Crédito da foto: João Abreu

Partindo dos três planos anatômicos que dividem o corpo em dois, Bestiário Pink, da coreógrafa Josefa Pereira, transforma o corte em fresta, e a fissura, em força generativa, para imaginar outros modos de existir e encontrar aquilo que pode surgir quando certas fronteiras se desfazem.

Com mais de seis anos de pesquisa e elaboração, Bestiário Pink parte de uma operação aparentemente simples: um corpo pode ser dividido ao meio em três planos — coronal, axial e sagital. Em seguida, repensa essa abordagem tradicional de classificação da anatomia ocidental, que conceitua e compreende o corpo, antes de tudo, como matéria inerte, parada e dissecável em partes separadas e categorizáveis, como ponto de partida para reencantar outras fabulações, capazes de compreender o corpo enquanto matéria de potências muito mais complexas.

A trilogia estreia no Sesc Pompeia, em São Paulo, com temporada de 10 a 27 de setembro, de quinta a domingo, a partir das 19h30. A cada noite, o público acompanha dois dos três solos que compõem o trabalho: Hidebehind (frente e trás), interpretado por Josefa Pereira; Glimpse (direita e esquerda), por Natália Mendonça; e Calor (cima e baixo), por Iara Izidoro e a colaboração do artista visual Zé Vicente.

Em Bestiário Pink, o corte não encerra o corpo em apenas duas metades. Cada corte produz uma terceira possibilidade, ou mais. As divisões impostas por esses planos abstratos deixam de ser apenas operações de separação para se tornarem frestas, fissuras ou abismos por onde podem surgir outras categorias de existência. Essa criação da coreógrafa brasileira Josefa Pereira coincide justamente com seu processo de imigração para Portugal, acrescentando a esta ideia de corte camadas de vivência entre os dois continentes, ou entre norte e sul global, centro e periferia, e ainda outros binários como civilização e selvagem, estranho e familiar, sujeito e objeto, masculino e feminino.

A importância que a cor rosa-choque assume nesse contexto é um exemplo fundamental de como a experiência de viver entre mundos — Brasil x Portugal — atravessa o trabalho. O pink aparece aqui como uma cor espectral em dois sentidos: tanto em sua dimensão de fenômeno cromático, como também enquanto aparição espectral e fantasmagórica que, de certa forma, assombrou a artista ao investigar as histórias dessa cor.

O assombro pelo rosa e pela sua impossibilidade de desfrutar do status de neutralidade de outras cores levou a artista a uma relação fundamental com a cor em seu trabalho. A popularização da cor rosa no continente europeu, enquanto categoria de cor distinta do vermelho e do amarelo, está relacionada à alta da circulação do pigmento, quando este passou a ser extraído do pau-brasil a partir da exploração da mão de obra escravizada. O interesse por essa árvore nacional, que se encontra ainda hoje em perigo de extinção, não se restringia à exploração da madeira, mas também à extração do pigmento e sua alta capacidade de fixação.

A trilogia

Hidebehind, a peça inaugural da trilogia “Bestiário Pink” da coreógrafa Josefa Pereira, é uma investigação sobre aparição e resistência, tendo como ponto de partida a genealogia da cor rosa e a própria pele da artista. Inspirada na criatura do “Livro dos seres imaginários” de Borges e Guerrero — um ser que se esconde e provoca desaparecimentos —, a obra parte daquilo “que se esconde atrás” para repensar a noção de apagamento, transformando a coreografia em um gesto contínuo de transformação e insistência.

Já Glimpse aprofunda a investigação sobre a desaparição e a reaparição do corpo, utilizando a luz como matéria coreográfica para explorar a oscilação entre mobilidade e imobilidade. Permeada pelo conceito de “existência vaga-lume” de Georges Didi-Huberman, a obra volta seu olhar para existências que sobrevivem nas margens, fora dos grandes eixos de visibilidade, propondo estratégias desviantes de permanência. Com a nova interpretação de Natália Mendonça, o solo expande a pesquisa da coreógrafa sobre luz e ficção científica, transformando o palco em um vislumbre poético sobre como corpos resistem e persistem, mesmo quando operam fora dos focos centrais.

Por sua vez, Calor propõe uma investigação radical sobre a desestabilização dos limites corporais, onde noções como cima e baixo, norte e sul ou dentro e fora deixam de operar como polos estáveis. Interpretada por Iara Izidoro e desenvolvida em diálogo com um objeto escultórico do artista visual Zé Vicente, a obra é concebida pensando no calor como uma força de agitação e fusão que atravessa a matéria, convidando o espectador a testemunhar corpos que derretem bordas, amalgamam divisões e inventam rotas alternativas. Ao explorar o que surge quando as coisas deixam de caber em seus próprios contornos, Calor manifesta-se como um movimento de efervescência poética, revelando a coreografia como um espaço potente de transformação, transbordamento e reinvenção do existir.

 

Quinta-feira – dia 10/9
Calor + Glimpse

Sexta-feira – dia 11/9
Hidebehind + Glimpse

Sábado – dia 12/9
Hidebehind + Calor

Domingo – dia 13/9
Calor + Glimpse

Quinta-feira – dia 17/9
Hidebehind + Calor

Sexta-feira – dia 18/9
Calor + Glimpse

Sábado – dia 19/9
Hidebehind + Glimpse

Domingo – dia 20/9
Hidebehind + Calor

Quinta-feira – dia 24/9
Hidebehind + Glimpse

Sexta-feira – dia 25/9
Hidebehind + Calor

Sábado – dia 26/9
Calor + Glimpse

Domingo – dia 27/9
Hidebehind + Glimpse

 

Concepção e coreografia Josefa Pereira

Performances de Iara Izidoro, Josefa Pereira, Natália Mendonça

Objeto escultórico Zé Vicente

Adaptação do desenho de luz e operação Ska Batista

Assistência de direção Daniel Lühmann

Trilha Sonora Ágatha Cigarra

Operação trilha Sonora Ágatha Cigarra e Larie

Fotos Baha Göken Yalim, Micaela Wernicke, Patrícia Black, La Casa Encendida/Estudio Perplejo

Gestão (PT) Pitoreskousadia – Kora Criativa / Hannya Melo

Produção executiva (BR)  Iolanda Sinatra (MEIO produções)

Assistência de produção (BR) Ale Fernandes

Informações do evento

Datas e Horários:
10 de setembro de 2026 até 27 de setembro de 2026 19:30 às 21:30 - Quinta-Feira 19:30 às 21:30 - Sexta-Feira 19:30 às 21:30 - Sábado 17:30 às 19:30 - Domingo

Valor: R$ 15,00 a R$ 50,00

Classificações: 16 anos

Acessibilidade: Com Acessibilidade

Site: https://www.sescsp.org.br/programacao/bestiario-pink/

Formato do Evento: Presencial

Local: Sesc Pompeia

Endereço: Rua Clélia, 93 - São Paulo / SP - 05042000