começasse a ser rechaçada em sala de aula, incluindo comparações com as Mulatas de Sargentelli.

Em sua carreira, Wila ministrou aulas para renomadas companhias de dança, como a de Deborah Colker, e para o Projeto Corpo Cidadão, desenvolvido pelo Grupo Corpo, além de possuir vasta experiência em escolas de balé de Fortaleza, Quixadá, Sobral, Juazeiro do Norte e ser professora residente dos cursos do Colégio de Dança do Ceará e Curso Técnico em Dança do Ceará.

Os 50 anos de carreira consolidaram Wila como uma das mais importantes bailarinas brasileiras de sua geração e em uma mestra da técnica clássica. No entanto, Wila sempre se esquivou de dançar qualquer peça que lhe solicitasse a estética do balé, tamanha foi a ferida deixada dentro de si quando criança. A partir do encontro com Fauller e das realizações conjuntas na Cia Dita, Wila passou a quebrar suas resistências e reconhecer a solidez de sua formação acadêmica. 

Desde então, tem estado em espetáculos e peças teatrais usando sapatilhas de pontas ou desafiando-se em estruturas coreográficas que exigem uma técnica apurada do balé clássico. Dentre estas realizações, destacam-se os espetáculos “Óbvio”, onde Wila sola nas sapatilhas de ponta, imprimindo rigor técnico a esta composição; “Mulata”, aula-espetáculo na qual ela corajosamente desnuda a sua trajetória em cena; e “A Morte do Cisne”, remontagem fiel da Cia. Dita para a emblemática composição de Fokine, apresentada na abertura da Bienal Internacional de Dança do Ceará, em 2017.

Preta Rainha

Preta Rainha dá continuidade às pesquisas de Wila sobre ancestralidade, negritude, corpo e localização social e materializa questões para a reflexão da sociedade, por meio das quais Wila rememora as feridas ainda abertas desde sua infância, ao mesmo tempo em que percebe os pequenos privilégios de uma mulher negra não-retinta, com formação e uma vida longe da violência doméstica e da hiper sexualização, tão comuns às meninas negras das periferias das cidades brasileiras.

Nesses 50 anos de balé, Wilemara Barros firma o seu lugar no cenário da dança brasileira como uma artista negra-nordestina-periférica. Suas pesquisas e experiências foram fundamentais para que desse especial atenção às questões ligadas à sua negritude, pertencimento, empoderamento e lugar de fala.

“Onde estão os negros? Quais espaços estes corpos ocupam? Estes corpos negros ocupam bancadas de avaliações em audições de arte ou ministrando cursos? Passeiam em shoppings, visitando livrarias, museus, cafés e teatros? Ocupam lugares acadêmicos, intelectuais ou empresariais? Estão em reconhecidos lugares de poder? A partir destas questões, percebi que minha própria existência nesses espaços é a materialização do contraponto, é enfrentamento”, reflete. “Ocupar esses lugares como uma artista e tratar destas questões em cena é de suma importância para mim”, conclui.

Preta Rainha é uma busca de si mesma, uma afirmação e reconhecimento de seu pertencimento, um acerto de contas com tudo o que lhe foi negado. É a própria construção de um lugar possível antes jamais imaginado. O território de uma mulher que construiu o seu percurso carregando pedras para sedimentar passo a passo o seu caminho pouco provável”, complementa Fauller. A proposta, em geral, é dar continuidade aos diálogos e pensamentos acerca do corpo negro e suas possibilidades na dança, através de possíveis dispositivos interraciais e suas estratégias de empoderamento, contribuindo com a visibilidade dos corpos negros e sua luta por inclusão social.

Observações:

Ocupação dos assentos por ordem de chegada.

Tem direito ao benefício da meia-entrada: estudantes, idosos (pessoas com mais de 60 anos), crianças entre 03 e 12 anos, pessoas com deficiência e seu acompanhante, professores da Rede Pública de Ensino de Fortaleza, jovens pertencentes a famílias de baixa renda com idade entre 15 e 29 anos e doadores regulares de sangue. Em todos os casos é necessária a apresentação do(s) documento(s) comprobatório(s) e do documento de identificação com foto.

Funcionamento da bilheteria física do Cineteatro São Luiz: de terça a sexta, das 9h30 às 18h, e, aos sábados, das 9h30 às 17h. Aos domingos, 2h antes do evento até o horário de início da atração.