A coreógrafa e bailarina Rafaela Sahyoun apresenta, entre 25 de junho e 03 de julho, o solo Trovão em Terra Molhada no Centro da Terra. Criada com uma dramaturgia sinestésica, a obra propõe uma investigação profunda sobre a condição do corpo contemporâneo, frequentemente submetido a uma temporalidade hipervelocizada. “Se vivemos em estado crônico de vigília, entre alertas e a gestão algorítmica da catástrofe, algo se perde nas microfissuras dessa tensão contínua: fragmentos de experiência que não chegam a assentar no corpo. O corpo ainda está ali, mas chega defasado, em falha sintomática, como se atravessasse sucessivas desativações de si”, diz a artista.
A performance nasce da percepção de que a contemporaneidade está marcada pela aceleração permanente que torna a velocidade uma condição estrutural da forma como se produz, consome, comunica e se cria relações humanas. Nesse contexto, as pessoas ficam expostas diariamente por um volume de informações, imagens, crises e demandas que excede a capacidade de assimilação e integração. O que mais interessou à artista observar foram os efeitos dessa dinâmica sobre o corpo.
A imagem do trovão, trazida no título da obra, tem uma função metafórica relevante para a concepção do solo. “O trovão tornou-se uma imagem importante porque não é apenas um fenômeno de impacto, mas de reverberação. Ele é a atmosfera respondendo a uma descarga acumulada.” A terra molhada evoca a absorção, fertilidade e transformação, já que um solo molhado conduz eletricidade melhor do que um solo seco. Além disso, na natureza as tempestades não produzem apenas destruição; elas também redistribuem energia, renovam ciclos e fertilizam ecossistemas.
Trovão é uma das formas mais antigas da Terra “falar”. Entre contenção e iminência de transbordo, a obra busca, na multidimensionalidade, recursos de reavivamento. Convoca modos de presença que não recuam diante da sobrecarga, não como espectador externo ao desastre, mas como parte de uma rede que metaboliza o impacto em campo vibrátil compartilhado.
A dramaturgia, criada em parceria com Iaci Lomonaco, pretende criar condições para que o público saia tendo vivido uma experiência sinestésica ressonante. “Vivemos em um contexto de aceleração, excesso de estímulos e fragmentação da atenção que muitas vezes nos afasta das nossas percepções mais sutis. A obra convida o público a observar não apenas a dança, mas também aquilo que acontece dentro de si: tensões, ritmos, estados de atenção, memórias, afetos ou sensações que possam emergir durante a experiência”, complementa Rafaela.
Há algo de incidência e descarga elétrica em Trovão em Terra Molhada. Como um impacto em solo encharcado, a força não se encerra na absorção: circula e devolve ao ar vibrações subterrâneas. Nessa zona entre incidência e propagação, a obra metaboliza excessos para reativar a vitalidade, tensionando percepções e interrompendo a inércia de um presente roubado. Trovão em Terra Molhada propõe uma incursão: um tratado sobre ressonância. Frequências que infiltram superfícies saturadas e encontram eco na matéria, restituindo aos corpos sua potência de reverberação.
Sob hiperexposição, o sistema nervoso ativa mecanismos de conservação e opera por filtragem agressiva. A pulsação do sensível é domesticada e reduzida a ruído de fundo. Anestesiados, habitamos um regime de alerta entorpecido. Ao se aproximar do pensamento da filósofa Donna Haraway, a coreógrafa propõe o exercício ético e estético de “ficar com o problema”, recusando saídas fáceis do otimismo tecnológico ou do niilismo paralisante.
“Habitamos um sistema econômico que depende da extração contínua de recursos, da produtividade incessante e da captura constante da atenção. Muitas vezes, os acontecimentos alcançam os sujeitos antes que possam realmente experimentá-los. Recebemos impactos sucessivos sem tempo para escutá-los, elaborá-los ou integrá-los. A experiência acontece, mas nem sempre encontra condições para se sedimentar”, diz a artista.
Em meio a uma profunda fragmentação, a artista questiona a passividade diante dos estímulos incessantes: “Talvez a questão da obra seja justamente essa: em um mundo que frequentemente nos empurra para a distração e para a anestesia, como podemos recuperar nossa capacidade de sentir e de reverberar aquilo que nos atravessa?”.
Rafaela Sahyoun apresentou seu primeiro solo em São Paulo em 2014. Desde então, não produziu outra obra em que estivesse em cena, nutrindo um interesse maior em criar especialmente para múltiplos corpos. Ao retornar ao Brasil depois de uma temporada de cinco anos fora, a artista atuou principalmente como performer e intérprete-criadora em uma série de projetos, coletivos e companhias.
Nesse período, também trabalhou intensamente como educadora, aprofundando-se em pesquisa pedagógica e em pesquisa coreográfica. Sua relação com a cena da dança brasileira soma projetos de grande destaque, como ter criado trabalhos para importantes companhias do país, entre elas o Balé da Cidade de São Paulo, para o qual coreografou em duas ocasiões. Neste ano também está prevista criação de coreografia para o Balé Teatro Castro Alves, em Salvador. Ao longo de sua trajetória, também desenvolveu projetos, colaborações e processos criativos em diferentes contextos da dança, tanto no Brasil quanto internacionalmente.
Sobre Rafaela Sahyoun (São Paulo, 1986)
Rafaela Sahyoun, paulistana de ascendência árabe — libanesa e palestina —, reside entre São Paulo e territórios internacionais. É artista da dança e das matérias do corpo. Sua atuação se desdobra entre a criação coreográfica, o campo da educação e a cena como bailarina.
Formada pela SEAD – Salzburg Experimental Academy of Dance (AT, 2013) e pelo Trinity Laban (UK, 2009). Como educadora, desenvolve práticas pedagógicas, com ampla experiência em facilitação. Atua internacionalmente em contextos de graduação, pós-graduação e em companhias profissionais de dança e teatro. Como coreógrafa, sua obra
autoral mais recente é CRUSH, em circulação na Áustria, em Portugal e em São Paulo.
Em 2026, estreia a remontagem da obra CRUSH no projeto CROSSOVER, idealizada e performada pelo Ballet National de Marseille, sob direção de (LA)HORDE. Em 2027, a obra também será apresentada no Théâtre de la Ville, em Paris, espaço que recebeu, em 2025, um díptico coreografado por Rafaela para o Balé da Cidade de São Paulo.
A artista criou BOCA ABISSAL (2025) e Fôlego (2022) para o Balé da Cidade de São Paulo. Ambas integram o atual repertório da companhia e já foram apresentadas em palcos do Brasil, da Alemanha, Suíça e França.
Ficha Técnica
Direção, Coreografia & Performance: Rafaela Sahyoun
Codireção e colaboração artística: Iaci Lomonaco
Dramaturgia: Iaci Lomonaco & Rafaela Sahyoun
Trilha Original: Yantó
Desenho de Luz: Aline Santini
Operação de Luz: Caio Maciel
Figurino: Iaci Lomonaco, Rafaela Sahyoun e Will Sun
Fotografia: Caio Oviedo
Produção: Ricardo Henrique
Apoio: Corpo Rastreado
Assessoria de Imprensa: Angelina Colicchio e Diogo Locci – Pevi 56
Mentoria: Ana Cristina Echevenguá Teixeira
Duração: 40 minutos
Informações do evento
Datas e Horários:
25 de junho de 2026
até 3 de julho de 2026
20:00 às 20:50 -
Quinta-Feira
20:00 às 20:50 -
Sexta-Feira
Valor: R$ 48,00 a R$ 96,00
Classificações: 14 anos
Acessibilidade: Com Acessibilidade
Capacidade de pessoas: 90
Telefone para contato: (11) 99906-0642
Site: https://www.centrodaterra.org.br/rafaela-sahyoun
E-mail: [email protected]
Formato do Evento: Presencial
Local: Centro da Terra
Endereço: Rua Piracuama, 19 - São Paulo / SP - 05017-040
Localização: