DUAS ARTISTAS ASSUMEM NOVOS LUGARES NA CENA EM ESTREIA CONJUNTA DE RITA 9.11 E ABYSMO
Sonia Sobral estreia como performer e dramaturga em palestra-performance sobre memória, criação e os caminhos entre a ideia e a cena; na mesma noite, Alessandra Queiroz protagoniza seu primeiro solo na Cia Antropofágica, que investiga a palavra, a informação e as vozes femininas historicamente silenciadas
Duas artistas com trajetórias consolidadas nas artes cênicas assumem, pela primeira vez, novos lugares diante do público. De um lado, Sonia Sobral, que depois de mais de três décadas dedicada à gestão, pesquisa e curadoria, troca o lugar de quem acompanha e pensa a criação artística pelo de quem está em cena, e estreia como performer em RITA 9.11. De outro, Alessandra Queiroz, atriz com mais de 20 anos nos palcos, protagoniza ABYSMO, seu primeiro solo realizado na Cia Antropofágica, grupo conhecido por seus trabalhos com grandes elencos. As duas experiências chegam ao palco no mesmo dia e em sequência, e partem de inquietações pessoais e políticas para investigar a memória, a palavra, a informação e a própria presença cênica.
A estreia acontece no sábado, 12 de setembro, no Teatro Pyndorama, com RITA 9.11, às 19h30, seguida de ABYSMO, às 20h30. O público pode assistir a apenas uma das obras ou às duas apresentações, que têm 30 minutos de intervalo entre si. Cada espetáculo tem cerca de 40 minutos e há desconto no ingresso para quem optar pela sessão dupla.
Ao colocar duas mulheres em cena, cada uma a partir de sua própria trajetória, RITA 9.11 e ABYSMO estabelecem um diálogo inesperado. Sonia Sobral parte de uma memória pessoal e de décadas acompanhando a criação de outros artistas para descobrir o que significa criar com o próprio corpo. Alessandra Queiroz, por sua vez, parte da experiência de uma atriz e da trajetória de uma companhia marcada pelo coletivo para experimentar a cena em sua forma mais concentrada.
RITA 9.11
No espetáculo, Sonia Sobral transforma uma experiência que permaneceu guardada por cerca de 20 anos em matéria artística. Com dramaturgismo de Dinah de Oliveira e direção de Alice Nogueira, a palestra-performance parte de
uma viagem de ônibus entre o interior de Goiás e Brasília. Durante o trajeto noturno, Sonia testemunhou o momento em que Rita, uma mulher que viajava com três filhos, entrou em colapso. Entre o Brasil das instituições e o Brasil vivido à margem delas, a cena permaneceu na memória da artista até encontrar, duas décadas depois, uma forma de chegar ao palco.
É a partir dessa lembrança que RITA 9.11 aproxima duas trajetórias: a da própria Sonia, que percorreu os 27 estados brasileiros na construção de programas nacionais de artes cênicas para o Rumos Itaú Cultural, e a de Rita, que encontra em uma dessas inúmeras viagens pelo país. A experiência se transforma em autoficção e coloca também em cena uma questão que atravessa a trajetória profissional da artista. O que acontece entre a ideia de um trabalho artístico e aquilo que finalmente chega ao palco?
Do lado de fora para dentro da cena
No seu percurso como gestora cultural, Sonia acompanhou a produção de dança e de teatro no Brasil, entre 2000 e 2017. Seus objetivos e desafios principais eram a realização de uma rede nacional de dança contemporânea e de teatro de grupo e gerar as condições necessárias para a pesquisa e a criação artística. Mas havia uma etapa do processo que Sonia conhecia apenas de fora, a própria feitura de um espetáculo. “Eu fui gestora cultural de dança por mais de 30 anos, desenvolvi muitos programas, fiz curadorias, coleções de dança, promovi encontros, conheci artistas de todo Brasil, mas eu nunca vi a feitura de um espetáculo, não assistia ensaios, não vi as ideias formando corpo”, conta.
Segundo ela, seu contato com os trabalhos acontecia principalmente por meio dos projetos apresentados pelas companhias e artistas. “Eu lia os projetos e depois de seis meses via as estreias que, em geral, eram diferentes das propostas iniciais, normal, mas eu pensava no caminho entre uma coisa e outra. E quando deixei as instituições quis ver como se trabalha os materiais artísticos, como se juntam, como vão virando cena”, explica Sonia.
É nesse desejo de conhecer por dentro o processo de criação que nasce sua passagem para a cena. A escolha pela palestra-performance também cria uma zona de tensão entre a Sonia gestora e produtora e a artista que se coloca diante do público. O corpo que durante décadas esteve dedicado a observar, selecionar, acompanhar e produzir outros artistas passa a experimentar o próprio processo de criação.
Uma mesa e uma cadeira são os únicos itens da cenografia de RITA 9.11 e estabelecem um jogo que remete ao ambiente de uma palestra, aproximando a cena da experiência institucional. Ao longo da apresentação, porém, esse espaço se transforma. Sonia manipula objetos e desloca a função da mesa, fazendo com que o ambiente inicialmente associado à fala e à transmissão de conhecimento se torne espaço de memórias e lacunas.
RITA 9.11 teve suas primeiras apresentações ainda durante o processo de criação, em 2025, no Congresso Performance Studies Internacional – PSi #30 Cruzo, Cruising, Encruzilhada, em Fortaleza (CE), e, em 2026, na programação do Farofa do Processo, no Teatro do Incêndio, em São Paulo. A experiência dá continuidade a uma aproximação anterior de Sonia com a criação artística: em 2016, ela criou a performance Involuntários da Pátria, com a atriz piauiense Fernanda Silva, a partir de texto do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. A palestra-performance já está confirmada na programação do 12º Festival Midrash de Teatro, que acontece em outubro no Rio de Janeiro.
ABYSMO
Na sequência, Alessandra Queiroz assume o palco em ABYSMO, seu primeiro na Cia Antropofágica, coletivo reconhecido por suas criações com grandes elencos. Com direção de Thiago Reis Vasconcelos que também assina a dramaturgia em conjunto com a atriz, o espetáculo parte de uma questão aparentemente simples – o que significa falar e contar alguma coisa para alguém? – para investigar as transformações provocadas pela circulação da informação e pelo desaparecimento gradual da narração como experiência compartilhada.
A montagem coloca em relação textos de autores como Agnes Heller, Licofron, Silvia Federici e Walter Benjamin com documentos, autobiografia, leitura e experiência teatral. A palavra aparece como matéria central de um espetáculo que procura pensar como informação e conhecimento atravessam a vida cotidiana, a cultura, o trabalho, a técnica e as relações sociais.
Em cena, Alessandra não interpreta uma personagem única. A atriz constrói um palimpsesto vocal a partir de diferentes mulheres, históricas e ficcionais, entre elas Safo, Marguerite Duras, Rosa Luxemburgo e Cassandra. Esta última funciona como uma espécie de chave para a montagem: a figura mitológica que anuncia acontecimentos e não é ouvida estabelece uma relação com outras vozes femininas que, ao longo da história, tiveram seus discursos desacreditados ou apagados.
Para Alessandra Queiroz, a dramaturgia aproxima essas vozes de debates sobre ciência, guerra e gênero, colocando em perspectiva as estruturas patriarcais que historicamente determinaram quem poderia falar, produzir conhecimento e ser reconhecido como sujeito intelectual. “O passado, nesse contexto, não aparece como algo encerrado, mas como matéria ainda em disputa no presente”, pontua.
Palavra, informação e o abismo do presente
O título ABYSMO remete ao sentimento de estar diante ou dentro de um abismo, uma sensação que atravessa diferentes momentos históricos e experiências cotidianas. A montagem parte dessa percepção para construir um teatro que não se organiza a partir de uma narrativa convencional, mas do encontro entre textos, documentos, imagens, sons e a presença da atriz.
A partir desses elementos, ABYSMO investiga as formas contemporâneas de comunicação e conhecimento, recorrendo ao que a equipe define como “montagem literária”, uma estrutura que coloca em movimento textos teóricos, documentos, referências históricas e a autobiografia da atriz.
“O teatro se torna, assim, um espaço de confronto entre racionalidade e experiência. Em vez de encerrar os documentos e textos em uma interpretação única, ABYSMO procura colocá-los em circulação diante do público, permitindo que sejam criticados, recusados ou incorporados a partir da experiência de cada espectador”, adianta a atriz.
Informações do evento
Datas e Horários:
12 de setembro de 2026
até 28 de agosto de 2026
19:30 às 21:10 -
Sábado
18:00 às 19:40 -
Domingo
19:30 às 21:10 -
Segunda-Feira
Valor: R$ 15,00 a R$ 30,00
Classificações: 14 anos
Acessibilidade: Sem Acessibilidade
Capacidade de pessoas: 100
Site: https://www.sympla.com.br/produtor/antropofagica
E-mail: [email protected]
Formato do Evento: Presencial
Local: Teatro Pyndorama
Endereço: Rua São Domingos, 224 - São Paulo / SP - 01326-000
Localização: