Programação reúne duas danças-teatro-percussivas de Paulo Maia, uma oficina coletiva de dramaturgias solo e a exibição permanente de um curta-metragem.
A Primeira Mostra de Repertório do Núcleo 1618 ocorre dentro do projeto em torno da Revitalização do Humano desenvolvido pel’A Casa Espaço Cultural, entre os dias 13 e 15 de novembro, em São Paulo.
A programação reúne diferentes atividades e trabalhos do Núcleo 1618. Cada atividade é um capítulo (ou parte) do texto de pós-doutorado “Sobre a Transdisciplinaridade no Núcleo 1618”.
Na sexta-feira, 13 de novembro, a programação começa com a Oficina Coletiva de Dramaturgias Solo, cujo objetivo é compartilhar os processos, metodologias e inspirações do Núcleo 1618 e oferecê-los para que outras pessoas possam desenvolver intuitivamente a singularidade da própria expressão criativa.
No sábado, 14 de novembro, será apresentado Dançar a Terra, solo de Paulo Maia. Imagens euclydianas surgem entre pios, batuques e sapateados nesta segunda dança-teatro-percussiva. O estudo da primeira parte d’Os Sertões inspira a imaginação sutil em busca da conexão entre céu, terra, a água e o fogo em meio às pedras d’A Casa Espaço Cultural.
No domingo, 15 de novembro, Paulo Maia apresenta Desassossego: fragmentos…. Numa dança-teatro-percussiva, heterônimos pessoanos querem se transformar em música via alquimia interior: um hálito de música ou de sonho, qualquer coisa que faça quase sentir, qualquer coisa que faça não pensar.
A mostra conta ainda com a exibição permanente de Projeto Mantras, curta-metragem de Paulo Maia. A insistência da imagem abstrata nas próprias reverberações busca por uma sonoridade cíclica capaz de revelá-la entre o percussivo e o sutil. Qual é a imagem do som? Qual é o som da imagem?
Sobre os trabalhos
Desassossego: fragmentos…
A busca por um corpo rítmico e musical encontrou personagens filosóficos afins… Bernardo Soares, o ajudante de guarda livros inventado por Fernando Pessoa fez par com Álvaro de Campos. Trata-se da dança – teatro – percussiva Desassossego: fragmentos…, um solo no qual os heterônimos pessoanos querem se transformar em música via alquimia interior. Aqui, a alquimia interior busca pela aproximação entre corpo e espírito através da transmutação da própria personalidade. O processo visa aumentar a vontade de viver.
Ora, para que serve a existência de Bernardo Soares? Porque ele deve existir, no universo de Pessoa? Qual é a sua função essencial? Caso ele não precisasse existir, não teria existido… e não é o caso! A interpretação de José Gil explicita o quanto a existência de Soares serve unicamente para buscar sensações e trabalhar em torno delas, multiplicando-as… “[…] as sensações desdobram um espaço próprio que só pode ser apreendido se o espaço e o tempo normais, macroscópicos, tiverem já deixado de impor sua dominação.” O treino da improvisação em dança – teatro guia-se pela obediência ao fluxo momentâneo das sensações interiores, transformando-as em fluxo de movimento. “Soares cria o fragmento como gênero apropriado à expressão de tais estados, tão fragmentários e tão completos em si próprios […]”. Ele “[…] multiplica as sensações, divide-as, desdobra-as, isola-as. Faz assim surgir as sensações mais agudas, mais intensas.”, diz Gil.
O fluxo sensível e literário de Soares corre solto em cada fragmento, feito água. A percussão corporal, o derbak libanês, os guizos e a flauta equilibram timbres e frequências entre o sutil e o corpóreo. A chegada de Álvaro de Campos no baralho traz o elemento fogo, através de explosões poéticas que vão do espírito aos astros… As 10 cartas lidas “ao acaso” misturam a suavidade sensível de Soares com a fúria de Campos, numa alquimia pessoana repleta de beleza poética e musicalidade dramática.
Uma viagem imóvel despreocupada em revelar a personagem no ápice de sua trajetória pessoal. Antes, revela do início ao fim a mesma zona de intensidades alquímicas, navegando entre dança, ritmo, sensações e poesia, mesclando limites supostos.
Dançar a Terra
A leitura da primeira parte d’Os Sertões impressionou pela força literária das descrições naturais. Se no Desassossego trata-se da transformação em música, aqui a cena, o corpo quer se transformar em natureza. Do derbak ao atabaque grave, da flauta aos pios; o ensinamento do sapateado eleva a percussão corporal, rebaixando-a para os rastros rítmicos deixados na terra.
Virar água, virar caverna, falar com o fogo. Os movimentos buscam por isso, mesmo que eu já seja isto no qual quero me transformar. Ter entrado em contato com as cavernas trouxe visões, imagens e silêncios espetaculares. “As entranhas da terra”, a escuridão e o silêncio absolutos. O que fazer com isto após estas impressões estupendas? As imagens e os inesquecíveis detalhes fotografados. O percurso milenar entre as águas e as pedras resulta em intermináveis cavidades. Relevos magníficos, esplêndidas camadas sobrepostas com cinzas-azulados. Euclydes precisou forçar nas tintas da adjetivação por ser um espetáculo da natureza.
Nos fragmentos escolhidos ao acaso conforme a vontade da plateia, Euclydes da Cunha comenta, impressionado, sobre a força de resistência da natureza: “(…) persistem indestrutíveis […] inalteráveis […] não há desenraizá-las.”
A observação é transformada pelo talento literário: “Ali se associam. E, estreitamente solidárias as suas raízes, no subsolo, em apertada trama, retêm as águas, retêm as terras que se desagregam, e formam, ao cabo, num longo esforço, o solo arável em que nascem, vencendo, pela capilaridade do inextricável tecido de radículas enredadas em malhas numerosas, a sucção insaciável dos estratos e das areias. E vivem. Vivem é o termo – porque há, no fato, um traço superior à passividade da evolução vegetativa…”
Projeto Mantras
A insistência da imagem nas próprias reverberações busca por uma sonoridade cíclica capaz de revelá-la entre o percussivo e o sutil. Viagem imóvel, micro-cinema, mosaico bateria-mantra. Os mantras querem encontrar a nota contínua e expressar a insistência espiritual da vontade. A bateria ocupa o início do processo criativo junto ao baixo em prol da criação de atmosferas e trajetórias através destas composições cíclicas: batuques ou mantras que alcançam a nota contínua através da flauta, do violino e da voz. O mantra é provocativo em direção ao grito do corpo e à corporeidade do espírito. Qual é a imagem do som? Qual é o som da imagem?
As linhas abstratas são os ritmos. É preciso perseguí-las – como faz a câmera – mas também seguir com elas para onde elas levarem… A linha abstrata é a vida, o som, a cor, a sensação e o movimento. Ela é abstrata e não figurativa pois se aproxima da sensação que vibra antes das formas já reconhecidas pela percepção. Como não depende de nenhum objeto, ela ganha em liberdade. A linha desenhada permite o desdobramento instantâneo da micro-percepção. Mas a linha desenhada permanece parada ao olhar humano – é o movimento da câmera que irá transformá-la em movimento. O som – as trilhas rítmicas – quer acompanhar a imagem, expressá-la, compor com ela, fazer fusão. Mistura. Chegar ao ponto no qual não fica mais claro quem começa o processo – se o som ou o desenho. Fazer música como quem desenha… “Elas se transformam e podem mesmo se transformar uma na outra. […] Certamente não tem nada a ver com a linguagem, é ao contrário a linguagem que deve seguí-las (…)”
Som e desenho podem compor através da imagem sonora em movimento. Entre perseguir um carro, ver o céu ou aguardar a próxima gota d’água cair – para citar as imagens não abstratas do curta-metragem. Assim como a alternância entre preto e branco e colorido, as imagens não abstratas filmadas servem para enaltecer a linha abstrata, via oposição. Ora, tanto melhor se a maioria das imagens filmadas forem desenhadas pelo compositor das trilhas. Talvez haja uma imanência, na qual as causas se combinam para fortalecer o efeito: “um indivíduo funciona ele mesmo como linha de fuga; ele a cria mais do que a segue, ele mesmo é a arma viva que ele forja, mais do que se apropria dela.”
Programação
13.11, sexta-feira: Oficina Coletiva de Dramaturgias Solo
14.11, sábado: Dançar a Terra, solo de Paulo Maia
15.11, domingo: Desassossego: fragmentos…, solo de Paulo Maia
Exibição permanente: Projeto Mantras, curta-metragem de Paulo Maia
Informações do evento
Datas e Horários:
13 de novembro de 2026
até 15 de novembro de 2026
20:00 às 23:00 -
Sexta-Feira
20:00 às 21:10 -
Sábado
20:00 às 20:50 -
Domingo
Valor: R$ 20,00 a R$ 60,00
Classificações: 16 anos
Formato do Evento: Presencial
Local: A Casa Espaço Cultural
Endereço: Rua Bahia, 1260 - São Paulo / SP - 01244-000